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Conto Romances Arquivo 006

BebeDaniels renomeado Macho e Fêmea Deus os Criou

Cinema São José. Baixos da Boa Vista. Deserto agora nada faz seu vazio crer do amontoado de gentes à noite.

Final da manhã. Uma menina, de volta da escola, soletra dos cartazes as chamadas para os filmes. Um senhor com encontro marcado assobia.

Raphael aprendiz de alfaiate, ainda, bigode curto da moda. A mãe, Joanna dos Anjos, queria seu nome chamado Álvaro, tanto branca a pele, mas lindo que era de cabelos em cachos Raphael, qual archanjo, em registro de cartório firmou-se. Sibilo em desafino.

Assobia-cantábile o Capricho Italiano; Peixoto virá, espera. Andante com passo em retardo por entre os suportes dos cartazes distrai-se com as scenas paradas, posturas dos astros.

De viés a menina admira o bico armado para o silvo e as bochechas que inflam e desinflam no glissar da melodia. Anda e para no compasso dele.

Pausa os passos frente a cada cartaz e o melódico Capricho, intenso a cada avanço, muda em sincopados diversos conforme seja drama comédia ou ação o gênero anunciado; a menina acompanha vivace as modulações, os olhos comprovam-na divertida

Da algibeira retira benigno bexiga murcha, sopra forte e o vermelho brilhante surpresa a menina. Oferece ele, recusa ela, de pronto dois passos atrás: a mãe alertara contra presentes de estranhos, o Morcego quando sanguessuga finge soprar; o corvo é bom de bico. Querida é o nome da menina, na língua da mãe é azize Querida.

Para encontro marcado, Raphael no vestíbulo Peixoto no porão, urge desça Raphael suba Peixoto. Raphael paciente espera. O esperado Peixoto, distraído das horas, trabalha compenetrado.

Tela qual branca vela oculta no veludo vinho da cortina. Ao lado da tela um piano mudo, sem partitura na estante. O porão embaixo.

Prohibida entrada de estranhos e do sol, vedada luz, a réstia é amarela mortiça lâmpada em quarenta incandescentes velas.

Peixoto regala-se no prazer de sua vida. Uma prancha de feltro, a página em branco de seu engenho e arte. O cartaz do filme: Constela sobre ele, sorrisos abertos escorridas lágrimas fechados cenhos iluminadas faces gestos carregados aconchegados abraços, photos ao acaso. Scenas mudas de bocas próximas em quase-beijo olhos em sombras destacados. Mundéu de astros e estrelas da tela. Com gosto geométrico Peixoto rearranja as scenas como se ordenasse o caos em firmamento: pregadas com tachas de latão ourado sobre fundo vinháceo, cordões trançados dão limite de tela ao espaço, estrelas de muitas pontas escrito Ação Drama Romance derramados caracteres, brilhos de lentejoulas por borrifos esparsos, em letras graúdas pomposas cores Breve Luxuosa Estréia: confecção dos cartazes é o ofício a cada manhã reiterado prazer de passar primeiro por suas mãos a próxima atração.

Estalidos.

Aqui, no vizinho, pelas casas dos bairros o som do rádio une a cidade. Donas de casa sonolentas, domésticas a varrer as folhas desprezadas, balconistas de camisa branca cabelo oleado, todos ouvem o tango nasalado em meio aos chiados arrancos do acordeón. Peixoto pára o trabalho e sonha, lacrimoso, de olho na parede, sua tela particular: a parede céu de estrelas:

Divas.

brilham firmemente.

Entre elas, a Grandiva.

Suspiroso Peixoto, suave paixão. No céu das deusas de infinito fundo, fixara de pérolas vestida a Grandiva, ela pérola especial, a boca preto coração encena beijo num sopro frexa, ombro redondo apoio do queixo querubim.

Nas ondas curtas radiofônicas a cantante implora argentina ao amado confesse o amor escondido. Dimealoído; guardarei segredo, telojuroporti, entre estalidos.

Peixoto no melhor da sua comedida vida, pudesse a manhã no eterno mergulhar-se, os passamanes nos dedos cuidosos contornam os astros, Peixoto busca adivinhar das poses congeladas as scenas de sonho, adivinhar do imóvel das photos do filme o roteiro dos movimentos e, divertido travesso, traça na prancha nova ordem de inversa seqüência. Meticulosamente.

A cantante cala-se; e o locutor em voz grave e melodiosa ondulação emite da rádio potência e prefixo: caros ouvintes, anunciamos nossa próxima audição.

Pronta a prancha por Peixoto soerguido estandarte, carga frágil qual delicado cristal em suas mãos feito adeso fido a conduzir andor, caminha os passos de suspeitoso tigre no sobreaviso de caçador, do porão à platéia uma escada subida, à sala de espera em seguida, em suporte de cimo redondo colunas de pesadas bases incrusta-a feito jóia rara lapidada, passos dois afasta-se a mirar o encanto final: artista à minha maneira na minha matéria sou. Não vê Raphael.

A Menina, aprendendo a ler:

Macho&Fêmea.

Fatal. Felino.

E no cartaz, o que vê, não precisa ler: os olhos do tigre nos olhos da mulher é verde no verde no preto da photo, colunas babilônicas estátuas de assurbanipales montado em pedra papelão o gigantesco scenário, odaliscas aos pés do pharaó entre as longas onduladas barbas a boca ordena silêncios de ouro.

Raphael, molto expressivo eleva a língua ao palato:  Senhor Juvenal Peixoto, almejo ter sido pontual; educado saúda e na cadência estende a palma da mão.

Peixoto, arrancado do êxtase de artista contemplar-se, estende a sua:

A quem devo? inquire surpreso.

O pianista sou, Raphael seu criado. Para o fundo musical.

Ah! Sim! diz ele surpreeendido e contente:

necessito quem ao piano alterne sons musicais segundo diferentes emoções enquanto a scena muda na tela: sublinhe marcados dramas leves risos, suspense de ação, por exemplo

aqui!; com o dedo aponta a photo do cartaz, aqui no salão do navio os pares dançam antes da tempestade e a musica fala do enlevo social e sutil prenuncia o trágico; aqui o vento torpedeia a nau e requer do músico melodie acordes fortes em clima de febril dissonância com moderna influência atonal; aqui no cartaz maior desfalecida a Actriz nos braços do Actor protetor prenuncia um drama musical de românticas inflexões; infindo mar encarneirado no limite a ilha serena harmonia apaziguados ânimos. Náufragos, cicia Peixoto.

Náufragos, pensa a menina, preciso ensinar à minha mãe o que náufrago quer dizer; minha mãe que veio do mar, em vapor de terceira classe, e no mar o vapor não se afundou. Veio depois no embalo do trem noite inteira e meio dia corajosa sem saber onde chegar e, aqui cada vez mais longe do mar, chegou, sem parar de trabalhar.

Em boa hora se apresenta o senhor, correto e pontual; estou no momento sem partitura musical nem músico, desregrado sucumbiu da thysica o antigo pianista, curta vida levada em bebida e mulher.

Na vida somos passageiros todos ao soprar dos sobreventos, o corpo mera carga de tribulações: Grave e lento acrescenta Raphael: a morte é porto de embarque para nova carga novos portos rumo à purificada luz, além:

Sim, sou espiritualista kardecista afirma Raphael encarnado olhar.

Titubeia Peixoto frente ao testemunho de Rapahel candidato a músico. Católico praticante do seminário egresso por arder na carne tentadora paixão, Juvenal Peixoto muda a conversa e demora os pensamentos em submersa dúvida entre ter mudo piano cinema sem som e contratar espírita: teme! de um lado o padre e de outro o patrão. Se Damiano confessor condena-me para os longínquos infernos futuro próximo, o patrão mais prático ameaçam-me desemprego e fome próximos no presente. Explica:

Macho e Fêmea. É enredo de náufragos ricos, salvos pelo mordomo criado em agruras afeito às dificuldades da vida; desconversa Peixoto para ganhar tempo; o dedo aponta o casal em negro contorno recortado no céu do cartaz, ele dominando a cena, ela em seus braços corpo que cai suspenso. O mordomo dos ricos equipado para arrostar agrestes, madame arrogante enamora-se dele salvador. Actor e Actriz.

Minha mãe é mulher forte firme contra a rústica vida, pensa a menina na boléia da conversa dos dois; vapor de terceira classe é navio de luxo escada acima; escada abaixo é porão que requer carpintaria, ludibriar a fome no caldo de carne em água de batata bóia fria a verdura cozida, em prato de flandres duro pescoço aos fiapos sobrenada.

Verdes folhas lavadas de alface, hortelã picados tomates e trigo azeite e sal e limão, a vida melhor agora, espera-me em casa o balanço embaixo da mangueira, sol frutos e céu azul. Querida, assim o nome azize diz querida nos montes olíbano perfumados da mãe, e querida a menina é aprendiz de rebater aparas no áspero da vida. Cuida dos irmãos, e sonha muitos filhos seus.

Para o filme não vieram as partituras, será no improviso o frasear musical. Continua Peixoto, tentado a contratar debalde credo e temor à fome imediata, dos infernos cuidará depois.

Se todo mal fosse esse; alegre vivaz fala Raphael entre risos; a menina ouve aprendiz. E guarda para repetir como adágios futuros.

Viria pela estrada de ferro a partitura, junto com as latas contendo em rolo as fitas; mas na estação de trem entre fumaças e o apitar do foguista restaram eu e meu desaponto. Fala Peixoto entrecortes.

