Conto Romances Arquivo 006
BebeDaniels renomeado Macho e Fêmea Deus os Criou
Cinema São José. Baixos da Boa Vista. Deserto agora nada faz seu vazio crer do amontoado de gentes à noite.
Final da manhã. Uma menina, de volta da escola, soletra dos cartazes as chamadas para os filmes. Um senhor com encontro marcado assobia.
Raphael aprendiz de alfaiate, ainda, bigode curto da moda. A mãe, Joanna dos Anjos, queria seu nome chamado Álvaro, tanto branca a pele, mas lindo que era de cabelos em cachos Raphael, qual archanjo, em registro de cartório firmou-se. Sibilo em desafino.
Assobia-cantábile o Capricho Italiano; Peixoto virá, espera. Andante com passo em retardo por entre os suportes dos cartazes distrai-se com as scenas paradas, posturas dos astros.
De viés a menina admira o bico armado para o silvo e as bochechas que inflam e desinflam no glissar da melodia. Anda e para no compasso dele.
Pausa os passos frente a cada cartaz e o melódico Capricho, intenso a cada avanço, muda em sincopados diversos conforme seja drama comédia ou ação o gênero anunciado; a menina acompanha vivace as modulações, os olhos comprovam-na divertida
Da algibeira retira benigno bexiga murcha, sopra forte e o vermelho brilhante surpresa a menina. Oferece ele, recusa ela, de pronto dois passos atrás: a mãe alertara contra presentes de estranhos, o Morcego quando sanguessuga finge soprar; o corvo é bom de bico. Querida é o nome da menina, na língua da mãe é azize Querida.
Para encontro marcado, Raphael no vestíbulo Peixoto no porão, urge desça Raphael suba Peixoto. Raphael paciente espera. O esperado Peixoto, distraído das horas, trabalha compenetrado.
Tela qual branca vela oculta no veludo vinho da cortina. Ao lado da tela um piano mudo, sem partitura na estante. O porão embaixo.
Prohibida entrada de estranhos e do sol, vedada luz, a réstia é amarela mortiça lâmpada em quarenta incandescentes velas.
Peixoto regala-se no prazer de sua vida. Uma prancha de feltro, a página em branco de seu engenho e arte. O cartaz do filme: Constela sobre ele, sorrisos abertos escorridas lágrimas fechados cenhos iluminadas faces gestos carregados aconchegados abraços, photos ao acaso. Scenas mudas de bocas próximas em quase-beijo olhos em sombras destacados. Mundéu de astros e estrelas da tela. Com gosto geométrico Peixoto rearranja as scenas como se ordenasse o caos em firmamento: pregadas com tachas de latão ourado sobre fundo vinháceo, cordões trançados dão limite de tela ao espaço, estrelas de muitas pontas escrito Ação Drama Romance derramados caracteres, brilhos de lentejoulas por borrifos esparsos, em letras graúdas pomposas cores Breve Luxuosa Estréia: confecção dos cartazes é o ofício a cada manhã reiterado prazer de passar primeiro por suas mãos a próxima atração.
Estalidos.
Aqui, no vizinho, pelas casas dos bairros o som do rádio une a cidade. Donas de casa sonolentas, domésticas a varrer as folhas desprezadas, balconistas de camisa branca cabelo oleado, todos ouvem o tango nasalado em meio aos chiados arrancos do acordeón. Peixoto pára o trabalho e sonha, lacrimoso, de olho na parede, sua tela particular: a parede céu de estrelas:
Divas.
brilham firmemente.
Entre elas, a Grandiva.
Suspiroso Peixoto, suave paixão. No céu das deusas de infinito fundo, fixara de pérolas vestida a Grandiva, ela pérola especial, a boca preto coração encena beijo num sopro frexa, ombro redondo apoio do queixo querubim.
Nas ondas curtas radiofônicas a cantante implora argentina ao amado confesse o amor escondido. Dimealoído; guardarei segredo, telojuroporti, entre estalidos.
Peixoto no melhor da sua comedida vida, pudesse a manhã no eterno mergulhar-se, os passamanes nos dedos cuidosos contornam os astros, Peixoto busca adivinhar das poses congeladas as scenas de sonho, adivinhar do imóvel das photos do filme o roteiro dos movimentos e, divertido travesso, traça na prancha nova ordem de inversa seqüência. Meticulosamente.
