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Conto Romances Arquivo 010

 

Ama. 

Se chamassem Gertrudes, Julieta viria. A contragosto, viria. Meu nome prefiro Julieta, nem dessegredo do batismo o verdadeiro para não incitar humilhações dos contrários. É Julieta florido leve brisa perfumadas juventudes, lembra graça no andar meneado em risos, coração contidos romances de trágicos amores. Nada disso contém Gertrudes, fadiga e fardo, nome dado por Benedito Rui autor ao graphitar rascunhos sobre ela. Talhados rascunhos minudentes despedaços dedica-se escritor ao texto, almaços de página inteira, com sabor de obra-prima pela qual gostaria de ser lembrado. Não fosse Flaubert fazer-lhe sombras com o coração simples de Felicité, nascida e morrida empregada em Três Contos. Adoraria, Benedito, dizer Flaubert c’est moi; não pôde e Gertrudes recém-nada foi para o balde de zinco postado como lixeira para seus escritos. Ciosamente a Mãe recolhe o almaço, lido gosta e guarda. Leitora única, tão bem engavetou o texto sobre Gertrudes, que nele ninguém tocou dele não se fez leitura e no esquecimento amarelou; fosse Benedito autor desse Único Conto ninguém dele se lembraria; se alguém se lembrou.

Nem de Gertrudes, vida dedicada a Vina, ela sim menina de olhos violeta, perfeita julieta das primaveras frescor de brisa sorrisos, amores nenhuns, e os meneios graça de gestos postura leve das mãos encanto silente, assim dos lábios sem som fluem imagens advindas nos sopros do sorrir, sonatina de delicados acordes, suave harmonia ricas tessituras singela melodia.

Muda não surda, Vina, animados encantos gentis movimentos, perscruta nas falas espontâneas na irresolução das pausas nos descuidados gestos das gentes manar dos corpos o calado profundo, para além das falas os contraditos desopressos escuta. Dos humilhados e ofendidos sabe as necessidades no cascão do orgulho incrustadas, Vina, muda não fosse ainda assim, cala-se. Mas supre.

Gertrudes, sob constante sonda dos agudos olhos de Vina, mantém segredo nenhum, transparente sente-se. Contudo, quanto pode, oculta ser Gertrudes contida Julieta.

Se por dentro é Julieta, cada vez mais Julieta quantas voltas os ponteiros na dança das horas dessem, nas horas vagas põe-se Gertrudes de travestida Julieta ao espelho de corpo inteiro. E vagam os ponteiros nas ausências de Vina, misteriosas ausências de quem até então conhecia inclusive as divagações de pensamento, assim presumido.

Vina desaparece no silêncio e, repetidas vezes, recolhe-se em seus aposentos horas inteiras, dias quando não semanas. Gertrudes sabe o perigo de incomodá-la. Vertem serpentinas chispas as verticais pupilas, rubor na face lábios de ira, melhor morrera que desamada quem ama sem fronteira. Então aproveita, quando Vina se tranca, abre Gertrudes as portas da liberdade para ser Julieta.

No espelho. Frontal. Despida Gertrudes recompõe-se Julieta.

Desde Vina criança gostava a Ama de usar, escondida, os adereços da menina. Contentava-se com as fitas de cabelo entrelaçar aos seus, cós de cintura feito lenço no pescoço acocha, colar faz de conta ser pulseira enrola, anel do indicador só no mindinho cabe.

Gertrudes vira Julieta revirada Vina.

No espelho. Mira-se Gertrudes Julieta refletida Vina pretendida .

Hoje Vina corpo de mulher, servem no corpo as roupas com reparos de improviso, ajustados busto e cintura no gancho de alfinetes, Julieta roda a saia sem a graça com que se mira. Os sapatos segredam-lhe ser de cinderela a desajustada irmã, mas tão lindos saltos dão-lhe a sonhada altura, esquecidas dobras no calcanhar.

Afinadas convivências, Gertrudes sabe quais dias da semana tranca-se Vina por mais tempo em seu apartamento recolhida. Geralmente quintas entra noite pela madrugada na sexta não vê o sol das manhãs quiçá das tardes. Após o banho de demorada imersão, ressurge Malvina amante da vida no frescor desenvolto dos gestos, nada quebra o silêncio selado pelo lindo sorriso.

A rotina altera quando da Cidade chega o patrão Damastor à Capital, a Senhôra de braços, mala de presentes, certeza de passeios. Se viajam a São Vicente para banhos em Chora-Menino, na Capital Gertrudes fica Julieta ao espelho ou de gabardina de lã saia e casaco justos de apertada cintura luva de renda descalças nas mãos de grosseiros e menores dedos colbaque na cabeça, Julieta passeia demorado pelo Arouche ou Barão, vai ao Municipal dos concertos e recitais e não entra, percorre nas Casas Americanas os departamentos experimenta calçados chapéus e sonda nos perfumes a fragrância para a melhor hora do dia e nada compra, porém mostra-se senhora de fino-gosto preciosa origem e bom-trato. Sonha passear no Triângulo, não fosse tão longe e o bonde, democráticos assentos, impõe-lhe operários por companhia. Se necessário, claro, dobra-se `as catinga de suores proletários e troços dos burros. Irá, um dia.

Fora isso Vina pouco muda. Exceto uma vez, segunda de manhã, ficou recolhida e por três meses mais freqüente no apartamento conjugado trancava-se quando uma carta deixou por baixo da porta da parede-meia, e nela disse escrito que viajaria por três dias instando segredo e, lidas estas linhas rasgue empós; ao voltar nenhuma pergunta admitirei, caso de vida ou morte, de tua morte Gertrudes!; portanto, caluda!.

Foi, na casa, patroa dela mesma e sentiu na pele a ruindade em pessoa. Nunca limpou com tal esmero, o escovão no assoalho encerado brilho de apelo comercial. As panelas, fulgor de alumínio conseguido com areia de rio. Lençóis lavados a mão, perfumados estendidos na cama vazia de Vina, pensou que jamais fora mãe e, se algo acontecesse à sua menina a morte não lhe daria o descanso merecido para quem viveu tanta faina. Onde andará!, proibida de falar pedir ajuda, aguarda esgotem-se os três dias; lava passa esfrega brilha, não cozinha pois não come e, água, em goles descidos com dor contricta garganta.

Vina ficara fora um dia a mais. Tanta dor arruinou-se em ódio. Suspeita não ser muda a menina; o traço que se descrido inutilizaria nela a honestidade.

Assombram-na os pensamentos vindos a pouco e pouco, mal feche os olhos na tela escura estouram fachos de luz e toma forma por conta própria o enredo narrativo; sucessão de eventos remetem a uma Vina heroína do amor reviço no tédio cura para a sensaboria da rotina, Vina de múltiplas vidas, enfermeira da cruz vermelha, bailarina em casas de baixa moral sítio lamacento de desajustados, cortesã de alto luxo explora nos ricos a avidez pela carne, grãa fina da nata social de elegantes cigarreiras em cujo cristal as carreiras de cocaína concedem sonho e energia na aspiração gulosa por novas fronteiras, e o éter na vertigem da cidade entre tangos e mentiras o fascínio dos perigos; mulher caridosa a percorrer as ruas nas frias madrugadas munida de cobertores e sopa socorro dos desabrigos, florista de bela voz a explorar a ingenuidade de vadios, amiga de anarquistas a lançar bombas caseiras ameaça a pacacidade de cidadãos bem-postos, oradora em praça pública por ombrear homens e mulheres; Vina, entre luzes e sombras muda na face as exigências do papel; e a persona cria-lhe superposta nova alma. Gertrudes passiva contempla com emoção desmedida a força do desenrolar dos episódios.

Melhor a vida quando de viagem para Paris Vina despediu-se dela para tomar o vapor em Santos e com Damastor e Senhôra encontrar-se no Porto da Bahia. Não viajou Gertrudes para Borboleta, esquecida já do frescor das manhãs do canto dos pássaros e pastos verdejantes: se perguntassem diria ter nascido na Capital e seu sangue nas veias corria febril como ferve esta Capital que não pára por não poder parar.

Aqui ficou Julieta e em ser Julieta esbaldou-se. O Triângulo receberia suas vistas, iria a pé de braço com a felicidade.

Sabia para onde fora Vina, por quanto tempo, com quem.

Para compensar as tardes corriam lentas na Dulce Confeitarias, chocolate no ar açúcar em cristais, o violino derrete-se em romances, lugar onde uma senhora desacompanhada não é mal-vista e o broche de pedras confirma boa procedência. Não lastima o desacompanhada, desde não serem os homens príncipes a fazerem da companhia um ameno divertimento. Jamais ser mãe. Inda fosse de Vina não teria tolerado, passiva a um homem submetida, a indecente posição a ferir o decoro de uma mulher, pórtico aberto para a brutalidade masculina, fardo e fôlego, a fazerem de um corpo delicado a seara para sementeiras de cheiro duvidoso. Damastor, quem sabe nos braços dele quebraria o rigor de minhas carnes. Ele, entanto, mal vê quem não seja Vina. Sua virgínia, aurélia em casulo de seda, solta borboleta quanto menos dela suspeita seu protetor.

E uma certeza nela prega-se como as raízes de uma praga:

Estou convicta, diz alto para o espelho despindo o chapéu em alfinete preso e a blusa: Malvina fala!:

Finge-se muda para prender Damastor em aranhol de finos fios, para nós ela é o império do recato; embora e muito! nos meandros da cidade não é distinta entre os anônimos de encoberta leviandade.

Presumo.

Calo-me.

 

 

Arquivo 010 de Conto Romances

Paulino Tarraf

Versão de 19/07/2009

Versão 10/10/2007

 

Versão de 29/09/2007 sobre a versão de 01/07/2006

Conto Romances Arquivo 003

Riu Benedito

: Damiano ou Amandio, um deles morto um dia foi para o céu. Diga-me qual.

A Mãe, de manhã ao café, simulado um pensamento repente tal um pássaro em vôo rasante remete a pergunta que a atormentara a noite toda:

Qual deles, um deles morto um dia foi para o céu, você pode dizer-me qual!

Benedito em resposta adoça o café. Á capela desentoa falsete que se perde no lento giro da colher.

Presa na armadilha sobra ainda para a Mãe o gosto de mel da lambuzada colher. Nos olhos um brilho de vidro.

A Mãe deveria ouvir missa em intenção dos dois, Damiano e Amandio; por garantia. Sugestão a ser dada um dia. Católica fervorosa, outrora, hoje nem protestante sequer espírita, hoje a Mãe não é mais nada, sentada nesta cadeira empalhada.