Se o jazz não inventou o impromptu, nele sôfrego bebeu; o impreciso é da vida, carregada de temas e cada tema botão de variações; philosopha Raphael. A música é tempo que se não aprisiona, ilusão das partituras filhas da soberba humana; estamos aqui de passagem, contornos de arabescos variam ritmo e compasso, tonalidade modo harmonia variam nuvem e fumaça no firme azul estampa falsa do infinito; nas telas do museu o quadro imóvel, no cinema não.

Peixoto gosta.

Assim, partitura sim e não. O senhor invente. E passa Peixoto a falar com paixão, contar das fitas o enredo, atores e direção. Scenário e produção. Enciclopédico, sobrepuja Raphael com seu religioso filosofar. Espera, ao menos:

luxuosamente encenada, magistralmente regida.

Macho e Fêmea, a fita; dentro do filme um sonho dentro do sonho começa outro filme.

Mescla o passado no presente, a Madame sonha no filme um sonho enredo para novo filme: reproduz a pompa de outras eras, Babilônia retorna real como a vida foi.

A história é talvez.

Era talvez um reipharaó babilônico assurbanipal sem barba mas roupas de metal lavrado ouro de lata, sentado em trono à sua volta a Preferida, de pérolas revestida.

DiligenteMordomo é Reipharaó factotum

LadyMadame, a dona do sonho, refaz-se da realidade náufraga em banheira de mármore onde leite de cabra carícia na pele promessa de mel em melhores dias

a repudiada LadyMadame Actriz.

reipharaó Mordomo Actor.

porém,

a coadjuvante na fita é dele preferida no enredo.

E confesso, minha preferida também. Seu nome se chama BebeDaniels, por ela valeria a pena que o cinema se inventasse em photos que se mexem, revirar de olhos meneios de mãos:

E, como não: Lábios feitio de coração. Touca de nobrespedras, penas de branco pavão arco aberto de estrelas olhos em suave scintilar, pérolas quantas engranzam as voltas tantas do colar. Divaga Peixoto, os olhos perdidos na tela da mente: Bebe Daniels, mostrada em photo veremos no filme, em seu colo a cabeça manso repousa felino pensar-se fera

guerra e doçura

tranças do Amor.

Enamora-me olhar

seus lábios rosas a desabrochar.

Se falasse teria

tom de voz símile cristal

que de leve tange

meu pensar

O autor da novela será Kardecista, talvez, ensaia Raphael mais interessado nas dimensões do tempo cruzados do que no namoro anêmico de Peixoto pela Actriz. E, filosofa espírita: Madame sonha a vida passada em outra vida, no luxo da Babilônia outrora reipharaó paga nesta vida o carma passando a ser mordomo da mulher que humilhou, tempestuosos males frágeis nas vidas quando numa senhores escravos voltamos arcados pela chibata, tome cuidado a LadyMadame quem sabe no sonho um aviso de na vida futura não adiar a mocsa prolongado samsara, talvez. Será quiçá o diretor hinduísta, ponteia Raphael divagando agora altos pensamentos.

Peixoto, quase arrependido de sobrepor o piano à religião, a fome ao inferno, oferta como presente foto da preferida AtcrizCoadjuvante Bebe Daniels em tamanho grande, e a Meninaquerida fica no querer sem pedir retrato da moça linda vestida de pavão, lavadas as cores pela avidez do arco-íris resta o cinza para as pérolas e, cinzas assim as pérolas mais brancas enriquecem o colar da memória da vida passageira, olhos em grafite sentinelas.

Despedem-se amigos.

Vai azizeMenina pela rua afora, vai Peixoto platéia adentro e Raphael vai.

E vai azizeMenina pela rua afora, estrada de passa boi passa boiada, curtume do matadouro vizinho viz boiadeira rua oposta, minha mãe sem tempo de sonhar vidas corridas tanto o futuro urge faina desoras, espera-me um balanço de corda à sombra frondosa da mangueira mas não posso balançar-me agora; mãe e filha de porta em porta a vender artigos sortimentos de sabonete ramonas agulhas botões lenços na sacola mascate, para ajudar na despesa da casa enquanto o pai pelas roças oferece cortes de fazenda ou mesmo miudezas para beleza e encomendas da venda em malas mascates há semanas M´Lhes não volta, a mãe a filha pela mão desde pequena fala português que M´lha não sabe falar.

E vai Peixoto platéia adentro o piano ao canto mudo, comido do remorso de ao devoto sobrepujar a fome, direto prumabaixo porão. Arruma as fotos na prancha pudera assim por rearranjo de pensamentos o peito desopresso calmo respirar. Dispostas preto no branco em diagonal, gosto assim, os letreiros acima escrita sobre estrela estourada em vermelho amarelos estilhaços a palavra breve em gordas letras, abaixo o nome da fita A Favorita de Paris: Esmeralda cigana é salva ao final por Quasimodo um moço sedutor e sineiro da NotreDame, de cabelos valentinos. Que pena, Bebe Daniels, neste filme nem coadjuvante é.

Pruir de pecados. Padre Damiano, que não saiba de Raphael espírita por mim contratado o reverente clérigo. Como de costume, em voz solene tutear-me-á como advertência: Começarei a rezar por ti em pecado descaído; a persistires na ofensa um local no porão do inferno aberto espera-te por castigo. Forno de muito fogo, fogo falto de luz, queimará no escuro tua carne venal.

Raphael persiste fato ipsissima verba na memória:

Os dedos pianistas os dedos de alfaiate, os dedos como quem n’agulha enfia a linha ou dedilha voláteis teclas são assim em Peixoto os pensamentos chuleios reversos; rememora feito na mente impresso fato: Raphael, o dorso da mão descansa na palma, enquanto pausa mansa fala revelar a palmatória castigo da alma, rápido um pensamento afiado aço corta as pontas de outros pensamentos e Peixoto s´inquieta inda mais: com certeza irá Raphael kardecista, sobrepondo-se ao pianista, pregar de improviso os versos do evangelho segundo os espíritas, aproveitando-se do enredo metempsicóptico, para provar que os espíritos descarnados em outra vida na matéria instalam-se retornados; jamais Damiano padre me perdoará aflito Peixoto arremata findo: terei sido assassino em pregressa carne e num repente o ímpeto volte cruévil, castigo de contratar quem zomba das rezas, AveMaria peço graças, ilumine Raphael ao piano por Vossa intercessão antes de ele jactar ser sua música um ectoplasma, graças reitero em preces. Os olhos voltados para o céu da parede onde Bebe Daniels coberta de pérola convida-o para o amor.

Raphael vai pelas ruas assaz moderados passos, os pensamentos prestos movimentos, entreliça liados temas, desde o novo emprego ajudar nos sumptos embora aquém esteja pianista quanto goza n’alma a música e meu repertório é pequeno vizinho do jazz impromptu salvo ter nos dedos mais técnica para agulha e dedal alfaiate de corte e costura se eu pudesse era orquestra tanto sou philharmônico; Raphael pelas ruas diminuendo o entrelaçar dos pensamentos extrai no vivo-aroma suave melodia, Olga Amor Clarão reluz memória qual tela aura de antevisão, fulgor estelar futuro promissor. Para ela deu de presente a Actriz em ampliada photo. E convida-a para o cinema sábado à noite estréia de M&F, quando ele pianista aprendiz de alfaiate dará para o filme a trilha das emoções.

Olga, ao banho vai. Banho de estrelActriz: num leito de mármore imerso o corpo branca pele de luz esculpida banheira de pés esmaltado ferro e o leite de cabra cinzel do imperfeito abranda ressequidos se por ventura o sol caustica ou o vento severiza. Nada disso o tosco banheiro de Olga tem.

Mas tem na brasa olíbano ascender espiral.

Bacia de verde esmalte se o mármore falta, na água morna ervas a perfumar, se o leite de cabra é para romanas pagãs a indústria garante a beleza na pharmacêutica moderna. Sais tonificam a cútis. Olga sente a água agradecer os contornos de seu corpo.

Cremes acariciam a pele e o pó-de-arroz dá o tom da luz na tela projetada.

Traços de bâton, soprar de beijos. Riscos de lápis pretos, acentuado olhar. Completa seja linda Olga um chuveiro de aljôfar em cada brinco. E o amor que Olga descobre por Raphael.

Si

Yo se que me querés

Yo se que me adorás

Dimeloaloido

o acordeon introduz a orquestra típica e do gramophone invadem sons o quarto perfumado. Gyra gyra o disco e o tango chora sabedorias.

Nomelodesís

Dimeloaloido

A photo na parede, estrelActriz olhar em branco e preto, expressivos na tela seus olhos dispensam letreiros reconhecidas zanga, ternura abrandada pálpebra na surpresa dilatada, correm nela as lágrimas são nossos soluços se ama ou sofre na tela, alegria é riso feito sem som e nossa a gargalhada na platéia.

No grande espelho os olhos refletidos, quer Olga sejam ao olhos as emoções d’alma, neles se retratem pura graça, reflitam no luziluz piscar agitado se gostam muito, não se detenham a fixofitar e corram brincalhões para o viés, esconde-esconde amoitado pelos cílios, prontos para lágrimas se comovidos. Olhos marotos como o amor.

O amor, moleque maroto, não se pode ocultar.

Qu’El amor es una cosa que no se puede ocultar

Tango

Os trágicos passos da vida:

te amo

Dimeloaloido

Guardaré segredo

Telojuroporti

Telojuropormi

A photo na parede no quarto de Olga, estrelcAtriz pérolas entrevistas acariciando a nuca o cabelo curto retorcidas pontas desenham-se na face malícias, florido lenço moldura modelar beleza.