A cantante cala-se; e o locutor em voz grave e melodiosa ondulação emite da rádio potência e prefixo: caros ouvintes, anunciamos nossa próxima audição.
Pronta a prancha por Peixoto soerguido estandarte, carga frágil qual delicado cristal em suas mãos feito adeso fido a conduzir andor, caminha os passos de suspeitoso tigre no sobreaviso de caçador, do porão à platéia uma escada subida, à sala de espera em seguida, em suporte de cimo redondo colunas de pesadas bases incrusta-a feito jóia rara lapidada, passos dois afasta-se a mirar o encanto final: artista à minha maneira na minha matéria sou. Não vê Raphael.
A Menina, aprendendo a ler:
Macho&Fêmea.
Fatal. Felino.
E no cartaz, o que vê, não precisa ler: os olhos do tigre nos olhos da mulher é verde no verde no preto da photo, colunas babilônicas estátuas de assurbanipales montado em pedra papelão o gigantesco scenário, odaliscas aos pés do pharaó entre as longas onduladas barbas a boca ordena silêncios de ouro.
Raphael, molto expressivo eleva a língua ao palato: Senhor Juvenal Peixoto, almejo ter sido pontual; educado saúda e na cadência estende a palma da mão.
Peixoto, arrancado do êxtase de artista contemplar-se, estende a sua:
A quem devo? inquire surpreso.
O pianista sou, Raphael seu criado. Para o fundo musical.
Ah! Sim! diz ele surpreeendido e contente:
necessito quem ao piano alterne sons musicais segundo diferentes emoções enquanto a scena muda na tela: sublinhe marcados dramas leves risos, suspense de ação, por exemplo
aqui!; com o dedo aponta a photo do cartaz, aqui no salão do navio os pares dançam antes da tempestade e a musica fala do enlevo social e sutil prenuncia o trágico; aqui o vento torpedeia a nau e requer do músico melodie acordes fortes em clima de febril dissonância com moderna influência atonal; aqui no cartaz maior desfalecida a Actriz nos braços do Actor protetor prenuncia um drama musical de românticas inflexões; infindo mar encarneirado no limite a ilha serena harmonia apaziguados ânimos. Náufragos, cicia Peixoto.
Náufragos, pensa a menina, preciso ensinar à minha mãe o que náufrago quer dizer; minha mãe que veio do mar, em vapor de terceira classe, e no mar o vapor não se afundou. Veio depois no embalo do trem noite inteira e meio dia corajosa sem saber onde chegar e, aqui cada vez mais longe do mar, chegou, sem parar de trabalhar.
Em boa hora se apresenta o senhor, correto e pontual; estou no momento sem partitura musical nem músico, desregrado sucumbiu da thysica o antigo pianista, curta vida levada em bebida e mulher.
Na vida somos passageiros todos ao soprar dos sobreventos, o corpo mera carga de tribulações: Grave e lento acrescenta Raphael: a morte é porto de embarque para nova carga novos portos rumo à purificada luz, além:
Sim, sou espiritualista kardecista afirma Raphael encarnado olhar.
Titubeia Peixoto frente ao testemunho de Rapahel candidato a músico. Católico praticante do seminário egresso por arder na carne tentadora paixão, Juvenal Peixoto muda a conversa e demora os pensamentos em submersa dúvida entre ter mudo piano cinema sem som e contratar espírita: teme! de um lado o padre e de outro o patrão. Se Damiano confessor condena-me para os longínquos infernos futuro próximo, o patrão mais prático ameaçam-me desemprego e fome próximos no presente. Explica:
Macho e Fêmea. É enredo de náufragos ricos, salvos pelo mordomo criado em agruras afeito às dificuldades da vida; desconversa Peixoto para ganhar tempo; o dedo aponta o casal em negro contorno recortado no céu do cartaz, ele dominando a cena, ela em seus braços corpo que cai suspenso. O mordomo dos ricos equipado para arrostar agrestes, madame arrogante enamora-se dele salvador. Actor e Actriz.
Minha mãe é mulher forte firme contra a rústica vida, pensa a menina na boléia da conversa dos dois; vapor de terceira classe é navio de luxo escada acima; escada abaixo é porão que requer carpintaria, ludibriar a fome no caldo de carne em água de batata bóia fria a verdura cozida, em prato de flandres duro pescoço aos fiapos sobrenada.