Não esperava viver tanto, tempo considerado lucro passar dos cinqüenta perdeu a conta e de pirraça atravessou os zeros nas fronteiras de um para outro século: nunca foram modernos os tempos como os de hoje o são marcadas horas em ampulheta digital, os números um após outro caem ao invés de os ponteiros na proteção de vidro aos giros apontarem para o sentido de uma circular e repetitiva eternidade.

Á frente de Benedito, um quarto de luz sobre a escrivaninha, o repugnante tinteiro carregado de passado espera o gesto negado de nele embeber-se a caneta. Gosto por escrever a lápis, o cheiro nanquim da tinta, o preto em que se molham as penas do escritor guarda com o sofrimento proximidades de lágrimas em borrões desmanchadas gotas, o rombudo mal aparado da ponta mesmo fosse pluma de pavão; escribas antigos vertendo para o papel velhos pensamentos pretendem a tinta nanquim das sentenças consumadas nunca se delir. A graphita mais transitiva igual maneira quanto o que é vivo no império da quimera sobrevive.

Benedito Rui teimoso desde a infância. Paciente aponta com afiado canivete a dúzia de lápis. Capricho de igualar a madeira, lisa canela terminada em graphita, a vida é assim devagar filosofa barato entre risos, e afina em lixa o pó preto assoprado assenta-se devagar feito nuvem de fuligem. Devagar. Sobre um papel almaço amarelo de ócio, onde assim escrito está em garranchos à moda de lembrete: um padre rende-se aos encantos dos sentidos e não mais quer a vida eterna em plácido paraíso; namora a reencarnação e ter outra vez e outras mais a carne pronta para agruras e sucessos, nela o sofrer conseqüente, assim a vida eterna quero. A letra de Benedito, a página nunca virada daria ao leitor a continuidade: jamais lembrar-se da vida anterior uma dádiva; se quisesse, nas mãos de uma médium avançada, ou num caçador de vidas passadas, viriam a seu espírito as lembranças que o rio da morte deliu: descanse em paz memória. Num canto em letra de forma: vir dives; dives vir; o dilema entre ser rico e os deveres serviria de lema na biografia de Damastor; mas latim precário e falsas etimologias casam-se com padres. Riscado padre, acima escreve vigário. E mais à frente corrige: vigário dos contos.

Projeto de memórias; desde já compromissado de serem falsas; e destinadas ao fogo, fogo milenar elemento ao homem pré-existente quanto pré-existentes água terra e ar; um deles irá consumi-lo seja por excesso de ondas ou labaredas, escassez de fertilidade, pesado de impurezas.

Assim começa Benedito Rui, lápis no papel:

Nasci no mês dos santos, não todos mas três, escapei de ser Júlio pela parecença com Junho, e por pouco não me chamam Pedro tão duro nome Antônio de agulhas góticas por enfeites ou João grandalhona e pulposa massa, pressupostos de religioso trato por ser minha Mãe dos tempos de antigos católicos, escapei de ser Júlio pela parecença com Junho, mas em Benedito meu nome por fim tem registro e minha vida, nem tanto benevinda sequer benedigno nela vivo, selam minha boca amargosto e salamargo visgo e assim pouco falo se querem saber e tampouco escuto, escrevo, sim! para labaredas entanto!, pois reservo à minha mente sítios de encantos próprios tal cinema fora conquanto não o invadisse a desaforama humana; minha Mãe acrescentou Rui e mais nada. Devo à Minha Mãe não só a luz quanto ter vivido muito, ela que tanto viveu ensinou-me ser a pirraça o maior encanto da vida: muito viver para provar que ela vida vale nada por certificado de quem muito viveu com escárnio dela.

As fitas de cinema, precisos o cortes e seqüências ordenadas uma cena em busca de outras, o antes e depois amarras de complemento constelam-se mutuantes, passagens inteiras regidas ao som de orquestra na sinfonia universal, cellos e trompas símile nimbos transversos raios de sol, fitas de cinema quando quero revistas, obedientes contam da história a mesma memória, os vilões e heróis repetidamente reais, vilões verdadeiramente heróis; a vida eu queria assim.

Amado celulóide. Tal e qual. Mas não!, em branca tela pinceluz o destino a Fortuna leviana voltívola vaidosa pluma, se estava escrito o correr de nossa vida um rio marginado de leito profundo é desordenada foz em delta de estrondoso banzeiro. Vivi muito, e vivo!, além do desideratum. Mater Mea vive centenária, lúcida memória embora troque datas, turra teimosia. Conheço portanto o surpreendente dos dias, e dos coevos quantas decepções fiz questão de marcar com graphita mole para melhor ferretear no papel: este sim em branco e aceita o correr de minhas penas conforme volúvel eu passo a borracha e remendo ao prazer de meus riscos; e risos. Assim resolvi escrever minhas memórias dos outros; então posso dizer assim estava escrito, como manda a filosofia árabe para contrapor-se ao remoinho das areias do deserto, matéria prima das ampulhetas. Toda mesquita tem nos muros passagem santa, mihrab, caminho direto a Meca. Quisera eu a vida em linha reta.

Benedito Rui escreve e lança ao lixo, balde de alumínio posto num canto. Quando dorme, a Mãe insone amparada em muletas cata limpa e guarda-os em caixa de papelão. Não os lê, a vista fraca fadiga enfado, aprova o escrito desde pelo filho escrito. Alguns pedaços rasgados, outros parte queimados, guarda com materno carinho e gosto de contrariar.

Nem seria fácil ler. Não pelo estilo, simples e claro quase teatro nô, direto de duro, sinonímia precisa embora escassa, tanto detesta o rebuscado quanto deplora o rebuscante se escassa, casticista. Difícil leitura reside na profusão de remendos, trechos em branco palavras riscadas, no meio das frases notas a serem usadas em futuro próximo nunca presente dado o balde à espreita e o fogo com fome. Personagens sem nome, outros com vários; nomes calcados em defeitos, a Muda ou Dedicada, quando qualidade, qualidades nunca comprovadas em virtudes e defeito testemunho de valoroso caráter. Aos que leu a Mãe rasgou, minúsculos pedaços como quem, distraído obcecado, mecaniza os atos. Remorso nenhum, então dorme. Se remói arrependidos levanta-se com a dificuldade de velhos, junta os rasgos remenda como pode, alguns cola em ordem inversa dada a vista sofrida de nada de bom ver na vida e, meticulosa, guarda nas caixas de sapato junto às mechas de cabelo a Benedito cortadas aos quatro anos de longeva idade. Então sim, nesta noite dorme.

Dia seguinte afirma não dormi nada. Se dormir é entrega inocente a orfeu, descida aos infernos desatados do mundo os comandantes sentidos e às delícias do descanso somados a liberdade dos sonhos e o perigo de bebendo água dessas fontes nunca mais querer voltar, então não dormiu. Atenta, se fecha os olhos transforma-se argos em seus ouvidos milmultiplicados. Ouvidos esses que não devolve no dia seguinte, nem os olhos, embora diga não enxergar bem e obrigar repetições ao interlocutor ‘té eleve o tom da voz para ela irritada dizer que não é surda. É quando Benedito Rui não ri, dias sem falar, escreve e apaga escreve e rasura escreve e rasga escreve e queima, escritos que religiosa ela recupera para, alguns, ela mesma rasgar. Então dorme. E recomeçam.

Padre amargo, escreve Benedito referindo-se a Damiano, e desconfia se amargo não se aplica reflexivo a seu humor; padre amargo de crime nenhum mas infindas intenções. Risca amargo após padre acrescenta amaro e risca e volta amargo escrito em forma. Risca a frase toda e, maiúsculas para novo parágrafo Damastor paresta Damiano e solene surge empós Dalgisa, os suspensórios caídos pelo dorso, a voz vinda do além do sono: nada sublime obsessão, parece-me, tolda-lhe o espírito. Apaga solene embora o papel guarde ainda traços calcados da forte escrita. No lugar prefere o gerúndio de aparecendo primeiro porque Dalgisa já surgira no umbral da porta e não quer repetir, tira empós acrescenta atrás por ser mais direto. Fica: Damastor paresta Damiano aparecendo atrás de Dalgisa. Borracha forte em Dalgisa e troca por Olga, por causa de Volga. Recusa paresta por muito precioso e prefere ombreia, porque se liga a umbral onde já aparecera Olga e dá a impressão de encostar-se nos ombros de Olga. Ri. Ri da última frase e de aliterar Olga e Volga pensando em rio ruço de pecados. Ri alto e sua mãe pede que lhe dê um suco, quatro horas é hora do remédio e ser feliz tem tempo.

Um homem entre suas coxas intruso, bruto e possesso, a fazer de seu corpo seara de sementes molhadas. Benedito modifica mas havia deixado ali para que a mãe lesse, noite de dormir pesado, se leu calada ficou de fala de gesto de olhar. Ainda assim resolveu incluir no Memória Prohibida de Damastor Sem Culpa. Fará parte dos sonhos ruços de Damiano, mas poderia fazer parte dos sonhos amenos de Juvenal, inimigo do sol amante do néon da lâmpada a carvão da sala escura de cinema do bolor do porão de photos antigas até que um dia à luz do dia viu surgir Olga Doña Sol vestida de noiva e, em seus sonhos antes delgados pudores em porta fechada cobriam castos beijos de felizes namorados, a virilidade estampada em amores brutos toma relevo de guerra e, claro, em todos Olga prometida e nunca entregue somente à força esgarça limites de seu corpo divinal.

No Fim da vida Juvenal desistirá de ir a cinemas, cinema sem projetor de filamento a carvão correm higiênicas as cenas digitais, os beijos na pressa de mostrar paixão carregam de pecado as trocas e pulverizam as sutilezas dos sentimentos. Buscara em vão os estalidos do filme projetado. O estalido das trilhas sonoras comparsas dos riscos nas telas, descuidos na mudança do rolo números letras e jatos brancos a denunciarem como verdadeiro sonho o real na escuridão iluminado. Para ele Benedito Rui escrevera um epitáfio nem tanto lapidar e que pretendia não incluir em seu livro de Memória dos Outros:

Amado celulóide. Nele impressas scenas esperam jorros de vida da luz advinda. Tela fugace. Trânsitos luminosos. Leves chumaços brincam no escuro brilhos de essências irreais. Em branca tela. Amado celulóide. Entre os dedos a fita, restos centímetros de um longa metragem, a cada fotograma um gesto a pouco e pouco se completa, instantâneos à espera de luz e manivela os lábios aproximam-se quadro a quadro num beijo selados, enquanto mudo o letreiro confessa: Amor de minha vida! Quem terá dito a frase assim escrita, ele ou ela?

A lágrima rola fotogramas abaixo, marca o celulóide a queimadura feito flor cinza filha do calor da lâmpada mesma luz que à lágrima alumia agora tolhe do choro o movimento, em meus dedos o pedaço; a dor na face sem palavras.