No grande espelhos as pérolas, que Olga não as tem; mas seus dentes tesouro do poeta. Fileira de apuro, no riso a rima dos lábios coração abrindo-se devagar é jóia exposta brilhante gema argentino som. Hoje no cinema homem e mulher desencontros na tela, Raphael ao piano melodiará o amor, o quanto gosta de mi.

Amor, maior do quanto dure a vida.

Eterno amor, efêmera vida.

Piano ao cair da tarde eldorada no azul remanente; Solace melodiam os dedos pianistas de Raphael, um ou dois erros díssones que ele nem corrige. Raphael feliz pelo emprego de músico ao pé da tela, Olga amor de minha vida, caso-me com ela de véu e grinalda, construirei nosso ninho, para beijos furtivos roubo tempo do trabalho, na entrada da casa a alfaiataria, qual joão-de-barro arrebate do paraíso. Não pediu para Juvenal Peixoto gerente mostrar-lhe o filme; e à sua frente a inspiração é branca tela; não sabe da fita a seqüência, do argumento mal tem ciência; não é ao piano o exímio alfaiate, aprendiz embora; mas precisa do piano para no recorte de seus sonhos construir a alfaiataria. A tarde na janela abre-se indefinida e derruído futuro se indicia.

Palmas no umbral da porta.

Descerradas as cortinas no enquadrado da janela a Menina sorridente como no cinema naquela quente manhã vira. Junto a mãe, numa das mãos a sacola mascate na outra a Menina. Hoje Raphael nada compraria, entreaberta a porta, não fosse relembrar-se da Menina e acreditar no acaso presença da Mão Divina. Olha para a mulher e surpreende, aterrado, estalo na aura antes límpidas cores de ânimo imbatível.

Abre a porta e bondoso diz precisar de um lenço apenas, lenço azul para laço nos cabelos; mas a senhora com certeza sofre amarguras nesta vida.

Ao dó vislumbrado no olhar de Raphael diz a Senhora em português carente:

Não me queixo!

e continua, em vocabulário de línguas misturadas de esgarçado entendimento as palavras órfãs num esforço de contar uma fábula rejuntarem-se das plurais direções dando à seqüência o sentido exato.

A fábula: um homem muito velho, nunca poupado pela vida, tem sustento na lenha que tira da floresta para revenda: o que na juventude era promessa de futuro na velhice mais parece ter sido para essa faina maldito. Assim, pede em queixosos lamentos venha dar a Morte fim no sofrimento. A Morte, sempre muito atarefada, num tempo roubado à faina sensibilizada por ele favorecê-lo vem: Aqui estou, entrega a alma e siga-me.

Assustado o homem, a quem a vida dera não apenas sofrimento mas dele fez aprendiz das artimanhas argumenta: A Senhora entendeu mal; quero apenas que me ajude com este feixe, grande demais para minhas forças. E, se conhece algum Anjo, desses bons habitantes da luz, faça-o vir até mim porque quero trocar minha cruz, esta também difícil de carregar e nem foi ela que escolhi, diferente do feixe de lenha que hoje errei no tamanho e peso.

Vem o Anjo da Vida e pede-lhe escolha, dentre os vários lenhos de minha reserva de cruzes, o que melhor lhe aprouver: e será a sua cruz.

Desconfortável uma de espinhosas espículas, pesa nas costas descomunal tamanho braços desiguais desajeitado aprumo madeira de mal-cheirosa casca outras, decide por uma pequena leve e cômoda em seus ombros encaixe como côncavo no convexo fecho em fechadura como macho e fêmea a pressão do colchete espiralada rosca em parafuso. Esta! grita contente pelo achado.

E o Anjo da Vida, sem nenhuma caçoada na voz, celeste diz sereno e sábio: esta é a cruz já era sua, dada por Deus carregada por você durante os anos queixosos de sua vida.

Cada frase várias vezes repetida, decide Raphael juntar nas plurais direções o sentido falto às palavras desgarradas.

Queixumes num rebojo de sons firmeza em outro, são os olhos aos céus voltados a cada vez Allah pronuncia a língua no palato estalada crê Raphael referir-se a Deus reverenciada.

Anjo de coloridas asas quando a Senhora bem para trás abre os braços acima da cabeça e pronuncia djin ele pergunta angim a filha traduz anjo grande assim, falando à maleta ajeita nas costas o corpo curvado a mão cofiando o mento qual longa barba trôpegos passos arrastada voz crespa face por dor e cansaço completa a filha como entretítulo: velho queixoso da vida dura pede venha o Anjo da Morte e complete sua sina.

Aponta um poste com as madeiras travessas, ele entende luz. A filha corrige: cruz.

Vários postes, um após outro assinalado: várias cruzes, ele deduz.

Arqueia as costas, mostra um poste, desarqueia um outro ombreia na seqüência a rua inteira até que do portão as ripas travejados  encaixes mostra e no rosto o alívio estampa-se de icto o pronto riso os dentes lindos em fieira madrepérola.

Na largura da costa e força do ombro a balança e metro da Justiça Divina medem o fardo de cada um.

E conclui para Raphael, que notara sua aura carunchada na possessão maligna: Assim, de todas as cruzes na vida em oferta por Allah, a minha é a menor; portanto não me queixo.

Quer apenas um lenço? termina por dizer.

Mais comprei hoje, valor para toda vida. Responde Raphael, logo empós fora do mero raciocínio resolver nos desencontros da fala o certo sentimento:

O Anjo do Senhor anunciou a um queixoso, se tanto o fazia sofrer a cruz a ele imposta, a liberdade de escolher, dentre as várias num galpão largadas, qual queria carregar. Sopesou diversas, em desconfortos crescentes; eleita a mais leve e menor ouve do Anjo ser contra esta cruz, há muito por ele carregada, seus muitos clamares queixosos. Quer apenas um lenço?

Ânimo inquebrantável, pensa Raphael a língua no palato do pensamento.

Entretanto entretelas. Na aura da mulher chuviscos de imprecisões. Obsessor, se há, longe está de onde alcança o míope de minha iniciante mediunidade. Estivesse aqui a minha mãe Joana dos Anjos, e ela experiente das runas e rezas veria o mal porvir a essa mulher e prevenir, quiçá.

É da vida sofrer fatalidades; só um lenço? Leve um al-hilâl.

Raphael comprou também um alfinete fantasia. Para Olga prender flores em sua linda boina de veludo.

E a certeza dos malferidos feito flores daninhas sementes das trevas nos campos em luta solitária a brava mulher, que se afasta. Joana dos Anjos, que do quintal a tudo vira, confirmará para o filho os ataques violentos sofridos por seu ânimo inquebrantável; e promete ajuda.

Voltam ao filme suas preocupações, agora com a certeza de poder resolver; se não ajudei a mulher com seus problemas, ela solucionou o meu.

Com esforço ofereceu-me retalhos que a Menina alinhavou; eu costurei.

Não pedira para Juvenal Peixoto gerente mostrar-lhe o filme naquela manhã mas não importa: os olhos bem fechados trazem as imagens supostas em suposta tela onde se desenrola película de luz compondo o preto sobre o branco desmaiado em cinza as scenas de cinema. Assim são os filmes: o que se vê numa fita nada difere da outra a ser vista: sucede o apreensivo à calmaria na comédia sugere-se o drama por vir, por momentos a ventura sobrepõe-se à desdita quando em suspenso vigiamos os actos dos heróis; recortes de uma fazenda a se comporem vestimenta de emoções desde que no devido lugar ligados; prepararei eu retalhos musicais para a ordem imprevista dos previsíveis segmentos. Filme é caos calculado, assim meu fundo musical.

Ao piano, dedilhados sons, para quando a família reunida feliz não sabe da provação divina por vir; o mordomo serviçal ninguém o nota apenas aos préstimos seus, tão regulares e transcorridos que da natureza parecem fluir no dia-a-dia. Piano calmo, como numa tarde de longínquos sons em alguém percute o passado; e do fundo cavo surgirem sentimentos, antes impreciso aroma. Para a festa noturna, estranhos na noite visitas mundanas, o sincopado acentuará o ligeiro e, num tango valentino de chuleados passos pelas bordas do salão casais festejam o encontro do corpo, o mordomo a circular entre as gentes sem olhos para ele mas gulosos das oferendas de queijos de França e vinhos, sem dúvida o mais belo dos homens presentes; num repente o temporal e mais um trágico: Raphael dá-se conta de não ter dedos músicos que correspondessem à tormenta do mar. Faz-se branco na mente somem brancas as presumidas scenas o preto em cinza derretido na tela encardidamente.

A tempestade requer sonoridades além das pobrezas que posso do piano retirar, defeito de meus dedos afeitos à agulha e dedal e duros na apojatura. Não tenho orquestra, sequer sou maestro. Grandes massas sonoras nas scenas de intenso drama os motivos fluidos deslocarem-se sons entre ações; a tempestade em branco e preto, o adernar da barcaça as ondas goelas de repentinos dentes de saliva molhados.

Lembra-se da Mulher e o vissungo de português e língua natal acrescidos gestos e timbres de modulada voz, maná de luzes para meu entendimento: Tempos modernos, a victrola faz nascer da cera a música, os discos fontes rica de sons da voz do cantor ao uníssono orquestral: Farei uso da victrola. Que venham Primitivos tambores, as cordas grossas repentinos violinos a tempestade em alto mar, os olhos de enorme susto de LadyMadameActriz sublinhados pelo clangorejar da natureza contra a soberba humana, o MordomoActor os pés seguros na agitação desordenada os românticos emprestam-me dos recônditos d´alma a forja subterrânea, e darei cores ao desbotado dimensões terceiras ao chapado.