Verdes folhas lavadas de alface, hortelã picados tomates e trigo azeite e sal e limão, a vida melhor agora, espera-me em casa o balanço embaixo da mangueira, sol frutos e céu azul. Querida, assim o nome azize diz querida nos montes olíbano perfumados da mãe, e querida a menina é aprendiz de rebater aparas no áspero da vida. Cuida dos irmãos, e sonha muitos filhos seus.
Para o filme não vieram as partituras, será no improviso o frasear musical. Continua Peixoto, tentado a contratar debalde credo e temor à fome imediata, dos infernos cuidará depois.
Se todo mal fosse esse; alegre vivaz fala Raphael entre risos; a menina ouve aprendiz. E guarda para repetir como adágios futuros.
Viria pela estrada de ferro a partitura, junto com as latas contendo em rolo as fitas; mas na estação de trem entre fumaças e o apitar do foguista restaram eu e meu desaponto. Fala Peixoto entrecortes.
Se o jazz não inventou o impromptu, nele sôfrego bebeu; o impreciso é da vida, carregada de temas e cada tema botão de variações; philosopha Raphael. A música é tempo que se não aprisiona, ilusão das partituras filhas da soberba humana; estamos aqui de passagem, contornos de arabescos variam ritmo e compasso, tonalidade modo harmonia variam nuvem e fumaça no firme azul estampa falsa do infinito; nas telas do museu o quadro imóvel, no cinema não.
Peixoto gosta.
Assim, partitura sim e não. O senhor invente. E passa Peixoto a falar com paixão, contar das fitas o enredo, atores e direção. Scenário e produção. Enciclopédico, sobrepuja Raphael com seu religioso filosofar. Espera, ao menos:
luxuosamente encenada, magistralmente regida.
Macho e Fêmea, a fita; dentro do filme um sonho dentro do sonho começa outro filme.
Mescla o passado no presente, a Madame sonha no filme um sonho enredo para novo filme: reproduz a pompa de outras eras, Babilônia retorna real como a vida foi.
A história é talvez.
Era talvez um reipharaó babilônico assurbanipal sem barba mas roupas de metal lavrado ouro de lata, sentado em trono à sua volta a Preferida, de pérolas revestida.
DiligenteMordomo é Reipharaó factotum
LadyMadame, a dona do sonho, refaz-se da realidade náufraga em banheira de mármore onde leite de cabra carícia na pele promessa de mel em melhores dias
a repudiada LadyMadame Actriz.
reipharaó Mordomo Actor.
porém,
a coadjuvante na fita é dele preferida no enredo.
E confesso, minha preferida também. Seu nome se chama BebeDaniels, por ela valeria a pena que o cinema se inventasse em photos que se mexem, revirar de olhos meneios de mãos:
E, como não: Lábios feitio de coração. Touca de nobrespedras, penas de branco pavão arco aberto de estrelas olhos em suave scintilar, pérolas quantas engranzam as voltas tantas do colar. Divaga Peixoto, os olhos perdidos na tela da mente: Bebe Daniels, mostrada em photo veremos no filme, em seu colo a cabeça manso repousa felino pensar-se fera
guerra e doçura
tranças do Amor.
Enamora-me olhar
seus lábios rosas a desabrochar.
Se falasse teria
tom de voz símile cristal
que de leve tange
meu pensar
O autor da novela será Kardecista, talvez, ensaia Raphael mais interessado nas dimensões do tempo cruzados do que no namoro anêmico de Peixoto pela Actriz. E, filosofa espírita: Madame sonha a vida passada em outra vida, no luxo da Babilônia outrora reipharaó paga nesta vida o carma passando a ser mordomo da mulher que humilhou, tempestuosos males frágeis nas vidas quando numa senhores escravos voltamos arcados pela chibata, tome cuidado a LadyMadame quem sabe no sonho um aviso de na vida futura não adiar a mocsa prolongado samsara, talvez. Será quiçá o diretor hinduísta, ponteia Raphael divagando agora altos pensamentos.