Amor de minha vida!, nunca ela me disse, sequer me amou a vida ou alguém. Enredo preto no branco. Olga, nunca mais.

Sobre Laslos redigiu escassas notas. No rodapé de um caderno de caligrafia escreveu Atraído pelo som do violino da Sinfonia Hespagnola rica em violinos Laslos entre eles ficou! No meio de uma oração de São Francisco, talvez referindo-se a Laslos: Todos já sazonados, ele ainda na provocante juventude. Colete xadrez, mangas arregaçadas força o braço à mostra, cabelo na testa por displicência desmanchado mas sabia sua mulher que cada mecha ondulava, a poder de pente e brilhantina, em estudada curvatura.

De Damastor a quase-auto-biografia tantas notas tem que várias caixas de papelão foram usadas para guardados e, um tanto maior de recortes lembranças e anotaçoes para Raphael e Olga, de nomes verdadeiros chamados Denizard e Dalgisa por precaução modificados, denotativo do desejo de, no fundo, Benedito Rui ter publicados impressos em brochura ou capa dura e lido seus escritos falsos mas nem por isso menos verdadeiros.

Dissera um dia: Cabocla Teresa, a mais bonita do lugar.

Ao que a Mãe, orgulhosa da própria beleza juvenil da beleza dos maduros anos e de recortes perfeitos proporções de traços testemunhas de bela ainda malgrado as rugas responde rouca voz: Cabocla Teresa nunca existiu: musicou-se a lenda para atemorizar mulheres malintencionadas quanto à honra de seus maridos.

Ao ler, aqui ali, em papeis avulsos sobre Meninico e Gertrudes, duplonome da ama Julieta, a Mãe desconfiou da intenção de Benedito relatar com maldade uma não muito digna juventude sua vivida em terras de São Sebastião, dos quais nunca achou nem rascunhos mas, via das duvidas, Deus me proteja. E na cadeira empalhada não se embalança.

paulinotarraf

13/07/2009

Conto Romances Arquivo 012 

 

Nona

 

Conheço minhas gravatas e o nó que num laço faço.

As mulheres, nenhum mistério para mim. Deploro que não haja algum.

Minhas gravatas, seda pura. A ponta um pouco abaixo do umbigo. O nó. Casulo de precisão. Algodão que fosse; não está na seda pura o segredo do nó: na ponta de meus dedos, ágil virar, torcer, ajeitar, e o triângulo encastela-se preciosa gema na gola entreabertos lábios ao fundo oculto botão.

As mulheres. Qualquer mistério. Haja um, e fico feliz.

Nem na lua, mistérios há. Houve tempos de se olhar para ela, lua de baça luz halo prata acolchoada em nuvens, e cismar; abraços namorados; místico sonhar. Chamaram-na Rainha da noite, ingênua reinou; Senhora das marés, nos mares mirou-se. Prata e solitária distante num céu de breu; fria e majestosa envolta em manto estelar. A lua, ébria de poesia, ignorou ser do sol o luzir de seu luar. Um dia, homens, passearemos nela nossos astronautas pés. Nem lunático posso ser.

Crédulas. Você e a lua, mulher.

Nem misteriosa ela, nem você.

Elisa. Atadas as mãos, mordaça, vejo-me em seus olhos de terror.

Desato o nó. E no colarinho dobrado, estreito sulco, alisa-se a seda em vai-e-vem e a quentura adivinhada acaricia-me o pescoço e gosto do perfume que se desloca no ar dos movimentos meus.

Mulher, mistério nenhum.

Em lugar algum. Alhures o comum.

Elisa, a mordaça, acaricia o silêncio o profundo de minha voz.

Aguarda-nos Beethoven, núncio dos Elísios, morada do mistério.

Ligo a victorola. O braço pousa mecânico, a agulha desce no sulco certo. 78 voltas por minuto jorram a sinfonia coral do Beethoven morto há século e tanto e se a esse surdo ouvimos agora é a eletricidade sem mistérios quem nos traz o som. Distorcido, embora. Quem garante ter sido assim outrora concebida quanto agora executada. A qual cantor barítono ou tenor devota você sua atenção e a qual soprano devoto eu e não ouvimos no mesmo tono, principalmente você inundada de tal Pavor.

Ré menor.

Ódio maior.

À Alegria.

Elisa. Se mistério inda algum persiste desvendo agora. Para Elisa. Mistério continuará para mim.

Você crédula mas não eu.

Gira Beethoven tuttipotente orquestral.

A massa sonora freia seu frenesi. Címbalos tímpanos e tambor abrem parêntesis para o cantor que barítono ordena cessar todo antigo som: O Freunde, nicht diese Töne. E conclama os amigos, milhares de milhões, cantarem irmãos a Alegria.

Não faço parte dessa confraternidade. Não eu, Elisa crédula.

Heróis vitoriosos. Sob o manto estrelado todos flutuam irmãos nas suaves asas do maravilhoso. Crédula Elisa. Eu não. Orquestrados eles, a batuta vai Beethoven e os violinos indagam sutis em sibilante espiral suspensa nas cordas mais grossas, cellos e violas para o céu. Retesados os arcos disparam frechas metais tambores trovões e centenas de vozes agudas a despencar graves dos campos elísios gritando todos reunidos numa só alma orando numa única canção amigos em amizade, marido fiel da eterna mulher e logo mais Elisa seus gritos sua alma e a deles uma só.

Alegria, Filha de Eliseu, Alegria. Esses seus olhos de susto nascem de mim. Nascem de minha fúria, Elisa, meu desamor.

É num último sopro que a alma entra no mistério. E dele compartem outras almas, dadas as mãos esperam desatadas as suas, você num grito deixará o mistério só para mim.

Eu comando os laços. E o momento certo decidem meus dedos ágeis espertos a virar e torcer os nós e seus apertos.

Desfaço a mordaça sufoco que a impede de gritar. Mas somente no clímax orquestral coro de milhares de milhões de almas a conclamar por sua alma irmã, filha de Elísio, livre da mordaça agudo dó de peito gritará ascendente aos céus.

Refaço o laço.

Veja, Elisa, a ponta um pouco abaixo do umbigo. A seda sustem a beleza do nó. A maestria é da ponta de meus dedos. Veja a grandeza dos meus gestos, o volteio de minhas mãos e a seda sibila excitada por segundos excitada você, entre sustos não sabe ao certo se no círculo majestoso desse entra e saí um nó de perfeição retangular beijará entre os lábios do colarinho a delicadeza do botão. Confessa, Elisa, é magistral.

Agradecidos seremos um para o outro nesse momento solene.

Incrédulo, eu.

De qualquer paixão.

Sentimentos bons paralelas intenções. Desconfio do amoroso par. Sócios anônimos conjugam-se silenciosos no amoroso par. Eu, meus dedos, minhas mãos.

A ponta um pouco abaixo do umbigo e reta move-se discreta à mais leve torção de meu dorso grácil cetim minhas mãos a sabedoria de meus dedos o nó.

Crédula Elisa.

Mulher, mistério. E você, crédula sempre, sempre ouviu e gostou de mistério ser. E ter: colo de cisne, em pele de alabastro, boca rubi dentes fieira de pérolas carnudos lábios sempre úmidos promessa de delícias e você acreditou ser mulher mistério de cabelos negros como a noite céu picado de diamantino pó descendente em caracóis cada curva um segredo anelado emoldurando insinuantes seios níveos que mal se adivinham sob a camisa de cambraia a descobrir umbigo centro do mundo que malmequer desvertebrado verme expulso desse círculo bem-aventurado onde eleitos cantam Alegria radiante brilho divino.

Crédula Elisa.

Ouça a música e goze a entrada passo a passo nesse Santuário morada do Senhor.

Freude, schöner Götterfunken.

Olhos de Terror. Custa-me crer que são esses os olhos que você devolve à minha fraternal intenção.

Refaço a mordaça.

Desfaço o nó.

A gravata, de meu pescoço para o seu, alabastro cisne e meus dedos ágeis e sábios conhecem o nó de que essa seda é capaz.

Os violinos indagam em pianíssimo suspenso.

Esperemos que o coro esgoele Millionem no esboço orquestral e afrouxo a mordaça para que você grite também.

Agora!

Frenesi.

Grita. Grita mais. Junta a sua à voz de crédulos milhares de milhões.

Novamente o suspenso, amordaço novamente.

Freude, schöner Götterfunken.

Além das estrelas a morada do Senhor.

Não vejo em seus olhos a felicidade radiante.

Meu corpo nu junto ao seu.

O nó corredio na alvura desse colo busca desfazer o mistério que mistério continuará em mim.

Entre meus dedos abrem-se os campos elisianos, confino da Terra, planície do rio oceano. Morada dos deuses, regaço de heróis. É à força que verme entro e tomo posse.

Crédula Elisa.

Ouça a música e contorça o corpo em terror para o gozo meu. Eu, alijado de entre os homens de bem, mas o único para quem o mundo guarda dos mistérios apenas um. Eu sei a ilusão morna que mantém vivos esses heróis e meu gozo é viver no desprazer que todos negam ter.

Se não desfaço a mordaça, apertado o laço, sem a liberdade de seus suspiros será pelas lágrimas o escorrer de sua alma.

Elisa, Beethoven chega ao fim com seus enlevos musicais, mentiras em harmonia. Grandiloqüência suprestelar, é nossa vez, e agora uníssonos a seus desamordaçados gritos a dança circular garante coral sermos todos irmãos.

O laço.

Canta mais.

Silente mistério.

Desliza

o nó.

Há Deus, Elisa?

 

Gertrudes acorda assustada, procura por Vina em seus pensamentos, limpa o suor filho do sonhoterror e, apressada, a porta do quarto descerrada no leito Vina, como sempre loira e linda, ressona o sono das almas gentis e puras: somente eu tenho em mim a morte para quem amo tanto, pergunta Gertrudes para Julieta decepcionada.

Arquivo 012 de Conto Romances

Paulino Tarraf

 

Versão 01/01/2008

Versões anteriores
05/03/1999
25/05/1993

 

 

Conto Romances Arquivo 01

Raphael, Olga, seus amores

Raphael, Olga e seus amores cinco descerem pela calçada, eles ternos de esmerado corte tecido de refinado têxtil, ela o esvoaçante vestido na graça do vento, somente em dia muito especial. Aguardado pelos Vizinhos. Hoje corre no comum das horas habitual segunda-feira.

Deserta rua de cães vadios aqui ali um transeunte raro pela calçada a passo diminuendo, amolador de facas vendedor de vassouras a matraca do beiju, a falta de pressa do vendeiro de alface passa, riqueza de luz que nas rotinas desvanece.

Aberta a porta verde da alfaiataria dentro Raphael alfaiate silencioso chuleia e cirze solitário, roda a máchina de costura em cadência lenta ecoa a matraca da rua.