Peixoto ficará contente do colorido que darei à fita perdida no tempo de ser mudo quando nas ondas do rádio soltos no ar navegam magnéticos eflúvios de meu amor imenso por você Olga quisera eu ser médium receptor com tal clareza transmissor, dizer aos seus ouvidos meus segredos guardados, telojuro pormim.

Vamos-nos casar, até que a morte em outra vida nos reúna num só coração.

Arquivo 006  de Conto Romances

Versão de 17/07/2009

Paulino Tarraf

Versão de 26/11/2007

Versões anteriores:

29/05/2004

27/12/2002

Conto Romances Arquivo 07

Fauno de Pedra

Perfil, atento entre folhas enverdecido limo, nas mãos a flauta e pés caprinos, o Fauno na fria sombra do úmido jardim, permanente estátua a sugerir busca lúbrica que sua carne de pedra nunca sai do lugar. Fauno não mais, velho guardião apenas amoitado, e somente seu olhar amendoa promessas que seus pés bífidos na pedra fincados nunca fora do mesmo lugar.
Passos rápidos, quase ninfas em flor ainda nas alamedas os moços indiferentes às amêndoas dos olhos de pedra do Fauno, outros ninfas não mais, mãos nos bolsos, disfarçam em duros passos os rápidos olhares quebrados, nem os requebros do andar passam despercebidos por Miro nem o quanto o tédio tamanho arrancou-os de casa no entardecer molhado do Fauno, quase ninfas, passos rápidos entra e sai por entre mofo de folhas mortas lavadas de amoníaco vai e vem no sempre do mesmo lugar, corre a urina solta entre olhares soltos a correrem mesmo se o jato não vem.
Rápida troca de olhares, dirigidos lânguidos para Miro imploram, olhar de pálpebra descaída cansaço enrugado ombros derreados, todos eles mais velhas que Miro flor da idade não olha para ninguém, hoje pelo menos, recheada em músculos salientes as calças justas, a boca de peixe a língua fina, curto ondeado o cabelo curto quase rente, na face rósea cicatriz lateral, sorriso de dentes ralados afoitos mordem o ar, só aceita dinheiro e bem provocado pode matar. Hoje Miro não vem; e, há três dias Miro não vem e ele, se o condenado à morte tem nome chamam-no os Mensageiros da Desdita pelo nome Victor, fina ironia um achado ser Victor belo nome, mesmo nome do escultor renomado autor do Fauno plantado neste decadente jardim, Fauno a lembrar um Moisés, de flauta inconseqüente no lugar das tábuas de instituídas leis. Próprio para o lugar. Victor. Entristecido a cismar negros pensamentos de trazer no sangue o mal da metade do século. Olhos voltados para a morte encarnada em Miro, que não vem. Miro fauno, pupa ainda à flor da idade, caçador de ninfas fenecidas.
Se Miro à espreita das fenecidas ninfas, espreitaram-no os olhos de Victor em busca da destreza de Miro, serrilhados dentes afiado punhal, movido pelo ódio boca de peixe cicatriz em vírgula, em suas mãos a lâmina é mestra em feridas esculpir.
Não tanto velha assim, cansado desde ninfa iniciante, os pés nunca no mesmo lugar e agora não tanto velha assim a morte ameaça horrível repugnância dilacerar seu corpo feito na medida do prazer amado. Não está hoje aqui como há três dias Miro não vem, boca de peixe dentes em lâmina carrega um punhal e bem provocado pode matar alguém que outrora delícias de carne para Victor implorar com olhar descaído seu corpo quente para o desassossego das mãos, um afago distraído, um abraço desigual, algo com que sonhar mas alguém que bem provocado, hoje, pode matar, antes que a morte diluída no sangue apodreça em vida esse corpo feito na medida do prazer de amar.

Alguém que já matou; Victor sabe de um crime sem solução de notícia nos jornais. Um assassino de reserva para as secretas intenções, testemunha ocular reserva-se de contar com quem assassino a vítima emparelhada a bruma entranhou, hoje como ontem e trasantontem, à espera de acontecer de novo busca entre os verdes úmidos da alameda a boca de peixe em sorriso mordida de dentes ralados reapareça e caminhem parelha os dois, selado o compromisso da quantia a pagar se disponham ao corpo a corpo, um assassino que reservo para mim, pensa Victor nos vagos da mente flui o sangue coalhado do mal moderno, da metade do século ano santo do Senhor, pelas alamedas floridas roséolas a proliferar.

Victor viu, não o crime, mas o assassino conquistado. Conhecia a vítima, impossível esquecer o algoz. Tanto sonhou com o gozo prometido no jeito abusado do rapaz de salientes carnes quanto lamentou não terem sido os seus os olhos molhados de triunfo e esperança de ter nas mãos fruto e pecado, a língua raspar-se no quelóide rosa, ser mordido de dentes ralos a sorrir, quem sabe alvo de desprezo em rude trato, machucado para pagar mais que o contrato e dormir jurando nunca mais voltar.

Um talho a navalha rompida a vida, nos jornais um mistério perfeita em foto a cara amiga, Victor sabe pois viu da conquista o ato e foi dormir sonhando um dia ser misteriosa notícia sem acordar jamais. Receber na carne não a carne dele, mas um punhal. Há muito a morte ronda a mente. Em dias variados, nos últimos mais freqüente, ela vem mortífera e finca-se pedestal sempre no mesmo lugar. E promete-se horrorosa, banquete festivo em apodrecida carne outrora vida em feitio do prazer amado, tornada repulsiva e dilacerada, pedaço a pedaço transposto em flor e flor a flor arrepanhada em ramalhete fétido de carniça viva, a boca em feridas de cândida e branca flor, não mais engolir sem sofrer, seco- e macerado, cabelos raros em tufos despregados, dentes à mostra em sorriso magro, clamar pela morte já vinda em lenta comilança, melhor morrer de vez reservo esse assassino para mim, pensa Victor nos vagos livres da tormenta na mente.

Vai e volta a morte volta e vai. Meu assassino não chega com mãos em ponta de aço para súbito vazar-me do sangue funesto que mata devagar. Vem e volta a morte volta e vem. Há três dias espero, ele não vem, definitivo sorriso ralado em dentes cicatriz lateral saliente e rósea como saliente a carne em rotundas dobras nos panos apertados a cobrir sem velar.

Fauno de pedra em meio a cipós, os pés de cabra a barba rala pele glabra o torso nu torto em perfil, a boca de peixe o peito talhado em vigor de varão, nas mãos uma flauta quem me dera um punhal, o olhar amendoa prazeres ilícitos, delírios delícias, carne de pedra nunca saiu do lugar. O Fauno, fria pedra verde limo, as ninfas em ciranda de delicados gestos, indecisos passos, vão e voltam ninfas voltam e vêm. O cheiro de urina sapatos em charcos de chuva e suor na meia empapada olhar desfeito de ânsia e cansaço no esforço de ver apressado o jato fingido entre dedos vão e voltam e vêm e vêem.
O matador.
De volta à arena, assassino.
Garoa. Eis, esboçado na névoa redesenha-se molhado no ar, a cicatriz marginal à boca, riso de permanente troça, nas dobras da roupa curvos volumes tensos. Segundos mais, olhar insistente aceno de notas reais, e então perto demais hálito chicletes mascara o podre dos restos de carne comida apressada no jantar, indisfarçável na gentileza forçada do cochicho íntimo, bafo quente do corpo molhado em suor diluído em fragrâncias florais forçado desodor, perto demais latejam pulso e têmporas e o calor do corpo perto do corpo demais a vontade de abandonar à morte a própria morte tarde demais. O assassino, afinal.
Fauno fica aqui. Último olhar.
Amanhã, depois o mais tardar, os jornais. Agora é atar sem dó uma vida desgraçada à gana irritável que ele tem de matar. Puxar conversa, excitar o punhal:
Miro, seu nome?
Muito próprio um Fauno de fino olhar constante sobre as Ninfas não se sabe quem caça quem caçador na decadente floresta do amor. Você não saber do que estou falando, confirma o que estou falando; você por certo vive aqui uma vida de sucesso de enganos. Brincadeira, sua cicatriz ficou vermelha; é que estou de bom humor, e feliz de conhecer você. Espero que de banho tomado. Desculpe. Não quis referir-me ao seu suor lavado de desodorante.

Obrigado, não fumo, você também não deveria fumar. Falo para seu bem, nenhum vício é bom, não sei porque eu deveria parar de falar. Você é muito novo para morrer, você é muito novo para se jogar nesse tipo de vida, você deveria parar. Não sei porque eu deveria calar-me, falo para seu bem, tenho idade para ser seu pai; claro que eu não disse que sou seu pai, não quero ofender mas jamais teria um filho como você, é brincadeira não leve a mal; cruzes! como você fácil se ofende; já vai fumar de novo! Não acho que eu deveria fechar essa boca, afinal hoje quem paga sou eu, é brincadeira, não me leve a mal. De novo ofendido. É aqui, vamos entrar.