Peixoto, quase arrependido de sobrepor o piano à religião, a fome ao inferno, oferta como presente foto da preferida AtcrizCoadjuvante Bebe Daniels em tamanho grande, e a Meninaquerida fica no querer sem pedir retrato da moça linda vestida de pavão, lavadas as cores pela avidez do arco-íris resta o cinza para as pérolas e, cinzas assim as pérolas mais brancas enriquecem o colar da memória da vida passageira, olhos em grafite sentinelas.
Despedem-se amigos.
Vai azizeMenina pela rua afora, vai Peixoto platéia adentro e Raphael vai.
E vai azizeMenina pela rua afora, estrada de passa boi passa boiada, curtume do matadouro vizinho viz boiadeira rua oposta, minha mãe sem tempo de sonhar vidas corridas tanto o futuro urge faina desoras, espera-me um balanço de corda à sombra frondosa da mangueira mas não posso balançar-me agora; mãe e filha de porta em porta a vender artigos sortimentos de sabonete ramonas agulhas botões lenços na sacola mascate, para ajudar na despesa da casa enquanto o pai pelas roças oferece cortes de fazenda ou mesmo miudezas para beleza e encomendas da venda em malas mascates há semanas M´Lhes não volta, a mãe a filha pela mão desde pequena fala português que M´lha não sabe falar.
E vai Peixoto platéia adentro o piano ao canto mudo, comido do remorso de ao devoto sobrepujar a fome, direto prumabaixo porão. Arruma as fotos na prancha pudera assim por rearranjo de pensamentos o peito desopresso calmo respirar. Dispostas preto no branco em diagonal, gosto assim, os letreiros acima escrita sobre estrela estourada em vermelho amarelos estilhaços a palavra breve em gordas letras, abaixo o nome da fita A Favorita de Paris: Esmeralda cigana é salva ao final por Quasimodo um moço sedutor e sineiro da NotreDame, de cabelos valentinos. Que pena, Bebe Daniels, neste filme nem coadjuvante é.
Pruir de pecados. Padre Damiano, que não saiba de Raphael espírita por mim contratado o reverente clérigo. Como de costume, em voz solene tutear-me-á como advertência: Começarei a rezar por ti em pecado descaído; a persistires na ofensa um local no porão do inferno aberto espera-te por castigo. Forno de muito fogo, fogo falto de luz, queimará no escuro tua carne venal.
Raphael persiste fato ipsissima verba na memória:
Os dedos pianistas os dedos de alfaiate, os dedos como quem n’agulha enfia a linha ou dedilha voláteis teclas são assim em Peixoto os pensamentos chuleios reversos; rememora feito na mente impresso fato: Raphael, o dorso da mão descansa na palma, enquanto pausa mansa fala revelar a palmatória castigo da alma, rápido um pensamento afiado aço corta as pontas de outros pensamentos e Peixoto s´inquieta inda mais: com certeza irá Raphael kardecista, sobrepondo-se ao pianista, pregar de improviso os versos do evangelho segundo os espíritas, aproveitando-se do enredo metempsicóptico, para provar que os espíritos descarnados em outra vida na matéria instalam-se retornados; jamais Damiano padre me perdoará aflito Peixoto arremata findo: terei sido assassino em pregressa carne e num repente o ímpeto volte cruévil, castigo de contratar quem zomba das rezas, AveMaria peço graças, ilumine Raphael ao piano por Vossa intercessão antes de ele jactar ser sua música um ectoplasma, graças reitero em preces. Os olhos voltados para o céu da parede onde Bebe Daniels coberta de pérola convida-o para o amor.
Raphael vai pelas ruas assaz moderados passos, os pensamentos prestos movimentos, entreliça liados temas, desde o novo emprego ajudar nos sumptos embora aquém esteja pianista quanto goza n’alma a música e meu repertório é pequeno vizinho do jazz impromptu salvo ter nos dedos mais técnica para agulha e dedal alfaiate de corte e costura se eu pudesse era orquestra tanto sou philharmônico; Raphael pelas ruas diminuendo o entrelaçar dos pensamentos extrai no vivo-aroma suave melodia, Olga Amor Clarão reluz memória qual tela aura de antevisão, fulgor estelar futuro promissor. Para ela deu de presente a Actriz em ampliada photo. E convida-a para o cinema sábado à noite estréia de M&F, quando ele pianista aprendiz de alfaiate dará para o filme a trilha das emoções.