Rapahel alfaiate de grande altura, sim; mas alfaiataria é nome comprido demais para a estreita fachada e pequeno cômodo por entrada porta única.

Gira na Victor o Capriccio Italiano doces harmonias da electrola, incansáveis pedais ao ruidoso rolimã fazem cantar na Singer os pesados metais da máchina quando costura. Matraca pregoeiros metais e violinos descem e sobem alternados sons nos ecos da rua; Raphael assovia fino contrapontos à melodia.

Transposta a porta verde ao fundo dois degraus outra porta fechada e verde levaria ao umbral da casa. Além, o breu.

Rapahel, afinados ouvidos, no meio da bulha distingue chamado em silvo agudo vindo do fundo:

Sim, Olga!, responde ele ao silvo, a língua no céu da boca alonga a sílaba inicial em Olga.

Alfaiataria, da casa enorme Raphael ficara com a sobra, concessão no corredor de passagem da rua abriga o necessário ao ofício. Prateleira das variadas casimiras da parede pende, guarda-roupa reformado é armário com gavetas para utensílios, antiga mesa é balcão para corte do pano, o cômodo embora estreito acomoda-se a tudo além de um manequim de provas em alpaca envolto feito saio, face de esbatido rosa olhos vesgos num ponto fixa; uma victrola não mais de manivela moderna electrola disputa a primazia com a macchina de costura moderna de pedal com rolamento e roldana, não mais manual, quanto rápido passe o tempo diz Raphael mesmo assim ao progresso não alcança da tecnologia os avanços; a macchina enquanto feroz a sua agulha cose canta canto rival da victrola a girar um disco sonoro ao suave toque da agulha. Movimentos em cadência de Raphael. Algumas cadeiras para a prosa das visitas, os amigos três que à tarde como sempre virão. No estreito corredor cabem todos, feito bondoso coração.

Raphael alfaiate, qual numa entretela metido por enruste, de pé atrás do balcão vinca a unha na fazenda preta gola e losango da lapela, risca de giz azul cavalo da calça e cós, recorta tesoura majestosa da manga o cavo; o manequim companheiro, olhos vesgos de jabuticaba verde ainda, vestidos paletós em alinhavos casimira ou linho, recolhe surdo os espaçados suspiros de Raphael em coro com o clarim do Capriccio.

Cantarola junto, se não assobia um tom abaixo, sempre no compasso, deformada melodia. O Capriccio, bisado durante o dia, faz parte da história de minha vida repisa sussurrado ao manequim imóvel, que vesgos olhos pousa no tempo desbotado embora, também você faz parte desta corrida. Tantos anos precipitados na pressa da ampulheta juntaram amigos e pó.

Sim, Raphael pelas várias alfaiatarias que teve foi seguido pelo vesgo manequim, companheiro seu desde antes da guerra englobar o mundo; assim nem tanto só na vida querido de Olga, pelos amigos quatro queridos.

Alpaca linho e percal aguardam no balcão risco e corte.

Nem tudo entretelas, nem só o silêncio do chuleio ou o cantarolar esparso do vazio das horas. De música em música, assim caminha o principal do dia vencida a manhã, tesoura no corte ou agulha no cerzido, macio silêncio, só a música imperial.

Seleção matinal meticulosa do fundo musical é o prazer de Raphael compor a ordem das melodias, entre quatro paredes abrir a trilha sonora no tempo e no mundo, várias pátrias variadas épocas: Capriccio italiano entre todos principal, Bolerô de Ravel é passagem, pour La Mer de Trenet vis-a-vis La Mer de Debussy, para a Doce França ao ritmo de La Valse, Ravel de novo convida à dança; modernas gaulesas castanholam sedutoras habaneras feito hespagnolas fossem orquestradas por Bizet; de Verdi triunfal Aida conduz Raphael a falsos orientes onde nascente o sol ilumina a Butterfly de Puccini senhor de sua sina desditosa por ele escrita; hóstias negras de rebrilhante vinil, acariciadas na casimira, aguardam em pilha a vez de rodar no prato giratório, oferenda solene entre os dedos de Raphael sacerdotal.

Raphael feliz.

Agulhas e sons.

O pé no pedal.

Giram, companheiros de Raphael.

Roldanas e rolamentos no canglor do afã diário. Doçuras electromusicais.

Acionado o pedal a macchina primadonna introduz, cantora, profana cadência. Percalços para Raphael. A agulha guilhotina o som da agulha rival.

Sua alma, sua palma; diz Raphael, a língua palatal. Se em Olga delonga o ol, gosta de palavras qual alfinete alma espiritual álcool algodoal, nelas a consonantal alvéolo-dental alcança o céu da boca, dito cel bucal, pela língua demoradamente acariciado, como anotara Benedito Rui no rascunho de sua autografada biografia.

Sua alma; e num gesto o dorso da mão direita escorrega a palma da esquerda. Sua palma, era o dorso da esquerda a escorregar a palma da direita. Explica: a alma transparece na palma da mão, o íntimo exposto ao mundo.

Alfaiataria, aqui reina Raphael. Entretela rua e casa. Larga em desmedido comprimento. Muitos cômodos. Verdejante quintal. Casa dentro, Olga imperial.

Luminoso divisor alfaiataria barra, com seus móveis manequins panos victrola e combinados sons, pedal de costura canto solo coral metais quatro cordas piano trio de câmara tutti sinfônico orquestral, a sala em breu.

Isola, nem tanto.

Vizinhos tudo sabem. Se não sabem, sabem a modo vizinho do visível para além das conhecidas dimensões, a oressa que dos corpos sopra e, traz da alma à palma, não só ahúra-masda também coscorão das vidas passadas. E a alma acaba por revelar-se na palma quanto maior seja a barragem entre estas dimensões.

Mais velados os sentidos, mais se aplicam vizinhos no transe das intuições.

Pespontam entremeios nos enredos. Ao cotidiano costuram numa trama épica, revestidos banal e eventual de esplendor, corrigidos no ajuste do cós à amplidão do olhar. Um viso vislumbre indistinto sinal um leve murmúrio fortuito rumor, apuram audição de felinos noturnos aguçam de lince o penetrante sondar e pronto, faz-se platéia permanente do mundo, assíduos, argutos, persistentes. Ocultos nas brechas do lar. Transeuntes eventuais. Vizinhos janelas do saber.

Raro Olga dar-se à vista; quando vista não parece sofrida no algoz de mulher brilhar, na força do escovão palha de aço querosene e cera, o piso; assim como servir almoço e jantar.

Mercadinho, venda, farmácia, açougue e padaria jamais receberam de Olga a presença. Fogão, vassoura, tanque, pia, sabão, não macularam a graça de suas mãos.

Ao silvo de Olga:

Sim; molemodula Raphael para o breu voltado.

A voz contralto alteia demorado el: Raphael!

E Olga dá-se à vista. Surge aparição na lâmina aberta sobre o degrau da porta repentino corpo, luminal no breu, um braço acima da cabeça apóia do indicador a unha postiça e vermelha no verde batente, a axila expõe-se azulina sob ombros desnudos pelo decote e outro braço em alça espalma a mão nos quadris envoltos na saia ramada de cintura baixa e pregas largas.

Cabelos curtos presos rentes, ramonas grandes feito pentes e pretas:

: Raphael!, queixo elevado pescoço sem dobras, a quente voz chama.

No rosto untuoso do creme facial as sobrancelhas arcam marrons em risca de lápis:

: Raphael!, cera egípcia no buço, a sussurrada voz.

Repentina Olga, e linda.

: Raphael!, repentino desaparecida chama.

Desaparece para além da alfaiataria, além da sala escura; estética e plástica, brilha Olga entre cristais.

Um dos aposentos, acomodou-o em espelho: paredes e teto, um forro de reflexos. Olga multiplicadamente ali.

A ginástica inicia no espreguiçar-se gracioso alongamento de braços pernas pescoço, cauteloso virar-se inteira para não criar pregas, minucioso trato boca testa pálpebras. O sorriso leve aos lábios não vinca aos olhos sequer ou sulca a testa. Corpo cuidado no dia-a-dia.

Cintura firmes carnes dosadas medidas: umbigo redondil, as coxas, meu orgulho, diria o poeta colunas matemática perfeita do escultor para divinal estátua sustentar.

Glicerina para o coscoro no calcanhar, liso e sedoso ao tato e olhar, umectantes de base uva e as unhas fortificadas em iodo e limão, o esmalte a pincel toque de pintor. Meus pés, meu mimo: graciosos e fortes para os saltos enormemente altos, sapatos abertos em despudor.

O banho imersão em leite de cabra tépido, tonificante lassidão para o suado esforço de estirar, contrair, relaxar. Bórica em algodão embebe o descanso das pálpebras.

Linda!, confirma no espelho o escravo olhar.

Então o café matinal:

Raphael!

Apenas por ele sensível ouvido:

Sim! Moduladamentemole.

É hora!

Raphael silva e da rua o Rapaz da Marmita e Recados corre sentar-se, guardião da alfaiataria, frente ao manequim. Proibido de entrar na casa, se entra não passa do escurobreu.

E nos pomposos acordes iniciais, de Strauss ou von Suppé, Raphael galga os dois degraus para a sala oculta em trevas. Cheiro de café e torrada; e nos acordes finais volta o Rapaz para as bolinhas de vidro, Raphael a sentar-se aciona o pedal e a macchina da capo canta. Brilho da casimira em outra gravação, repouso de Olga.

Um sono leve prepara-a para o almoço de carne magra, folhas verdes e coalhada no meio do dia. O pepino reserva-se para creme facial, fórmula psicografada por meus guias espirituais nem o farmacêutico decifra pois vende, dos componentes básicos, alguns.

: Raphael!

Meio-dia de plena-luz:

Sim; melomodula Raphael.

A agulha espetada e descalço o dedal, descruza as pernas devagar enquanto repousa a casimira na macchina calada e sobre ela os óculos. Dois degraus acima sobe e some no breu. Volta logo e silva. O silvo agudo arranca da molecada da rua o Rapaz da Marmita e Recado, que correndo vem e recebe ordens enérgicas. Obediente sai. Busca na casa da esquina do quarteirão de baixo a Marmita.

De volta posta-se Guardião da Alfaiataria, olhos nos olhos do manequim, vesgo semblante plácido sorriso alegre e colorido, paletó alinhavo branco sem mangas. Raphael espeta a agulha, descalça o dedal, descruza as pernas, repousa o óculos, galga os degraus e some no breu da sala escura. Cheiro de bife e alouradas cebolas.

Silêncio. O vesgo do manequim nos olhos sonolentos do Rapaz.

Olhos do Rapaz nos vesgos do manequim, Silêncio musical, almoça Raphael na solidão de alfaiate, entreaberta a porta para o breu.

Retorna Raphael.