Na entrada chapeleira com guarda-chuva semi-aberto em latão niquelado. Paredes em veludo camurça verde musgo, folhas de nervuras expostas galhos sinuosos de calibres vários percorrem a parede em geométrica floresta com borboletas gigantes de asas e antenas recurvas em metal douradas. Grande espelho de moldura clássica reflete o gosto espalhado pela sala. Arcas baús oratórios cômodas envelhecidas em cores ocre e verde desbotado. Anjos em gesso prata. Penas de pavão em vasos. Negro escravo de libré esmaltados olhos de espanto brancos.

Você por certo nunca viu tanto luxo. Apague o cigarro!

A resposta vem, rápida demais.
Num golpe o vigor. Mordaça e amarras. Livres os olhos de espanto rubro seguem o movimento brusco à sua frente que da camurça musgo da parede desprende os galhos de metal flexível.
Retorcido é corda para as pernas nas pernas presas, os pés nos pés, os braços no espaldar da cadeira de vime de pedra, o espelho quadro vivo do imóvel e nudo desamparo, moldura em latão.
Miro tira a roupa lento dobra num canto pousa cuidado, os músculos saltam livres e no espelho em pose, boca de peixe dentes ralados: o banho depois; agora, ao trabalho!
No quarto as gravatas, o rapaz com os olhos separa as de seda macias ao olhar, levará depois do ato, ao qual volta concentrado.

Asas feito navalha cego vôo das borboletas no dorso esfola a pele arranca pêlos, a mordaça impede o grito, esgarça-se o gemido.

A cicatriz inchada rosa no esgar de satisfação de raspar: limpeza da carne depravada, preparo da pedra para a arte cinzel, no espelho a tinta vermelhas manchas ao acaso espargidas.
Rápidos e calcados passos, revira gavetas o som de talheres, vão apressados e a cada volta garfos e facas de ponta rombudas exibidos ao modo de circo para o próximo ato, graciosos gestos delicados jeitos, e a ponta fina de aço inox reserva-se para o final.
Impossível desfazer os nós, voltar atrás, quem dera hoje fosse amanhã, daqui a um mês rir. Atados pés, para sempre o mesmo lugar, a morte não estava no sangue, apressado engano, a morte com certeza aqui de fora para dentro come, arrota e ri. Sem retorno.
Miro labora lento. Circunspecto escultor. Um cigarro enquanto pensa. Cuidadoso ornamenta Victor, mármore em busca do cinzel carne por moldar-se efêmera escultura frente ao tempo de ser a morte eterna, lado a lado com galhos e folhas e pedúnculos latão, as antenas das borboletas no nariz retiradas em tempo de devolver a respiração. Fumaça, pensa mais. A asa da borboleta retoca pontos no peito, a faca rombuda aprofunda sulcos, o garfo estrias de tortas geometrias. Para e descansa, acocorado e nu. Retoma, lento ainda. Experimenta nas facas os cortes, pontas e flexidez: a carne de prova amordaçados gritos, gemidos lenta lâmina. Própria para o fígado, ideal para o baço, feita para o pescoço, todas de ponta fina.
Cansado, uma ponta rasga certeira a garganta, e o sangue esguicha do fígado e baço apunhalados. A cabeça pende em perfil, cipoal de folhas gigantes borboletas abertas, olhar esgazeado, pés atados não mais fora do lugar emoldurado em camurça musgo e veludo verde.

Banho perfumado. A roupa limpa cigarro aceso, admira demorado, o sangue derradeiras gotas quase coágulos, a obra prima finda.
Pega as gravatas.
Sai.
Fecha a porta.

Arquivo 007 de Conto Romances
Paulino Tarraf

Versão 28/09/2007
Baseada na versão de 05/02/05
baseada na versão de 21/03/2004


Conto Romances Arquivo 008

Divas

A Cidade, recolhida das vaidades, mansa entra décadas sucessivas sem Divas. Belas muitas, Diva nenhuma. Em claustro privado dos afazeres diários, serenas e castas do lar, devotas esposas há, zelo pelos filhos; mulheres, o dia gasto esmalte acetona algodão a refazer no vário das cores as unhas das mãos à espera do coronel pagador de contas sob trancas e tramelas, há também; aquelas há de vida sofrida sob o explorar obsceno do rufião: mas Diva a Cidade espera por vir. Se!

Quase villa ainda, chamada A Cidade pelos inflados peitos cidadãos, magica-se metrópole. Dedicada a São José das Botas, perpassada de recatos, cresce por ele protegida, sendo já Rainha da Região, conglobo de villas e cidades tendo por patronos santos cadentes na hagiologia frente ao Casto Esposo e Adotivo Pai. Seus pés, banham-na rio de pretas águas, tão férteis terras.

Escuro ascende vagaroso ao céu e, embora persistente, o marinho cede ao clarolunar, e dele mais s´embebem as nuvens sonhadoras, dos sopros de luz crescentes os cornos acentuam-se, mas às ruas, breus de folhetim, não fossem as lâmpadas feito lamparina turva de fraca luz no torto dos postes, os raros transeuntes um ao outro não se enxergariam. .

Quem não dorme boceja despedidas.

Acordados os noctívagos. Nas ruas mal luzidas.

Em derradeira esperança surja feito estrela de primeira grandeza a Mulher em Maiúscula na estúrdia do poeta menor, persistem os Noctívagos.

Ruas de paralelepípedos molhados, não pela névoa fina que aqui não há, mas pela mesma tontice do poeta insistente, ainda assim românticas ruas quanto o são os Noctívagos, filhos dos abastados da Cidade, em aprendizado de um dia tornarem-se eles abonados chefes por sua vez.

Companheiro deles, o calor. Este, não há brisa que o afugente.

Por enquanto aguardam bata a matriz, Catedral, as onze em seus desafinados sinos, avocação para aventuras mais arriscadas: sem gravidade maior, singela variante nas modalidades do aprendizado.

A Catedral é torre ebúrnea no ébano das madrugadas. Diria o poeta, em tom menor a pastosa voz.

A Cidade tem Catedral.

Majestoso São José, ubíquo no altar mor e no lateral em nicho especial, é dele a morada principal da Cidade, a Matriz Catedral, centro coração de forte pulso a bater regular rumo à eternidade.

A Cidade tem Catedral e Praças, e praças tem três alinhadas em reta, dizem os antigos muitas mais praças teria tido em grande canteiro central da Redentora à Adamaceno, um imenso jardim, a Catedral na praça principal.

A Cidade tem Catedral e Praças e Cinema, em latas protegidos os sonhos tornados filmes; o escuro vagaroso invade a platéia ao som do gongo e a cortina abre-se vermelha ainda na penumbra atingida a tela branca pelo jato das fortes emoções desfeitas fronteiras entre sonho e vigília: rediviva e loira, a Diva dá-se ao prazer da vista. Da fita celulóide pela imprecisa luz molemovente bailam na tela o fulgor dos seus cabelos nos ombros desnudos, lábios de bâton recheados beijos selados na palavra Fim. Some, repentina, desfeito o escuro.

Hoje, acesas as luzes não se adensa a sensaboria da realidade: ela estava lá:

Divina.

Levanta-se e sai, de braços com o amado, a criada e única amiga ao lado.

Os Noctívagos provam o gosto de sua presença, e a amarga despedida. Indagam-se quem será, loira assim, onde mora; nunca a veríamos por aqui não fossem os sonhos, agora sabidos premonitórios.

Os Noctívagos, a branca pele de amantes da lua, olhos acabados de acordar, sonolento tédio das tardes vagabundas, os Noctívagos a quem a vida se desdobrou fácil, sem desmaios dos sorrisos facultados pela fortuna dos pais abandonam os compromissos dos quais se ocupariam: depois das onze, antes de o dia clarear. A diva, não sabem onde minha vida andará.

Sei o ermo das quase-divas de ferrolhos nas portas destrameladas janelas onde moram; na vida perdidas sei onde ficam as zonas prohibidas; desfez-se na luz a Diva que meus braços anseiam dados aos seus permanecer, gemem na noite indormida os Noctívagos, jacinthos pouco adônicos narccisos emurchecidos.

No banco do jardim da praça resolveriam, no tempo dos sonhos em acalentada espera, no palito a conta da cerveja a ser bebida desocupados entre as mulheres no vadio da noite. Buscavam junto delas não mais que o prazer de beber ao som de tangos e guarânias, ojos en el reloj, barco lento das horas; aos da carne reservavam-se exigentes quanto podiam: as mulheres mantidas pelos amantes abonados, os senhores de vida abastada, fazendeiros médicos engenheiros comerciantes conjugando prosperidade.

Noctívagos, madrugada vinda era cúmplice a lua pálida a torná-los todos pardos, cautelosos passos, antes de o claro ressurgir aurora, retirados os senhores abastados diretos para o repouso do Lar, saltavam a janela e serviam-se em leito quente do amor ainda há pouco ressumado. E, nas camas de cetim bordadura em franjas eram o Sol.

Contentavam-se com o brilho menor das mulheres quase-divas. Compraziam-se em ser espertos. Provado pelos olhos a existência do melhor não aceitam o pouco oferecido mesmo que de corpo e alma por amor em graça doados.

Diva, pensamentos vagos sonhos claros. Querem-na de primeira grandeza.

Na lateral da Catedral o jorro da cerveja tomada no bar.

Na Matriz, noite alta a vela treme entre as botas de São José padroeiro, do fundo do peito ardente de fé Cônego Damiano impreca dobrados joelhos viva ele ainda longa vida e veja, no lugar da velha igreja onde agora ora, seja ela derrubada e construída imponente catedral; só então morra eu em cumprida missão.