Olga, ao banho vai. Banho de estrelActriz: num leito de mármore imerso o corpo branca pele de luz esculpida banheira de pés esmaltado ferro e o leite de cabra cinzel do imperfeito abranda ressequidos se por ventura o sol caustica ou o vento severiza. Nada disso o tosco banheiro de Olga tem.
Mas tem na brasa olíbano ascender espiral.
Bacia de verde esmalte se o mármore falta, na água morna ervas a perfumar, se o leite de cabra é para romanas pagãs a indústria garante a beleza na pharmacêutica moderna. Sais tonificam a cútis. Olga sente a água agradecer os contornos de seu corpo.
Cremes acariciam a pele e o pó-de-arroz dá o tom da luz na tela projetada.
Traços de bâton, soprar de beijos. Riscos de lápis pretos, acentuado olhar. Completa seja linda Olga um chuveiro de aljôfar em cada brinco. E o amor que Olga descobre por Raphael.
Si
Yo se que me querés
Yo se que me adorás
Dimeloaloido
o acordeon introduz a orquestra típica e do gramophone invadem sons o quarto perfumado. Gyra gyra o disco e o tango chora sabedorias.
Nomelodesís
Dimeloaloido
A photo na parede, estrelActriz olhar em branco e preto, expressivos na tela seus olhos dispensam letreiros reconhecidas zanga, ternura abrandada pálpebra na surpresa dilatada, correm nela as lágrimas são nossos soluços se ama ou sofre na tela, alegria é riso feito sem som e nossa a gargalhada na platéia.
No grande espelho os olhos refletidos, quer Olga sejam ao olhos as emoções d’alma, neles se retratem pura graça, reflitam no luziluz piscar agitado se gostam muito, não se detenham a fixofitar e corram brincalhões para o viés, esconde-esconde amoitado pelos cílios, prontos para lágrimas se comovidos. Olhos marotos como o amor.
O amor, moleque maroto, não se pode ocultar.
Qu’El amor es una cosa que no se puede ocultar
Tango
Os trágicos passos da vida:
te amo
Dimeloaloido
Guardaré segredo
Telojuroporti
Telojuropormi
A photo na parede no quarto de Olga, estrelcAtriz pérolas entrevistas acariciando a nuca o cabelo curto retorcidas pontas desenham-se na face malícias, florido lenço moldura modelar beleza.
No grande espelhos as pérolas, que Olga não as tem; mas seus dentes tesouro do poeta. Fileira de apuro, no riso a rima dos lábios coração abrindo-se devagar é jóia exposta brilhante gema argentino som. Hoje no cinema homem e mulher desencontros na tela, Raphael ao piano melodiará o amor, o quanto gosta de mi.
Amor, maior do quanto dure a vida.
Eterno amor, efêmera vida.
Piano ao cair da tarde eldorada no azul remanente; Solace melodiam os dedos pianistas de Raphael, um ou dois erros díssones que ele nem corrige. Raphael feliz pelo emprego de músico ao pé da tela, Olga amor de minha vida, caso-me com ela de véu e grinalda, construirei nosso ninho, para beijos furtivos roubo tempo do trabalho, na entrada da casa a alfaiataria, qual joão-de-barro arrebate do paraíso. Não pediu para Juvenal Peixoto gerente mostrar-lhe o filme; e à sua frente a inspiração é branca tela; não sabe da fita a seqüência, do argumento mal tem ciência; não é ao piano o exímio alfaiate, aprendiz embora; mas precisa do piano para no recorte de seus sonhos construir a alfaiataria. A tarde na janela abre-se indefinida e derruído futuro se indicia.
Palmas no umbral da porta.
Descerradas as cortinas no enquadrado da janela a Menina sorridente como no cinema naquela quente manhã vira. Junto a mãe, numa das mãos a sacola mascate na outra a Menina. Hoje Raphael nada compraria, entreaberta a porta, não fosse relembrar-se da Menina e acreditar no acaso presença da Mão Divina. Olha para a mulher e surpreende, aterrado, estalo na aura antes límpidas cores de ânimo imbatível.
Abre a porta e bondoso diz precisar de um lenço apenas, lenço azul para laço nos cabelos; mas a senhora com certeza sofre amarguras nesta vida.