E o pedal, sonoro macchinal e agulhas sonora victrolar.

Bela tarde. Acordeom ou bandoneon, depende de Olga saudosa, cantam estribilhistas Acuña-DelCarrill a Meia Luz canta La Môme o Amor. Mudo escuta Raphael.

A depilação é meticulosa. Não sobram pêlos na sobrancelha. No rosto o lápis arca um marrão maior. As axilas, melhor expostas por não terem dobra nenhuma, azuis.

Aos cabelos cuidado menor. Às perucas, paixão de Olga, maior. E num quarto acomodaram-se prateleiras, mostruários de calvas em porcelana as justapostas cabeleiras de variadas cores e tamanhos a receberem escova e trato como animais de estimação.

Três horas!

Silvo.

Rapaz larga o balança-caixão com a molecada e, olhos nos olhos do manequim vesgo, guarda a alfaiataria vazia, o café perfuma.

Verdi ou Puccini. Traviata ou Bohème. Wagner, eventual, só aos sábados, matinal.

Hoje Rossini, e o fortunadíssimo Barbeiro da alfaiataria uma alegre Sevilha faz. Raphael feliz.

Pérolas, prata, ouro, esmeraldas, brilhantes, rubi: colares, brincos, pulseiras e broches são todos jóias verdadeiras que dentro do espelho Olga combina-os entre si, nua ou vestida com a recente remessa de modistas da Capital.

Crocodilo, antílope, camurça, leopardo, vitela, porco, vicunha, marta e zibelina: cintos, bolsas, sapatos, casacos e estolas. Cômodos no quarto do couro.

Tarde da tarde. Olga apronta-se bela para a noite.

Seis!

Gounot destempera o cravo de Bach.

E, nos rádios vizinhos em uníssono coral, Gabriel Aracangelus saúda Maria.

Até amanhã, seu Raphael.

Se Deus quiser, meu Rapaz. Seja pontual.

O Rapaz desaparece na esquina, de rádio em rádio Ave Maria, som parado no ar.

Raphael cantarola em falsete com o tenor.

O Anjo do Senhor anunciou a Maria, prega em voz solene o locutor.

Allankardecista e como tal espiritualista cordial e caridoso, tem suas ressalvas para com a oração e adoração. Somente a ação acalma a dor, restringe Raphael. Atrás da macchina uma estampa adorna a parede. Robusta mão arranca a dor da palavra Adoração, em minúscula dourada. Abaixo um dístico encarnado: A dor será tirada pela ação. Raphael discorreria horas sobre isso. Mas impossível ficar insensível à audição da saudação do tenor Gabriel mesmo com o cravo soando harpa.

Sou incorrigível romântico, ressalta Raphael.

Entretanto a entretela.

Eles começam a chegar, os Três. Despontam na esquina. De gravata e paletó, de colete xadrez apenas um. Às vezes juntos, quiçá separados; dois primeiro e o outro após. Passo lento na fresca da tarde engolida pelo olhar entretido dos vizinhos. Nunca faltam, os Vizinhos. Nem os Três.

Uma lâmina da porta fechada.

Entram um a um, ou juntos os Três, sentam-se magros ao redor do manequim. Um deles mulato claro. Outro pálido magro. O mais novo, a pele creme, o colete xadrez a camisa de meia e três botões, o bigode tinto avermelha a boca.

Radialistas, jornalistas, convictos allankardecistas conversam muito, do jornal ao espiritual.

Surgem os Vizinhos, sorrateiros. Vultos moderam o andamento quando fronteiros à porta. Os olhos de viés, no vão aberto verde têm por entretenga adivinhar o passado além.

Vêem o manequim desnudo e Raphael, dedal no indicador, alfinetar alfaiate o paletó no mais robusto, de bigode tinto cabelos de negro pó retirado o colete.

Ouvem Raphael espiritualista alinhavar metafísica enquanto faz alterações na pala, vestido o manequim; um terceiro some pela escada escuro adentro. Para um passe:

Crêem; olhos malícias, ouvidos sátiros, língua mordaz; variações em tom menor para um tema singular.

Uma valsa vai, uma sôfrega polka inda, e some com os outros dois a escada para as luzes; concerto ligeiro a várias mãos, acordam ao final os Vizinhos. Palmas.

Geme o acordeon une chanson française, qualquer chose de rendez-nous nesta noite mon amour.

Raphael dobra os panos, encapa os discos, fecha a mácchina, guarda a tesoura, agulhas, linhas, giz, alfinetes e dedal.

Permanece mais um pouco, até o escuro aprumar ortóptico os olhos do manequim. E Raphael completa o verde da porta que falta.

Somem os vizinhos. A Hora do Brasil toma conta do ar. O escuro conta da cidade. Os cochichos dos seroens.

Fala-se em sessão espírita; os cinco de mãos dadas sobre a mesa branca Olga medeia do além mensagens de amor entre os homens.

Duo, terceto, quarteto, quinteto, Olga solista.

Falta para sexteto o Sexto que vem da capital. De quando em vez. A platéia aguarda o principal.

Descerem ela e os quatro pela calçada, fato raro de se ver.

Descerem ela e os cinco pela calçada, quem viu contou vantagem quem não viu jamais se perdoou.

Acontecer suntuoso com aura, início insidioso, ápice monumental. Daí pressurosos os Vizinhos rastearem as advertências do evento, quando!, e postados em esquinas disfarçando intentos, engraxar portões arrimar cercas levantar muros pintar paredes, visitas delongadas prosas presos à porta, vagaroso deslocar-se de uma a outra casa.

Atentos a feriados, fins de semana prolongados, datas prováveis somam com outros sinais:

Um sinal é paramentar-se o manequim com terno de importada casimira. E, as medidas e ajustes toma-os Raphael em cada um dos Três, entre a Ave-maria e a Hora-do-brasil: para um é perfeito o colete, ao outro a calça veste bem no cós embora curtas pernas, e o paletó é no terceiro o caimento da cintura contudo os ombros caídos exigem perícia no corte e ajustes no enchimento; reservada a manga para o exato braço de Raphael, dentre eles o de extensão maior: é o Sexto agigantado de corretas proporções, distribuídas desiguais entre os Três e Raphael. Nenhum deles, nessas primícias, some na escada para o breu, antes dos outros.

Vizinhança atenta nota e novos sinais coleta: Folga do Rapaz é certeza da vinda próxima.

Raphael silva e comunica ao Rapaz não venha a partir de amanhã. O Rapaz cambalhota e as marmitas suspensas por três dias. Suspensos vizinhos desde então.

Chegam os despachos. Por via férrea caixotes de tamanho vário, diferentes dias, endereço certo. Alfaiataria. A cada entrega os Três radialistas não apenas chegam juntos, mais cedo chegam. Uma lâmina verde fechada, ajudam Raphael desencaixotar uma vitrola nova, acústica perfeita em caixas potentes, alta e fiel em disco vinil; raros alguns. As perucas sapatos saias e vestidos, supostos nos pacotes, Olga ao correr dos dias lento desembrulhará. Sempre surpreendida.

Folga do Rapaz, a marmita suspensa, no manequim a casimira inglesa, o despacho ferroviário: dois dias depois ele chegará. O Sexto. Cognominado Secs pelos Vizinhos. Conhecido na Capital como Damastor onde, cerealista exportador, é recebido em casa de condes e barões.

Chega pela manhã. Discreto, só, direto da estação do trem de leito desde a capital, sem malas desce no ponto do Circular. E sobe o meio quarteirão da esquina à porta verde da alfaiataria, fechada. Tem chave.

Em dia normal Raphael silvaria altíssimo, tão longe se distraía o Rapaz da Marmita a brincar. Hoje dia especial, tão próximo se posta moleque, só não toma o lugar do manequim por ser a folga cabal, inadiável e irreversível: nunca brincou tão perto da alfaiataria.

Criança é distraída quanto brincar é distração. Desatentas a ponto de não darem alvíssaras da chegada. Quem o viu primeiro foi a Crocheteira, idosa de boa vista, que desde a folga do Rapaz da Marmita não mais deixara o portão.

Visto o Sexto, semi-abertas portas janelas amplo-vão, cresce no movimento lentas idas e bem lentas vindas da farmácia à padaria e o retorno à farmácia completa-se com o escolher uma a uma as verduras da quitanda, da quitanda para a venda o cheiro do pão fresco sem pressa a fila coleia a esquina da padaria, se o sol queima o meio dia as árvores derramam sombras nos grupos atentos e vizinhos visitam-se nos beirais de entrada em pé as longas despedidas, a tarde escorre nos sons da vassoura a rascar calçadas, do esmeril amolador de facas, pancadas desamassam tampas e panelas de lata, matraca vende beijus crocantes, apito sorvete de frutas, mariamole flauta, mais intenso ao fim do dia em que foi visto o Sexto.

O Anjo do Senhor Anunciou a Maria no céu estreladiurna alva única no azul vapor entardecido de vermelho a saudação em feitio de oração cantada entre acordes e apertos no coração de abertos olhos para as lâminas da porta em vão.

Ave apenas de vogais sustenutas na gorja do arcanjo-tenor, as notas no ar musical e das gentes o olho na porta aberta em vê, atentos aguardam surja alguém, mas nem no Maria vem ninguém.

Gratia plena e surge emoldurada em verde: Olga.

A franja desce até o arco marrão da sobrancelha desmaiada em cinza para os cílios de pesado negror.

O lápis em dois riscos ousados rasga em lagos as pálpebras onde se banham dois globos azulentes-artificiais.

Brincos brilham adamantinos por entre os cabelos negros, impecável pajem acariciando os ombros nus. Brilhantes enroscam-se no pescoço e mantêm na ponta, insinuando afogar-se no seio, um rubi da cor da boca de entreaberto sorrir.

A saia, vaporosa roda de ramagens verdes termina em vermelhas rosas estampadas na blusa presa por tênue fila de esmeraldas em alça falsa, ajusta-se dos quadris para cima e amolda os peitos oferecidos.

Olga anda. Os pés, minúsculos desnudos flutuam soltos no ar ao som dos altos saltos de vidro. A saia balança e cobre balança e descobre maciços carnais, escuros veludos, profundo perfume confunde os cheiros que a tarde ousasse natureza produzir.

Sozinha desce até a esquina. Olha ao léu, e volta, os vidros nos ladrilhos, desaparece no verde umbral.

Ninguém se move: haverá mais.

Agora eles, os cinco, saem.

De terno, corte impecável que o manequim vesgo e sorridente usou, alinhavado, à espera da prova para a magistral confecção. Ficam por ali. Sem pompa, distraídos quase. Um entra, outro sai. Calmos. Ou na esquina nada esperam. Como quem sem pressa espera, mas.

Os vizinhos entr’olham-se guardiões.