Quero cerquem-na vitrais, laterais furados de luz nossos santos ancestrais em modernos traços, dois átrios numa só igreja em dois pisos separados; num menor e súpero as recolhidas missas e noutro maior e ínfero a missa para multidões. Sem teto, laje de cimento onde estacionem centenas de automóveis filhos do progresso, do longe quantos vierem reverenciarão a obra máxima da arquitetura a serviço do Senhor, meu Senhor!

E uma torre enorme campanário acima dos arranha-céus a vigiar dos viajores os passos; zelar pela tranqüilidade de nossos filhos, virtude de nossas donas.

Se de repente um susto: Tão oneroso seria aos cofres da paróquia edificar a Catedral projetada; salta-lhe na idéia um brilho, salvador: Para construí-la cederemos ao povo jazigos distribuídos em gavetas pelos andares da torre, relicários familiares guarida dos queridos ossos aguardando os clarins da ressurreição. Os cristãos das catacumbas faziam seus locais de oração como nas fitas superproduções de colorida reprodução histórica onde se vêm confrontadas fé e morte; quanto no século passado enterrados junto ao solo santo dos altares ou subsolo deles as criptas os bons dentre os comuns, memórias presentes ainda nos mais velhos viventes. Os jazigos gavetas nas nuvens altos encastelados mais caros por eles pagariam os familiares enlutados.

Um trovão confirma ao Cônego terem os céus ouvidos para suas preces; aos Noctívagos confirma chuva e a raiva de mais cedo se recolherem a casa.

Um dia será atendida a Prece do Cônego. Como hoje, parece vinda dos céus atendidas preces, surgiu a Diva verdadeira para os Noctívagos na fé persistentes.

Até então por seu amado oculta dos olhos cobiçosos mantidos fora, altos muros deviam cercá-la flor beleza de cioso culto, suaves cores delicado perfume.

E seu amado, que num ermo rincão a mantém escura para ávidolhares, é o dono do novo Cinema, o Senhor Damastor. Do Cinema dono e senhor da Diva, sonho de todos nós. Descobriram isso os Noctívagos, pois foi ele quem com ela se levantou ao final da sessão; e descobertas outras não fizeram por mais sagazes fossem. Retorna sempre nas terças-feiras, no passo justo do recorte do vestido, e o decote, promessas de ser pandora de segredos fatais mas no fundo a felicidade mora, onde mora a Diva descobririam jamais.

Repetem-se múltiplas as terças-feiras.

A última sessão era da Diva.

Luminosa ela ressurge de braços com Damastor, segundos antes do apagar das luzes tanger do gongo entreabrir das cortinas, estrela de total grandeza olhos de resplendentes raios, as carnes seda em seda revestidas e os cabelos de ouro puro embelezam as fitas, empresta brilho às telas, anda ao passo no justo do vestido as promessas de felicidade no fundo, ela vem Diva de sonhadas décadas, no escuro pressentida por descompassados corações: os Noctívagos pelas poltronas distribuídos formam círculo, ela no centro de um lado a criada e única amiga doutro o Senhor Damastor, dono do cinema e dela, amor escondido nas trevas da sala.

Acesas as luzes desvanece a Diva. Longe andará, de braços dados, pressa de namorados.

Desmaia-lhes o sorriso, o corpo faz-se mole. Passam o dia acordados. Reviram-se na cama entre os suores do sol escôo do calor por entre venezianas frinchas para os sons vizinhos de enfadonha repetição, o ardor de tê-la nos braços dados a certeza de não saber onde mora a encarnação de seus desejos.

Mora, quem sabe, para além das telas envolta em cetim, dossel em leitos arredondados, paredes acolchoadas e geometrias impossíveis a decorar as portas abertas para o Senhor Damastor e cerradas para os ressentidos. Nesse cômodo de infinito pé direito a criada, única amiga, arruma com delicado carinho peça por peça as saias e blusas amadas que de combinação com o colar de grossas contas e sapatos de fivelas douradas levá-la-ão passear e à calada pergunta, em qual rua? Podem as sandálias arrastá-la, Diva em luz tecida, para Longe um dia. Repostas mudas, imprecisos delineamentos na mente da criada

São José é indiferente à própria morada por carpinteiro pobre hóspede de estábulo fugitivo no deserto, encontrado outrora em choça de índio nos pés as longas botas feito bandeirante abridor de matas, Indiferente à rapidez dos gulosos passos dos séculos deverá atender os pedidos do Cônego Damiano com mais veemência feitos agora no intuito de fustigar da mente os verdes olhos de Olga.

Clero e comércio fecham acordo e ofertam à Cidade sejam renovadas suas feições, mercê dos anos de vida e riqueza amealhada.

Praça e Catedral na mira do progresso. Os corações da Cidade.

A postos escavadeiras e bate-estacas, exército de peões. Canteiros de flores revirados em canteiros de obras; árvores de raízes desgrenhadas aos céus clamam pela igreja violentada:

Catedral qual velha empalhada, Mãe da ingratidão dos filhos desamparada, desbotado azul na pintura cadente feito rugas enviesadas, desalinho nas vestes um dia celestes a cobrir os murchos restos de sofrida vida terá seus dias contados:

A marreta cairá sobre os vitrais. As delicadas flores das guirlandas aguardam despetalar-se em lágrimas de pó. A clava de ferro arremetendo-se contra a torre, pela última vez tocarão os sinos; desprendidos cairão os tijolos assentados pela esperança de eternidade.

Era uma vez fatal, a estrada de ferro rompeu com o alinhamento das praças e fez das múltiplas sobrarem três, onde era praça pulmão infectas pensões hotéis estação escura charretes de aluguel barracas de frutas cheiros confusos profusão de gente e mala infestam. Para lágrimas do barbeiro Amandio.

Dia virá. O sonho de seu irmão Cônego Damiano acordará na realidade de um pesadelo.

Sem data marcada.

paulino tarraf, versão de 17/07/2009

calcada na versão de 30/03/07

calcada na versão de 27/03/07

calcada na versão de 26/03/2007

calcada na versão de 25/12/2004

calcada na versão de 12/02/1997.

12/2004 calcada na versão de 12/02/1997.

 

 

 

 

 

 

 

Conto Romances Arquivo 011

 

 

Rui Raul  

Moro barato num quarto de pensão, mobília de aluguel, moro só quanto solitário neste mundo sou. De meu guardo muda de roupa, paletó xadrez gravata brilhantina e bigode recente a tinta para a noite e saio, desacautelados rumos decidido tomo, para o escuro da noite onde rui o romântico no reverso do romance, no torto do muro no perigo da travessa, no inverso do luar a todos os gatunos vejo pardos.

Pouco mais de meu além da muda, tenho um violino de cordas frouxas arco desfibrado que guardo como prova concreta de tudo que na vida deixei. Minha victrola para alguns 78 rotações. Mas ela, victrola, das rotações não gira além das 70, toca fanho gira girar e nem gato tenho nem porcelana nem tenho encontros ao quais mudo se assista em meio à difusa luz que se prestasse a clima de tango celebrar passado amor. Na victrola de propósito faço girar a Sinfonia Hespagnola por tudo que joguei fora, rotações desreguladas juntam-se às lembranças que acordadas tão mais agradáveis foram quando acontecidas mais doem agora amortecidas; os discos riscados guardei como do passado guardo o violino, suas poucas cordas e roto arco, tentativa de convencer-me, se necessário for, ter a vida e os sonhos prometidos valor nenhum.

O mais de minha posse, desfalcado de quase todo abecedário pronto para narrativas, aos poucos fui deixando e hoje tenho apenas duplas interrogações seguidas de triplos exclamativos; tento deitá-los fora entre ruínas de muros escuros cantos dobradas suspeitas de esconder gatunos todos pardos ao luar.

Nada mais eu tenho, além de que me cansei dessa vida. Lugar comum, não a frase mas a vida, desinteirada do principal.

Nem todos os sonhos banidos, um bem guardado no peito prendo por premonitório: um punhal afiado trespassar-me, o cabo em mão armada na madrugada. Desde então quisera da quimera o realejo de um dia no último suspiro ver realizado sonho meu. Pertinaz o persigo. Ele foge de mim.

Brancos de dia e de dia os negros também, pardos nas sombras da noite iguais. Se os vejo na rua o sol em plena luz nada digo e desvio os olhos para vitrinas de roupa e eletropeças domésticas panelas apagado quebra-luz, ofertas do comércio que nunca aceitarei. Na pensão onde barato moro, barato moram alguns. Trato-os com polidez e até comento algumas idéias suas enquanto palitam nos dentes a carne que jantaram. Penso que, à noite gatunos todos eles, guardam para mim o punhal que se recusam cravar-me.

Solitário, à noite saio. Saio para a solidão maior do escuro. Mistérios. Las. Los.

Meu nome é Raul. Carrego de tintura meu bigode fino desenho preenchendo cantos e dobras, bigode torto por mais que fio por fio na tesoura ou pinça rabisco de lápis ou retoques de pincel eu horas ao espelho dedico-me a mim. O espelho lembra-me dela tão linda nele refletida; se perto de um espelho, seus olhos jamais se voltavam para mim. Meu bigode quero escuro; o cabelo agora embranquecido recebe o loiro da tintura que antes era oiro e puro. Brilhantino estrelas nas ondas raras que persistem, gelatina onde onda de mar prata congela-se convexa crista côncava queda; às vezes salpico negro pó. Meu espelho nem tudo mais reflete e minha cara sofre leproso papelão no vidro pardo onde o adamascado de mim deveria estar. Meus olhos, aqui eu vejo a cor que tiveram se posso esta catarata chamar de azul.