Ao dó vislumbrado no olhar de Raphael diz a Senhora em português carente:
Não me queixo!
e continua, em vocabulário de línguas misturadas de esgarçado entendimento as palavras órfãs num esforço de contar uma fábula rejuntarem-se das plurais direções dando à seqüência o sentido exato.
A fábula: um homem muito velho, nunca poupado pela vida, tem sustento na lenha que tira da floresta para revenda: o que na juventude era promessa de futuro na velhice mais parece ter sido para essa faina maldito. Assim, pede em queixosos lamentos venha dar a Morte fim no sofrimento. A Morte, sempre muito atarefada, num tempo roubado à faina sensibilizada por ele favorecê-lo vem: Aqui estou, entrega a alma e siga-me.
Assustado o homem, a quem a vida dera não apenas sofrimento mas dele fez aprendiz das artimanhas argumenta: A Senhora entendeu mal; quero apenas que me ajude com este feixe, grande demais para minhas forças. E, se conhece algum Anjo, desses bons habitantes da luz, faça-o vir até mim porque quero trocar minha cruz, esta também difícil de carregar e nem foi ela que escolhi, diferente do feixe de lenha que hoje errei no tamanho e peso.
Vem o Anjo da Vida e pede-lhe escolha, dentre os vários lenhos de minha reserva de cruzes, o que melhor lhe aprouver: e será a sua cruz.
Desconfortável uma de espinhosas espículas, pesa nas costas descomunal tamanho braços desiguais desajeitado aprumo madeira de mal-cheirosa casca outras, decide por uma pequena leve e cômoda em seus ombros encaixe como côncavo no convexo fecho em fechadura como macho e fêmea a pressão do colchete espiralada rosca em parafuso. Esta! grita contente pelo achado.
E o Anjo da Vida, sem nenhuma caçoada na voz, celeste diz sereno e sábio: esta é a cruz já era sua, dada por Deus carregada por você durante os anos queixosos de sua vida.
Cada frase várias vezes repetida, decide Raphael juntar nas plurais direções o sentido falto às palavras desgarradas.
Queixumes num rebojo de sons firmeza em outro, são os olhos aos céus voltados a cada vez Allah pronuncia a língua no palato estalada crê Raphael referir-se a Deus reverenciada.
Anjo de coloridas asas quando a Senhora bem para trás abre os braços acima da cabeça e pronuncia djin ele pergunta angim a filha traduz anjo grande assim, falando à maleta ajeita nas costas o corpo curvado a mão cofiando o mento qual longa barba trôpegos passos arrastada voz crespa face por dor e cansaço completa a filha como entretítulo: velho queixoso da vida dura pede venha o Anjo da Morte e complete sua sina.
Aponta um poste com as madeiras travessas, ele entende luz. A filha corrige: cruz.
Vários postes, um após outro assinalado: várias cruzes, ele deduz.
Arqueia as costas, mostra um poste, desarqueia um outro ombreia na seqüência a rua inteira até que do portão as ripas travejados encaixes mostra e no rosto o alívio estampa-se de icto o pronto riso os dentes lindos em fieira madrepérola.
Na largura da costa e força do ombro a balança e metro da Justiça Divina medem o fardo de cada um.
E conclui para Raphael, que notara sua aura carunchada na possessão maligna: Assim, de todas as cruzes na vida em oferta por Allah, a minha é a menor; portanto não me queixo.
Quer apenas um lenço? termina por dizer.
Mais comprei hoje, valor para toda vida. Responde Raphael, logo empós fora do mero raciocínio resolver nos desencontros da fala o certo sentimento:
O Anjo do Senhor anunciou a um queixoso, se tanto o fazia sofrer a cruz a ele imposta, a liberdade de escolher, dentre as várias num galpão largadas, qual queria carregar. Sopesou diversas, em desconfortos crescentes; eleita a mais leve e menor ouve do Anjo ser contra esta cruz, há muito por ele carregada, seus muitos clamares queixosos. Quer apenas um lenço?
Ânimo inquebrantável, pensa Raphael a língua no palato do pensamento.
Entretanto entretelas. Na aura da mulher chuviscos de imprecisões. Obsessor, se há, longe está de onde alcança o míope de minha iniciante mediunidade. Estivesse aqui a minha mãe Joana dos Anjos, e ela experiente das runas e rezas veria o mal porvir a essa mulher e prevenir, quiçá.