O arcanjo-cantor: Ave! Maria!

Em estacato clama tenor:

Maria! Maria!

Perfume.

Olga porta assoma.

Lentamente sai.

Raphael fecha lâmina a lâmina em chave a verde moldura.

Os quatro aprumam-se, fronteiros: Damiano, Juvenal, Laslos, Rapahel.

Sexto, gigante Damastor, derradeiro.

Ela primeiro. Destaca-se à frente.

Saltos de vidro saia rodada.

Esvoaça

lento cerimonial,

Noturnália de Divas

com outras estrelas Olga compõe.

No além da esquina, na dobra do tempo, Olga vai.

Dores atrozes.

Em arpejos diluídos

Acorde final

Amém.

Arquivo 01 de Conto Romances

Paulino Tarraf

Versão de 03/07/2009

Conto Romances Arquivo 02

DAMIANO

Amandio, doce Amandio se come não dorme, dorme não come, nem come nem dorme sem que lhe triture o sossego alguma preocupação. Carrega-se em cuidados para não ser incômodos, perturbações da vida alheia com seus diminutos desejos, coisas de somenos pois um pouco mais de empenho ele mesmo resolveria. Passar em branco, depois de querer ser garção, fora o maior anseio de sua vida. Ser cantor de ópera impossível pelo tanto de espaço a ocupar no reduzido orçamento familiar essa formação tão custosa e seu irmão Damiano ter ido para o seminário tão caro servir a Deus.

E também porque não tinha voz.

E não tinha voz também para pedir o que fosse para si mesmo, como eu pude notar desde o começo, escreveu Benedito Rui na Biografia nunca vinda a público de Damastor Cerealista por não autorizada, embora com um pouco de educação vocal passasse de baixo desafinado que sempre foi para um barítono médio de timbre aveludado. Aveludado na modulação vocal, esse dom de graça deu-lhe Deus . Ao contrário de Damiano, raspador de erres e prolongador de vogais acentuando consoantes metálicas ao sabor da irritação de não ser atendido no que pedindo ordenasse.

Amandio queria ser garção, mas não para servir. Era para dar caminho aos outros com torcidas de cintura e corpo equilibrando-se com bandeja transbordando de pratos na mão.

Para servir Amandio foi ser barbeiro, além de servil a cotio. E Damiano padre, mas para servir a Deus e só a Deus.

Barbearia, qual numa enfermagem a desinfetada limpeza. A navalha afia-se em calculado ritmo do vai-e-vem no couro esticado. Corre o corte na pele ensaboada, espuma e pêlo no babeiro de algodão branco engomado ou no dedo em riste em momentos de maior concentração. Abaixo do nariz, na covinha do queixo, o raspar das bochechas é som saboreado quanto o afiar ritmado o fora; pedra-pomes amacia e pedra-ume estanca o sangue mas nunca usou, tanto é preciso Amandio no deslizar da lâmina mesmo nos desvãos da pele.

Amandio é barbeiro de pouca fala, da fala bastante ao requerido da hora, raridade de dura conquista treinada após observar que o excepto à regra tem melhor servidão. Ouve muito e faz contraponto para a conversa discorrer em maior fluidez. Silêncio absoluto se o freguês ameaça dormir, direito garantido que a cadeira inclinada lhe dá.

Cheiro de menta. O fino talco.

A tesoura um corte no cabelo dois no ar religiosamente. Metrômono do sono.

Mas Amandio é barbeiro de navalha, mestre em aparar no cabelo a caída que ele tem de natural.

Desde a morte da mãe continuaram, solteiros, morando juntos. Ele e Damiano. Amandio era casto.

A batina, casimira de lã, lava-a um tintureiro. Meias, camisetas, camisa, calça, Amandio encarrega-se delas no tanque. Foi quando esfregava a mancha engomada que lhe ocorreu perguntar a Damiano se sonhar era pecado: achou melhor não e continuou a lavar a cueca do irmão, ocultando dele a nódoa jaculada no sonho atrevido.

Acqua velva recende por onde Amandio vai. Vinho por onde Damiano vem. Ite missa est e rapidamente o paramento se despe desde quase o altar e na sacristia repousa jogada a estola e a alva de fina renda e prestes o padre para a rua cuidar dos negócios que é de Deus. Aqui uma extrema-unção, ali um viático ao enfermo, a encomenda de um corpo cristão, acqua benta em casa nova entronizados de Jesus e Maria os sagrados corações. O Livro de Horas sempre aberto no caminho ou dedos de prosa com fiéis esclarecendo a palavra de Deus. Tardes em confessionário, casamentos sem fim, batismo com choro e enterro com velas: este não era Damiano.

Damiano a serviço de Deus é a conversão do fiel. A ferro e fogo, pulso e garra, pau e porrete, como resumiu Benedito Rui para sua Mãe na cadeira espreguiçada a ouvir trechos da Biografia escrita a lápis corrigida a borracha: No grito e no berro talvez fosse melhor, sugeriu a Mãe ignoradas Mãe e sugestão por Benedito Rui. Tanto a pau e porrete era a forma mais próxima dos fatos. Métodos próprios, práticos e convincentes: chantagens emocionais, promessas de céus ameaças de fogo eterno, lucros e penalidades ao sabor do humor vigante.

A memória de Damiano era-lhe útil como confessor. Não que fosse necessária nessa prática sacerdotal. Mas para Damiano enquanto confessor. Ótimo fisionomista, na penumbra do confessionário distinguia o fiel pelo timbre da voz. E nos retornos queria saber notícias do pecado anterior. Terror das crianças que tinham nele um calendário do uso das mãos. E um calendário para as adúlteras com o número de vezes para o marido contrapondo ao número de vezes do sedutor. Resolveram, por questões práticas que Amandio o teria como confessor. Barbeiro, por profissão o dia todo de pé, queimavam-lhe as varizes. Assim comerá o fogo do inferno, pelos pés, aqueles que não andarem certo na vida. Foi o que Amandio ouviu calado após queixar-se pela primeira e única vez da queimação.

Amandio era o mais fiel entre seus fieis. Não por temor a Deus, ao qual considerava incomensuravelmente bom. Mas para servir ao irmão a quem, quando nos dias de melhor humor, fazia a barba e a tonsura com presteza algébrica, o círculo perfeito traçado a navalha a lâmina numa ponta, a ponta do dedo como ponta seca de um compasso a girar e raspar delicado e atento. Apuro e esmero abaixo do nariz, na cova do mento: sulcos de intocado pelame. Costeleta bem passada. Tesourinha rápida e carinhosa a liberar com cosquinhas os pelicos das narinas e do trago auricular. Enquanto Damiano relatava suas últimas conquistas para Deus. Do casal de namorados, ela em ardente paixão ao Senhor, ele ardentemente apaixonado por ela. Protestante mas fazendo dela Deus na terra. Não tive dúvidas, para se casar, teria o nubente de se converter, convertido confessar-se. Raspar de erres e navalha, um e outro. Foi uma das mais rápidas conversões. Feliz por saber na confissão ser o noivo casto, embora a noiva não.

Deleitoso paraíso, confundas do inferno, padre-nossos penitentes e ave-marias aos convertidos tragados em tentações: a tudo Amandio ouvia atento e paciente, suspiroso nos momentos dramáticos, navalha dum lado pente do outro os braços abertos em cruz a boca em credo.

Nunca teve sócios pois trabalharia para eles com certeza, disse enfático Damiano. Nem auxiliares teve mais: a cadeira do auxiliar barbeiro vazia ao lado enquanto os fregueses em fila aguardavam por Amandio, bom de tesoura melhor de navalha; e o auxiliar brincava triste com o borrifador, com a escova, com o pente, mão, dedos se nada ao alcance servisse de distraimento ao seu sofrer desprezado.

Trabalhava de dia trabalhava de noite, sem almoçar muitas vezes. Não tinha coragem de dispensar o freguês que se entristeceria pensando ser desprezo. O irmão condenava tal ganância, Amandio não se defendia pois Damiano grita sem parar que o pecado só o inferno cobra devidamente se não há convicção e firme propósito de não mais pecar. Vender a barbearia nunca. Recusou ofertas pois interessados tantos havia quanto enorme era o movimento. Amandio não vendia pois vendeu uma vez e a freguesia caiu. E não agüentou de remorsos frente ao arruinado comprador. Prepara um fluxo de caixa para comprovar que o movimento é grande se algum dia vender e tem pronto o argumento de que a partir daí pode crescer a procura ou decrescer. Nunca mostrou ao frate o Livro Caixa: fatal comparação e a pecha de rezar pelo Livro de Lucros a oração do especulador. Mas já desfia um terço por conta. Revistas para ler na espera só Família Cristã ou Edições Paulinas outras. Colocou uma vez Torre de Vigia a pedido de um freguês e pela capa sugerir tanta piedade cristã. Damiano em furor piedoso ameaçou nunca mais abandonar sua tonsura em tão heréticas mãos. Rasgou a revista rosnando erres raivosos. Redimir-se na reza de um rosário e o confiteor três vezes três dias antes de dormir. Alem da promessa de jamais aceitar conselhos de Sentinelas de Jeová que se acreditam escravos do Senhor. Só assim voltou a tonsurar Damiano.

Tonsura e barba, Amandio ouve calado mas atreve-se pensar o que Damiano fala sem parar. A terra prometida, jardim paraíso das delícias, tranqüilidade em rotina pura, reino de avenças e avires entre os homens todos iguais. O céu é a barbearia dia de domingo, varrida e lavada, talcos enfileirados nas prateleiras de vidro reduplicados no espelho lado a lado lavandas cremes pedras-ume-e-pome pentes fino e grosso escovas e borrifador de água de álcool de pó navalha e máquina-de-cortar-cabelo tesouras e tesourinhas e o amolador de navalhas em couro cru, sua paixão. Passava horas naquele silêncio iluminado de azul-vitral, luz coada de dia de sol sentado na cadeira de beirais arredondados trabalhada em motivos florais de ferro gusa porcelanizado de branco. As mãos postas, os indicadores amparando os incisivos da boca semi-aberta. Pensativo, olhos inativos na pia onde dançam azuis as vênulas do falso mármore branco. Quero ir para o céu encontrar minha santa mãezinha. Mas se no céu somos todos iguais como distingui-la de todos os outros mais. Com a navalha raspando a garganta de Damiano atreve-se a perguntar. Alongando as vogais em imbecil, com ênfase nas sílaba fortes em pecado e tapado, carregando em burro os erres escarrados, Damiano pletórico perora que não ousasse duvidar da sabedoria de Deus e que no céu eramos todos diferentes um do outro conquanto fôssemos iguais. Que sem dúvida alguma no céu conservaria todas as características que na terra lograva possuir. Conviveremos lá nós dois tal qual aqui. Você reencontrará sua mãe. Amandio, mortificado, com a navalha na jugular de Damiano não quis perguntar se veria a mãe menina, recém-casada ou viúva idosa como acabada finara, receoso de que Damiano fosse julgá-lo mal e a navalha na jugular cumprisse, desavisada, outros destinos para o qual fora feita.