Cansei-me desta vida. Mas não foi de uma vez. O que rui no tempo desprega-se em tênue pó. Meu espelho, a prata negando seu reflexo em opaco papelão desprendeu-se poro a poro sob meu olhar, como a catarata garço a garço esgazeando o azul rútilo de minha visão. Mas antes da ruína plena tudo percebi e me cansei primeiro, vendo nos olhos de meus filhos que as promessas da vida não passaram de ofertas de fugaz ocasião. Os olhinhos tristes puxados em sorrisos de rugas forçando a abertura da rima que o desencanto teimava em fechar, tanto queriam ver e sorver de tamanha oferta enorme redibir. Defeitos. Desarranjos. Desapuros. Desarrimos. Desatinos. Desarmonia: que ânimo mantém vida e abertos olhos se a esperança não é senão um rictus plantado a pregos no amargo da boca lambida de desejos mas sufocada em fel.

Meus filhos não morreram mas eu parti.

Abandonados eles e minha mulher. Dirão: mas que canalha! Sim, existe gente como eu, prova viva do que eu dizia há pouco, e muito! Posso ver em olhos de estranhos rediviva desilusão, em olhos outros posso ver e suportar. Olho, confirmo e gosto. Sou ruim? nem pouco nem mui. Mas nos olhos de meus filhos, não neles!, a desilusão causada por mim não posso constatar.

Busco o real. Gosto de ver pardos reflexos na vitrina misturados a faqueiros aparelhos de jantar porcelanas de chá e café, muitos cristais. Não sou visto a ver o efêmero passar. A cara no fundo de um prato. Dentes enfileirados nos cabos da simetria das colheres. Batedeira no peito, simétrica ao coração. Do ferro elétrico o cordão é colar de voltagens sem fim. Aspirador um poeta de nariz solto no ar. Orelhas pares de pires. Olhar dentro do oco da xícara, vide o vazio. Dissimulato, à noite gatunos como de dia nas vitrines somos todos parvos.

Sem luar, afasto-me para perto do recanto malfalado da virada da tocaia do perder de vista morada de ninguém. Talvez, na solidão deserta de sua meia luz esconda-se quem irá por mal tirar-me a vida, inda que por meu bem.

Desconsolato volto mistério para o barato quarto de minha pensão. A vida teima em não me deixar. Não me canso de cansar, tento sem esmorecer a única coisa que na vida paga a pena: a hora de morrer. O mulato com canivete desdobrável apara as unhas dos pés, a cutícula não cessa dia a dia de crescer, carne morta acumulada ao redor da garra disfarçada em adorno. Dedos achatados as unhas brilham por entre o pardo pálido dos pés. O mulato ergue o olhar e pendem os lábios num cumprimento habitual. A manhã vai começar e uma malícia de esguelha no amendoado olhar. Desdobro rascante desprezo mais cortante o meu silêncio a seu sorriso afável que a dureza de suas unhas ou seu afiado canivete.

O dia passa solitário, passo eu junto ao dia no cavo desta solidão, dormindo eu e o dia frios em cobertores esgarçados, como a vida cansa.

Meu bigode no espelho demandatura de nova tinta. Amanhã? Saio. Pelas ruas ruindo o reboque os tijolos porosos em cruas carnes expostos e os cachorros, corroídos cupins, dos telhados por desabar vou indo sem saber, ali onde sem sombra de luz, eu Raul inverso luar, inverso do sal, inverso do sol.

Essa noite, quem sabe, aberto o peito na ponta de um punhal repousará meu coração.

Las. Los.

 

Arquivo 011 de Conto Romances

Paulino Tarraf 

Versão de 29062009

Versão de 29092007

sobre a versão de  06/03/2004

 

 

 Conto Romances Arquivo 009

 

Vina, expressivo olhar

 

Bastou um susto; se um susto foi!, porque Vina nunca mais falou e jamais souberam o porque de muda ser embora eloqüente olhar.

Desde os três anos. Pareceria da própria voz não gostar.

Nas oblíquas trilhas o claro de seus pensamentos.

Atenta do alheio ao riso e à dor, repartidas alegria e lágrima, nada lhe escapa gestual e falas das gentes. Constrói um vocabulário de movimentos para cada pessoa, mimetizados gestos de quem com ela fala.

Nenhum som, desnecessária voz, com clareza se manifesta sem estrépitos próprios dos atropelos dadas pressas: por comedidos gestos de harmoniosos desenhos traça resumos no ar, nuvens tácitas de paralelas e divergentes linhas traçadas curvas retas pontos decisivos, braços em abraços, espalmadas mãos fechados punhos, assim na calma revela pensamentos adrede construídos, passeia indicadores pelas pálpebras cerradas em contração ou de espantos pela novidade contorna lábios em rugas de contrariedade ou suave admiração, assinta ou desaprove estampa-se na face seu parecer do quero e do não.

Se não reproduz sons, deles se enamora na voz do vizindário. Deleitam-na das frases compridas nas conversações os agudos e graves decrescentes, pausas titubeios lapsos reticências cicios murmurantes, os vários timbres não lhe escapam. Abadiah, a dona da fazenda onde nasceu, sabe de quais palavras Vina mais gosta: beija-flor queixume queijo-cura machuchu e pingo dágua, repetia-os com carinho de mãe.

Incandescente olhar acende por confim inteira face: pelo aceso sabe-se dos gostos da menina; também se sabe do amuo, do desespero em desmesurados gestos do andar rápido dos volteios sem saída sabe-se dos desgostos.

É raro o descontentamento dar-se.

Cresce dentro dos olhos da mãe.

Cresce em graça nos carinhos de Abadiah.

Cresce na vigilância de Gertrudes.

A mãe demora em reservada distância num casebre da colônia de meeiros. Divide com Abadiah a filha, por acreditar ser de mãe o anseio de ter Malvina quantos da vida que sua pobreza não poderá dar. E Abadiah Dona Rica de amor.

Abadiah demora no apalaçado da fazenda de sua propriedade. Acredita ser próprio do amor a devoção.

Gertrudes contratada para seguir-lhe os passos. Demora onde Vina esteja. Prenhe de amores jura dedicar-se à menina, casar sequer ou abandoná-la enquanto vida eu tiver e nem morrer, desde proveitosa ela ainda me sinta e eu seja.

Gertrudes não foi a única, de serviçal utilidade e cega fidelidade, em estabelecer-se no paço onde outros lhe fazem a corte, obedecidos desejos como se pensamentos fossem cetros da rainha menina.

A mãe. Abadiah. Gerturdes. O comprador de café.

Ele principal vassalo. Abonado gigante do comércio dono abastado de empresas, vinha ao arraial das Borboletas deleitar-se em explorar a terra, plantar e colher pelo prazer de assim o fazer, em fabrico dos próprios insumos ver crescer o bezerro a flor desamarrotar-se em coloridas pétalas o grão enraizar-se ereto caule, pois a alegria de vender para mais comprar tem na Cidade o comércio pleno e agora docas para o mundo abrem-se na facilidade da radiotelephonia. Das marchas do carro automotivo. Hoje aqui, amanhã onde queira eu.

Como se chama você, menina? a menina responde um sorriso, mexe os lábios num beijo e um sopro faz adivinhar o nome Vina.

E os dentes em troca de idade, faltos dois e os outros lindos, mostraram-se na gargalhada sem som quando ele disse o nome dele.

Tocaram-no os olhos, sem piedade sugaram-no, e outra luz não teve ao redor senão o brilho a soltar-se deles, estrela de intensa grandeza. E, dentre todos os vassalos foi o satélite de maior fidelidade; por conseguinte de ser o de maiores posses.

Resolveu dotá-la.

E célere, comerciante dos bons, passou de vassalo a régulo; sem dispensar a ama-seca, tarefa, percebeu, impossível quanto persistente se mostrou Gertrudes de inescusável experiência.

Resolveu dotá-las; aditada ao séqüito Gertrudes logo percebeu quanto um defeito, como tal aceito, pode ser útil e deve ser mantido, as regalias de sobejo compensadoras. Sabedoria, acreditou, cabedal também da menina Vina. Muda deixasse de ser, não deixaria de parecer: concluiu Gertrudes por malícia. Vina não ser muda, quão bom seria fingisse ao menos. Para o bem. Dela e meu.

Não desacreditasse Gertrudes da mudez de Vina. Mas quem sabe a malícia tenha inserido o germe que desta época cresceu da incerteza certa para a certeza incerta, escreve Benedito Rui em rascunho riscado por ele e recuperado por sua diligente Mãe.

Homem de admirável agilidade não apenas dotou Vina. Era pouco tê-la propriedade alheia. Assim, Gertrudes só não gostou de trocar a fazenda Borboleta pela Capital. Mas soube gostar, afilados proventos. E, se mudou por emprego, firmou paixão na continuidade. Ao nome próprio trocou de Gertrudes, ama-seca, para Julieta mais ajustado aos tempos modernos.

Homem de admirável agilidade com freqüência apartava-se dos negócios na Cidade e vinha ao Arraial, não mais a trabalho apenas, nem por amor aos frutos da terra. Por Vina, inda por pouco tempo fosse, para tê-la nos seus joelhos assentada, e as horas corriam no prazer de propor-lhe enigmas em pantomimices resolvidos. Ou então, inda ao colo, ela acende o charuto que na boca chupa fazendo barulho como se comediante fora provocando risos, em sopros de fresco hálito a menina apaga o phosphoro incandescido e bochechas inchadas na satisfação, tal acolhesse a brisa da vida. Ao deixá-la, lágrimas. Dele!; o lenço de cambraia pronto nos dedos de Vina, e o pente risca certeiro nos cabelos densos da brilhantina o corte valentino, perícia da menina. A palheta em rápido prestígio da própria cabeça às mãos dali à cabeça dele; e o adeus sentido. Dele!