É da vida sofrer fatalidades; só um lenço? Leve um al-hilâl.
Raphael comprou também um alfinete fantasia. Para Olga prender flores em sua linda boina de veludo.
E a certeza dos malferidos feito flores daninhas sementes das trevas nos campos em luta solitária a brava mulher, que se afasta. Joana dos Anjos, que do quintal a tudo vira, confirmará para o filho os ataques violentos sofridos por seu ânimo inquebrantável; e promete ajuda.
Voltam ao filme suas preocupações, agora com a certeza de poder resolver; se não ajudei a mulher com seus problemas, ela solucionou o meu.
Com esforço ofereceu-me retalhos que a Menina alinhavou; eu costurei.
Não pedira para Juvenal Peixoto gerente mostrar-lhe o filme naquela manhã mas não importa: os olhos bem fechados trazem as imagens supostas em suposta tela onde se desenrola película de luz compondo o preto sobre o branco desmaiado em cinza as scenas de cinema. Assim são os filmes: o que se vê numa fita nada difere da outra a ser vista: sucede o apreensivo à calmaria na comédia sugere-se o drama por vir, por momentos a ventura sobrepõe-se à desdita quando em suspenso vigiamos os actos dos heróis; recortes de uma fazenda a se comporem vestimenta de emoções desde que no devido lugar ligados; prepararei eu retalhos musicais para a ordem imprevista dos previsíveis segmentos. Filme é caos calculado, assim meu fundo musical.
Ao piano, dedilhados sons, para quando a família reunida feliz não sabe da provação divina por vir; o mordomo serviçal ninguém o nota apenas aos préstimos seus, tão regulares e transcorridos que da natureza parecem fluir no dia-a-dia. Piano calmo, como numa tarde de longínquos sons em alguém percute o passado; e do fundo cavo surgirem sentimentos, antes impreciso aroma. Para a festa noturna, estranhos na noite visitas mundanas, o sincopado acentuará o ligeiro e, num tango valentino de chuleados passos pelas bordas do salão casais festejam o encontro do corpo, o mordomo a circular entre as gentes sem olhos para ele mas gulosos das oferendas de queijos de França e vinhos, sem dúvida o mais belo dos homens presentes; num repente o temporal e mais um trágico: Raphael dá-se conta de não ter dedos músicos que correspondessem à tormenta do mar. Faz-se branco na mente somem brancas as presumidas scenas o preto em cinza derretido na tela encardidamente.
A tempestade requer sonoridades além das pobrezas que posso do piano retirar, defeito de meus dedos afeitos à agulha e dedal e duros na apojatura. Não tenho orquestra, sequer sou maestro. Grandes massas sonoras nas scenas de intenso drama os motivos fluidos deslocarem-se sons entre ações; a tempestade em branco e preto, o adernar da barcaça as ondas goelas de repentinos dentes de saliva molhados.
Lembra-se da Mulher e o vissungo de português e língua natal acrescidos gestos e timbres de modulada voz, maná de luzes para meu entendimento: Tempos modernos, a victrola faz nascer da cera a música, os discos fontes rica de sons da voz do cantor ao uníssono orquestral: Farei uso da victrola. Que venham Primitivos tambores, as cordas grossas repentinos violinos a tempestade em alto mar, os olhos de enorme susto de LadyMadameActriz sublinhados pelo clangorejar da natureza contra a soberba humana, o MordomoActor os pés seguros na agitação desordenada os românticos emprestam-me dos recônditos d´alma a forja subterrânea, e darei cores ao desbotado dimensões terceiras ao chapado.
Peixoto ficará contente do colorido que darei à fita perdida no tempo de ser mudo quando nas ondas do rádio soltos no ar navegam magnéticos eflúvios de meu amor imenso por você Olga quisera eu ser médium receptor com tal clareza transmissor, dizer aos seus ouvidos meus segredos guardados, telojuro pormim.
Vamos-nos casar, até que a morte em outra vida nos reúna num só coração.
Arquivo 006 de Conto Romances
Versão de 17/07/2009
Paulino Tarraf
| Versão de 26/11/2007
Versões anteriores: 29/05/2004 27/12/2002 |