Os dois reproduzirem no céu o inferno da terra: a navalha na jugular.

Nesse dia usou a pedra-ume, carinhosamente pensando como era bom ter um irmão tão esclarecido nas coisas de Deus.

Morreram um dia os dois. Um deles foi para o céu.

paulino tarraf                        versão de 04/ 07/ 2009

Conto Romances Arquivo 015

Prazo e preço fixos

Loja das antigas, antiga de ter dono e nela trabalhar o dono duro e dedicado.
A mão esquerda protege espinha e rim, a direita destranca em solavanco a porta de ferro, enrola-se ela desenrola-se ele ambos para cima, e de dentro amornado bafo desprega-se das fazendas multicoloridas em peça e retalhos alpaca brim seda linho e algodoim ordenadas em prateleiras de madeira o balcão, dispostas miudezas sabonetes enfeites perfumarias e talcos em fiteiros por vidros protegidos, abrem-se à vista para ele. Como todos os dias, nesta Segunda igual.
Entra com orgulho na rotina gostosa laborioso dia: balcão a peroba lustrada, metros medidos tecidos cortados tesoura em punho, ágil sobe escada das prateleiras desce rolos de fazenda nas mãos equilíbrio estável, piaçaba e espanador sorridente se das ruas o carbono insiste moderno escape volátil de gasogênios fordes bate no arabesco do vidro em moldura mogno, ele é, atrás da Registradora entanto, permanente sentinela:
Um tranco e tilinta o troco.
Hipermétrope incipiente e leve astigmático: venderia saúde não fosse a suspeita de alguma novidade nos rins, e fraqueza moderada em reservadas partes.
Uma guerra além mar feito febre influencia o globo ameaçando pelo mar e ar derruir fronteiras, um medo mundial.
Aqui dentro paz imperatriz: aos olhos do dono o dia desenrola-se num tempo fito.
Substituto dos burros lá fora o bonde guincha elétrico, rival dos furgões a buzinar estrídulos entre rolos de fumo, compassadas as charretes faíscam os paralelepípedos de ferraduras e arriscam disputar passageiros a preços menores e conforto de assento. Os burros descansam.
No soquete a lâmpada de quarenta velas, difusa luz.
Outras lojas perdem-se em sociedades anônimas, diversos donos da mesma matriz em filiais dispersas empregados vários. Nelas balconistas de calça azul camisa branca de colarinho duro manga comprida, tesourinha desembainhada do bolso de moedas picota mostras do tecido, sempre na porta prontos a sorridentes servir.
Aqui, não. À porta gentil Manequim de papelão dos ombros cavos ondulada em toga grega a casimira cai macia a beirar o chão, olho azul e rouge rosa namorica o transeunte e, se entra freguês, mesureiro o dono cerimonioso meio sorriso encaminha o bem-vindo até a peroba de rebrilhante uso: desdobra a fazenda aos olhos do freguês em mostra e polimento.
Garante o dono, pela presença, a qualidade da mercadoria. Tem um só empregado. Moço aprendiz, de Balconista chamado. Pontual. Honesto. Limpo. Educado no trato.
Admitido o balconista afastou-se, dono, para trás da Registradora donde nada fala de tudo que vê astigmático e hipermétrope leve. Gosta do Aprendiz acariciar a fazenda com volúpia, olhos fechados, os quadris colados no balcão, suspiro contido; como eu fazia nos meus começos, pensa o Dono compreensivo.
A Registradora, sua nova diversão: no ato do troco a um toque abre a gaveta automática que delicada afaga-lhe a barriga com dois leves sacolejos. Ajeita o ventre estufando-o ao encontro do alcance carinhoso. E pausado, com pequenos socos leves e lentos, devolve a carícia, conta as notas de troco retiradas num repente da mola que as prende no escaninho, as moedas de cobre pelo uso reluzem feito ouro, num sorriso repassa ao freguês, e decidido arremete o ventre fechando a gaveta de vez.
Empregado, um. Fregueses, muitos. Para varejo e atacado. Antigos, de crédito seguro; novos com recomendação.
Abastados fazendeiros do interior, com suas manteúdas, para compras milionárias. Cabelos d’ouro e dentes madrepérolas esgarçadas, sopram gritos finos satisfeitas da vida por mostrarem-se em público com seu amor de meia-idade. Encandeiam-nas o reluzir nos mostruários protegidos de vidro perfulgentes pares de brinco, pulseiras entrelaçadas a colares de várias voltas de pérolas gigantes a rivalizarem falsas com o vermelho rubi da jóia rara nas pedras incrustada em aros baratos de caros anéis. Seda chinesa, pintada à mão no Brás. Tudo meu, tudo meu dizem a boca de bâton às criadas discretas. Sabonetes de paris cheiram perfume nos estojos esmaltados, o pó de arroz impresso francês na redonda caixa renomada marca.
Também do interior os libaneses, mascates de bigodes turcos. Pois a loja tem, com orgulho e satisfação, preços módicos e ofertas de ocasião. Na peroba lustrosa descansa o metro de pau amarelo, vizinho da tesoura gigante. A escolha recai sobre os retalhos. Brim cáqui sanforizado, chita e chitão de cores firmes em padrão original, garantias de não encolher, certeza de não desbotar, arrematados pelos beduínos das verdes roças do sertão, deixarão o cheiro da fazenda nas salas de chão batido de terra e bancos de pau. Entram em caravanas de patrícios. É questão de preferência serem, as compras, feitas aqui e não na Vinte-e-Cinco de Março e imediações dos primos entre si. Malas em corcovas nas costas carregam dedais agulhas linhas correntes e retrós, espelhinhos com redondos retratos de jovens enamorados os cabelos em ondas cercadura de rosas ou ovalados com estampas da Senhora Aparecida em manto infinito de estrelas brasidas, os brincos e colares de menor qualidade para mascatear e, nômades sem oásis, abastecer de belezas a vida roceira dos longes daqui.
Dos bairros, as donas de casa ou suas domesticas, freguesas dos trocados, levam outros miúdos e dedos de prosa. Botões. Colchetes. Ramonas. Alfinetes. Murmúrios.
Mas advogados; e até médicos; gravata e linho ingleses. Chapéu, especialidade da casa desde quando, porta para armarinhos, recém casado herdou do pai e fez crescer, bom filho, o negócio nas marcas prado ou cury tanto faz desde serem de qualidade superior. Sua dedicada mulher, então, sentada agulhas em ágeis movimentos, preparava o enxoval do filho que, desígnio de Deus, não tivemos. Ainda hoje rara vez vem senta tricota e conversa. Freguesas, de chapéu e luva estufada nos grossos dedos de prosa rala .
A guerra d´além mar lançara, nos tempos antigos, estilhaços de crise porta roliça adentro. Sofrera aborrecimentos. Noites de sono perdido. A crise da Guerra explodiu Carestia sem igual. Faltaram farinhas, faltara pão. Açúcar e óleos racionados. Câmbio Negro. Em suspeitos armazéns comerciantes escondiam sacarias à espera de preço melhor.
Ganha-se dinheiro na crise quem sabe trabalhar; sussurrava, em bigode retorcido, um primo irmão de seu pai.
Rareados os fregueses, o Dono duvida saber trabalhar. E sofre. Sem sociedade anônima com quem dividir a dor e o desgosto.
Os filhos que Deus não deu, agora se alivia de não ter. Deus é sábio.
Envergonhado de empobrecer, são reais demais as noites de insônia. A dedicada mulher, carregada de preocupação, levantava-se pronta a servir-lhe chá, a ele que detesta chá: bebe que faz bem! Bebia e dormia, pouco e mal. Selecionou melhor a freguesia: vendas a prazo só para os de reconhecida reputação. Preço e prazo fixos: noites sossegadas e melhor dormidas. Mas a crise ronda. Quando não as febres as bombas dos italianos anarquistas e a cidade furada a balas por militares revoltosos.
E os roncos da Dedicada. Mantidos mesmo após os golpes de cotovelo. Ela caso acorde e, rápida com a chaleira, perdesse ele o sono servido, volta a roncar.
Acostumara-se com Dedicada, difusa na malha do dia-a-dia tecido de certezas. Pasta de dentes à esquerda, no armário, ao alcance sonolento da mão. Guarda-chuva na chapeleira chapéu no cabideiro. Chinela ao pé da cama, ao lado do urinol. Dedicada para o necessário.
Se ronda a crise, o cotidiano nas costumeiras acalma-se.
Tome chá.
Cinema aos sábados, no Centro Velho, para onde os levavam os calmos pés.
Pelo Chá.
Viaduto de orgulho cidadão. Dele olha o perfil metálico do Santa Ifigênia lindo e necessário caminho inglês a ligar o velho ao novo, os Campos Elísios dos palacetes ricos e assobradados.
Deliciosa noite fresca, dizia ela na ida, os olhos no firmamento, onde reinam silêncios do futuro.
Filme lindo um pouco triste dizia ela, emocionado olhar no vago firmamento onde reina o silêncio das telas e fátuo-fogueiam Ator Atriz aos beijos de lábios fechados.
Charrete, na volta, as ferraduras faíscam nas pedras.
Abastecido de sonhos, o Dono trocava-se para deitar, os olhos dela cândidos baixavam-se ao peso dele sentando-se na cama, os pés soltos dos chinelos, suspira apaga a lamparina deita suspira. Mas sempre demora um pouco para começar. Devagar as mãos pelos quentes das próprias pernas. Nunca dei nome para o meu querido, agora na palma da mão, pensa com seus pêlos. Os meninos amigos de quintais e baixadas do Itororó, batizavam nomes de zézinhos e joões aos queridos seus, meu querido jamais recebeu nome algum. Meu Querido tem real grandeza. Mas se aprecia o tamanho, desgosta-o a firmeza: acreditava melhor desempenho em passadas ocasiões mas, enevoada lembrança, confundida com a ida ao lupanar na aurora da vida juvenil carregado de medo e, quase no colo da experimentada dama dadeira, ser levado para o quarto escuro de perfume difuso e mofo intenso, cândida oferecido corpo em quenturas abertas à saciedade, enorme prazer e inesperada gonorréia. Sulfa e muito medo levaram-no curado e quase virgem ao casamento. Quiçá a firmeza em seguidos anos de casamento emurcheceu-se no sagrado de todo santo dia e, hoje, sobra pele na verga pressentida no cinema ao ver a luz bailar na tela a loira em trajos de fatal vampira curvar-se à pressão do astro valentino. Pronto! o Meu Querido. Mas Dedicada dorme e, contornados roncos, para ela voltado o corpo de preguiça, acorda-a com pequenos beijos.
Aos sábados, Dono e Meu Querido dormem bem. Leves carícias, beijos de lábios apertados.
Nem tão bem dormir nas noites dos domingos. Segunda, saberá Deus o que vem lá.
Aurora consumada, a porta de aço enrola-se cilíndrica mas, hoje, a segunda-feira não foi igual às outras. Nem a vida.
Segundas de manhã, quem entra rápido olha, rápido sai.
Amortecido tempo.
Atrás da Registradora um suspiro; outro no balcão. Ressoados no vazio.
O Balconista, olhos semicerrados, redobra fazendas no tampo de peroba. Deliciado desliza sobre elas a palma das mãos e, ao ritmo cortado sucedem-se a cócega da renda, a finura da seda, a maciez do algodão. Suspira. Pedaços de melodia recortam-se por entre a electrostática do rádio; o habitual.
Locutor de grossa voz dá o prefixo das ondas longas em megahertz.
A válvula cheira o tango em bandoneon, romântico comparsa da estática atmosférica, chia o canto em baritonado tom.
Entra a freguesa dos tostões: Dois botões, de diferentes tons. Grampos pretos meia dúzia, nada mais além de conversar: sem ter com quem sai.
Um solavanco, tilinta o sacolejo.
Pausa.
Aberta a porta de vidro para nova vida.
O tédio da Segunda finda.
Ela entra.
Não me deu Deus todo o tempo do mundo, nem me impediu de deliciar novas vistas.
O linho branco da saia roda riscas, o ar remoinha-se espiral e o perfume junto.
Sorridente vem.
O Dono, por trás da Registradora, meus pés encharcam-se prisioneiros dos sapatos entre cheiros envelhecidos grudam-se os dedos, o intestino ruida ressôos pelas prateleiras, dois redondos de suor no covo dos braços, vem para mim sorridente vermelho a boca linda, gagueio vago bons-dias perpassado de hálito ruim, da Registradora para trás do Balcão, lento vai, o chão não ruir o assoalho não ranger sob o couro ressequido de meus malpassos, tomei meu banho matinal lembro-me bem mas as ceroulas com certeza não troquei. Ou trocou? Trocou, como todos os dias por dedicação sua mulher não faz menos, e as meias brancas em liga esticadas, perfumado talco, glostorados cabelos nem tanto negros nem tanto gris.
Solícito servidor, o Dono atrás do balcão os grudados quadris, as mãos percorrem abertas da renda à seda, os olhos fecham dentro deles o sorriso vermelho cílios lindos, o enchimento dos ombros os vazios da blusa, escorrem lisos cabelos em pontas de permanentes ondas, o colar de bolas brancas roçando a pinta na curva redonda do seio fonte de perfumes.
Anna, dois enes.
Anna Ennes?
Olhos nos olhos ardem a repentina mútua paixão.
Os botões de madrepérola sob a pressão das unhas esmaltadas deixam ver mais que a pinta permitida, além da curva redondos e perfumados, macios nas mãos os lábios encontram delicados o arfar oferecido da carne feito verbo amar.
A loja fecha para almoço: assim que Anna Ennes a cada dia volta, por benevolência de Deus, pão de minha vida, Aurora Minha com Crepúsculo marcado.
Deu férias para o Balconista, única desde empregado. Três meses consecutivos. Daria outros trimestres, daria muitos mais. Não fosse esse o tempo exíguo que Deus lhe permitiu ser feliz.
E um santuário s´erige na loja profana. De um acanhado quarto até então sem serventia que ser despejo de caixotes de papelão escada quebrada torto balcão desusada escrivaninha registradora antiga, muito mofo e aranhol sem janela e caiado tem uma porta aberta agora para o amor. Entre beijos aos poucos pelos dois retocado, permanece intacto o quarto do desejo como Anna Ennes o deixou, quando se fez crepúsculo certo a inesperada aurora.
Um vaso azul, flores de organdi verde e rosa em arame armado ramilhete. Oferenda para a Senhora da Conceição, a proteger-nos de distraída concepção. Do oratório lamparina derrama vermelhos, pendente do céu de crépon.
Tenda árabe, dos cortes de tecido desfraldados de cima abaixo, entrecruzados de parede a parede amontoam-se qual almofadas sobre o balcão, sedas do rosa ao maravilha, o calor da casimira o frescor do cetim, rendas emolduram de flores os beijos e na pele tatuam asperezas à espera de carinhos, chita chitão e algodoim aparam os líquidos do amor.
Um espelho. Toalha. Bacia. Uma cama patente, rearrumadas molas de rangentes alegrias, de solteiro cabem os dois. O rádio é contraponto, à música sublinha o ranger compassado das molas, cantores fazem duo com o sax, e o cheiro quente da válvula retoca os odores do amor. Mais seria desnecessário, o tamanho é do céu. A eternidade vivida a cada momento, o pêndulo é foice a somar inverso os minutos dos contados Três Meses, prazo fixo pela benevolência de Deus.
Se Anna pouco fala, os olhos em branco e preto a carvão acentuado, expressivos lêem o escuro de minha alma.
Encontros mudos, poesia onde as rimas se beijam o ritmo carícias em métricas desiguais.
Dedicada entende o marido distante os pensamentos colados na guerra dos mundos, de manhã a Luz o encontra entre os canteiros do Jardim a correr que faz bem para o coração, o peito robusto o porte ereto, as maçãs coradas os olhos acesos perdidos entre as árvores, a moral mantida apesar da Crise, ruína dos desavisados.
Sábados sem cinema. Almoços não mais. Chega tarde para o jantar. Dedicado, aguarda-o paciente chá. Só estranha não ter ele perdido o sono, mas Dedicada sabe, a insônia chegará o mais tardar. É assim para um comerciante: não apenas entre trincheiras as baixas ocorrem. A insônia virá; se a insônia não veio já.
A noite que passou acordado foi em Santos. Anna Ennes, voluntária da Cruz Vermelha. Chamam-na os ferimentos de Guerra em Áfricas distantes. Nunca mentiu permanência eterna: eterno só o amor que a você devoto de coração; desde o primeiro dia sabia a data de minha partida em navio americano; e nos primeiros beijos entre lágrimas esse foi o sal de nosso amor. Amor com começo e fim. Intenso e sem promessa. Sem outro crédito além da paixão, nascida e reforçada entre beijos essa paixão encurtou os três meses que pareciam tão longe de um dia chegar.
Deus dá. Deu, tirará.
A dor da partida, o preço a perder de vista.
Descem a Serra e pensa quão difícil seria subir quando outrora não existia o Caminho do Mar.
Cais. Os estivadores, os músculos parados, esperam os Mercantes que não atracam. Nos tempos modernos, a moderna pobreza. Outra cara, na fome a mesma dor. Sorria, mas as lágrimas escorrem perdidas entre a compaixão e a despedida.
Pista de dança ao beiral das ondas.
Anna, à luz do azul mortiço de lâmpadas veladas, para sempre será linda assim, dolorosa despedida.
Pouco falta para a aurora subir em ramilhetes de maravilhas e rosas.
Hálito perfumado de rhum.
Tangos em compasso de adeus. Garçon de pés machucados no bico fino e punho ao peso de copos e garrafas, a cintura ágil nos desvios dos casais a dançar, corações trespassados.
Rosto colado em redondo suor, mãos entrededos enlaçadas.
Amanhece entristecido azul. A luz guilhotina da noite o dia. O coração parte em navio na imensidão do mar, a Serra, quão difícil subir levando no peito a massa negra onde bate a solidão.
Chá.
E muita dedicação.
Aos poucos, retoma e tece o todo-dia nunca mais igual.
Se retornou a alegria e o tilintar do troco, aos sábados fitas de Guerra, e tudo reaparecia entretecido nas malhas do sempre igual, por benevolência de Deus jamais perdeu, Meu Querido, a Firmeza reconquistada, para gosto de Dedicada, o Abusão.
Toma chá.