Ele volta. Carregado de presentes. Mas o maior regalo é para ele mesmo, Vina comprazer-se argila de esculptor e, de menina a moça, ditar-lhe-á os modos e as vestes figurinos de paris em confecção na Capital os tecidos das Índias de Inglaterra nela tomam forma a seda antiga e fazendas de moderna indústria. Despede-se. E volta.

Carregado de sonhos, assim com sonhos preenchidos serão os trabalhos e os dias, catapulta no presente o sucesso venturo, os pormenores tecidos no caminho para o fito único de vencer: Vina meu estímulo.

Ela aguarda a volta, como coisa da vida, conformada. Por decorrência aprendeu o bom de ter sumiços, malicia Gertrudes, agora Julieta na Capital residente.

Esconde Vina do mundo.

No casamento dele aparece ela pela primeira vez ao público. Vina dama de companhia, cauda e véu imenso cintilante das lentejoulas estava linda a Noiva; mas para ela menina os olhares da Noiva e convivas por fascínio voltaram-se. Para ela os suspiros molhados olhares presa nos peitos a brisa, Vina brisa das brisas, queriam  para sempre rete-la, Vina fugaz. Da vez primeira e, em outras tantas, Vina brisa leve soube dissipar-se para vívida reaparecer e, de pronto, no vapor do tempo voltear-se.

No entanto Borboleta arraial pequeno demais recursos de menos, nem serviria o vilarejo para as letras primeiras do grupo escolar quanto mais uma educação esmerada prover senão a Capital, metrópole a crescer sem parar, promove para a vida intensidades outras. Que crescer em Vina, latência promissora, ainda não encontrara a plenaforma.

Metrópole de milemil modernidades sem licença entraria à força estivessem os olhos amplamente fechados. Gertrudes queria de volta o Arraial recuperado, belos pôr-do-sol refrescante verde límpido regato o pó da terra molhada de chuva, contrapostos a paralelepípedos, a chaminés, a gasogênio, ronco de vehículos, vertiginosos andares dos martinellis multiplicando-se, o povo apressado mulheres de chapéu os homens de ternos lojas iluminados risos de manequins solícitos tudo isso Vina gostou quando chegou mas a Estação da Luz jamais esqueceu, Vina desmesuradamente mais queria quanto olhasse e assim se passaram dez anos.

A menina em crisálida cresce, mãos e cuidados dele gigante sem descanso, na Cidade cura prosperem os negócios e freqüente pelos trilhos vai à Capital visitar Vina, de vôo dirigível iria houvesse algum em rota comercial, riqueza consolidada compro aeroplano para idas e voltas Cidade trabalho Capital.

Em casulo de seda, aurélia guardada dos maus tempos, revoluções passaram com voluntários em marcha e ouro pelo bem do estado, Vina guardada não viu, tiros ferem as paredes e o barulhão das balas os ouvidos dos pacíficos, Vina entre sedas não ouviu, passam anarquistas italianos embrulhadas bombas em jornais e grevistas dobram as ruas cruzados os paletós nos braços operários, Vina guardada entre sedas livrou-se dos estilhaços, os crimes acomodam nas malas as adúlteras em migas multiplicadas, aviões sobrevoam baixo as soltas bombas confirmam medo antigo de caírem os céus sobre cabeças, viu sequer ouviu em seda envolta Vina um dia retornará a Borboleta confinada ainda. Assim acreditou ele, assim acreditava eu, pensa Gertrudes, mas desenganei-me de que fosse boba a menina; e, boba que não sou, calo-me.

Ademais, acrescenta a malícia de Benedito Rui, Vina cresce bela a cada dia; ele pigmaleão, ao cabelo aprimora o corte aos passos no andar corrige a postura ao sorriso modula nos lábios a rima e Vina, carnalidade plástica e dom natural, por mais arranjos houvesse em cada gesto ou obliqüidade do olhar, ainda assim ninguém diria não ser a graça e o meneio reflexos de um íntimo de virginal pureza.

Vina meu segredo encasulado; no entanto ele quer para a menina a admiração de todos os olhos em fascínio, completa Benedito Rui em rascunhos para as memórias destinadas a cinza comporem-se efêmeras.

Adendos ao inato de seu próprio ser, as ofertas pródigas da indústria e arte pela modernidade conferidas encontraram no gigante do comércio feição natural a desenvolver-se. Assim arrola Benedito Rui do biografado as qualidades, quando ainda carregado de admiração pelo vencedor foge do estilo ácido para tecer as loas no livro. Cada frase escrita, onde o elogio se estampara, anos mais tarde completará o significado com o matiz advindo da decepção:

Desde moço o espírito empreendedor, numa sociedade de romanos o melhor é ser pagão que na arena cristão padecer entre feras. Escreve Benedito Rui nas memórias destinadas elas sim aos dentes das labaredas; desculpai-me mas prefiro ter funcionando as garras. em roma sou romano:

É gigante na zona cerealista e tem do algodão o melhor preço na compra ainda melhor na venda.

Não foi em vão penar os solavancos do lombo de mula. primeiros sucessos melhorou para um alazão. agora, quando mais abastado, ao volante do fiat é motorista de óculos de vidros em amplos aros feito máscara quepe de lona azul a borboleta brancas luvas e botas, se o permitem as erosões da estrada não encravar nos buracos dos enxurros chuvosos, atravessa o sertão em busca do produtor da safra encalhada.

Os cereais forram de seus armazéns o fundo falso e nos porões sob a porta alçapão, aguardam na carestia o lucro compensador.

Livre tráfego nas docas. Empilha sacas em Santos, armazém à espera do mercado. Quando visita a menina na Capital, os três: ele a Noiva e ela, abertas as portas do teatro dos cinemas descerram-se as cortinas das grandes telas exposto Male&Female brilha, o ondular das plumas sugerem um farfalhar melodioso ao andar insinuante da Actriz Secundária, preferida do Pharaó.

Mesas reservadas de elegantes restaurantes aguardam decisão entre caças e massas italianas ou viandas francesas de maturadas carnes.

Não se esquece dos amigos; escondido delas desliza às joalherias e ao diamante no broche empalado quando não um colar de esmeraldas compra presente em gratidão por saber o quanto se apraz Olga com o precioso das pedras e para Raphael trocou sua velha Sandoval a manivela por uma Singer a pedal e para os discos de Raphael tem o sexto sentido na escolha dos carusos em discos veroton sem chiado e uma electrola é a novidade ainda não à venda na Jóias Duque do comércio modesto da Cidade para onde volta contente com a vida abonada que se Deus lhe negasse ainda assim agarraria.

Cidade, Arraial, Capital, por onde passa o seguem os murmúrios da admiração. Quer pelos elegantes gestos, ou o alinho das roupas, ainda a retidão de caráter, a pé ou de carro, foi um dos primeiros a adquirir a barata conversível, embora não despreze fazendeiro o puro sangue sonador, com o mesmo aprumo tratados o jaez das montarias a leveza do passo o brilho do pêlo balouçante da crina. Não mais distingue se Vina o impulsiona ou Vina de seu pulso nasce, prêmio ao mesmo tempo vitória.

Se cresceu a menina, também a Cidade. Despida de suas vaidades, na força do progresso conquanto a modorra quem sabe o sol talvez a quente praça o coreto calmo a banda largado dobrado de fagote e flauta, a vida no diminutivo e superlativa saudade.

Terça-feira, noite de sessão comum, do cinema em semana inaugural, a gigantesca tela contém a grandeza de Male&Female, Female de corpo inteiro em berço de cachoeira fluente pelos recurvos do vestido justo a água prestes a delir sedas e pérolas e jóia rara a pele rósea brilham dos homens olhos diamantes, o melhor amigo da mulher, se loira preferem-nas embora carreguem as morenas ao altar.

O gongo.

Silêncio, do soprilho os sussurros, o perfume antecede e promete, a passos vinte-e-quatro quadros medidos por segundo o casal acende olhares e entre fogo caminha, ele em terno creme e ela rósea, na platéia os lugares reservados, círculo vazio à volta no centro Vina cercada por torrentes de paixões.

De rosa pedras pelo vestido descolam-se dela desenhos de folhas e flores, dele os cabelos brancos brilhantina valentino repartidos a gravata em seda fina, o casal de braços dados arrasta-corações.

O gongo, grave, a penumbra s’insinua e a cortina vermelha corre lenta a desnudar a tela, Vina cercada de sombras, a luz muda em teimoso facho a mover-se indócil na tela, nos olhos desabrigados as chamas agora cinzas de persistente rosa.

O celulóide, riscado de tempo em branca tela negros arabescos brincam intrometidos nas cenas de maior emoção fazem-se flores de assimétricas pétalas, pulo brusco a scena muda de quando em vez, ocres pedaços de emendas no filme queimado, quem liga!, esperam acendam-se as luzes para a Diva em adoração contemplar, oh não!

Antes do fim projetar-se esperança na tela, de braços Vina e Damastor são recolhido sonho fugace aguardando no escuro acender-se o facho, castos corações.

 

Arquivo 09 de Conto Romances

Paulino Tarraf

 

Versão de 19/07/2009

Versão 07/10/2007 sobre a versão de 21/02/2005