Arquivo 03 de Conto Romances
Paulino Tarraf
Data 30/09/2007

Sobre a versão de 24/07/2007
Sobre a Versão de 03/06/2006 paulinotarraf
Sobre a Versão de 07/12/2004
Original_12/06/1993

004 Conto Romances

São José, das botas.

Cidade.

Os bairros, a Cidade no centro. Os bairros têm nome, mas pouco indicam os nomes que têm. Dito um de Boa Vista, infere-se de boa vista fora em tempos outros; quiçá?, descortinava beleza de encher os olhos, quando uma colina defronte a outra, separadas pelo Heborá de cristalinas águas, não se entediava na monotonia de casas desgraciosas e quintais descuidados, mas sim paineiras rosas de abril, ipês flutuando ouro, palmeiras de verdes ventarolas.

Um bairro longínquo é pura esplanada poucas casas que não de ousadas amásias manteúdas de abonados senhores. Além de caudaloso rio é Damaceno que se avista em casas modestas e igreja própria. Santa Cruz reivindica o nome de Redentora ser. Mais nada.

Mas é de Cidade apelidado o centro. E por Cidade atende desde quando povoado crescia cidadã e dos sítios vizinhos lá longe se vinham às compras, aos ladridos os cães voam soltos os quero-queros rasantes em barulhento ataque como se guardicães fossem dos pastos separados por porteira, o carril marcado na areia pelas carroças os bois pesados adiante, excitados na vinda galopam os homens no lombo cansado do cavalo voltam sonolentos da pinga.

É Cidade. Já foi selva. Relvas cercam-na, agora.

São córregos os rios caudais d´outrora.

Só dentro dos sonhos de Amandio tanta água em tal fluir, dentro dos rios as pirogas a pendepender dentro delas o bugre rema desconhecido o porvir a sonhar. Nos sonhos de Amandio esse rio obedece o apelido cristão de Piedade deslembrado o verdadeiro nome esvanecido com o derradeiro suspiro por onde a alma pagã do último bugre soltou-se, empós o bacamarte descarregar nele o chumbo da conquista. Vive ainda o Piedade, perdido entre os outros que a custo se arrastam córregos colados nas margens, carregados de detritos.

Boa Vista e Cidade, uma colina olha outra e se de boa vista foram, magica Amandio fossem copadas floridas, ondulantes coqueiros, entrelaçadas trepadeiras nas árvores esguias que se via: separam-nas um córrego Heborá, leito de água e mel. Heborá, pelo nome tapuia, testemunha ter ali existido a alegria dos bugres, deduz Amandio piscando os olhos descolorido azul. Hoje não mais.

Ladeando a colina, no oposto do Heborá, cópia d’aguas era Canela um rio que se chama assim de batismo pelo cheiro talvez pela cor quem sabe o gosto.

E mesopotâmica ela nasceu.

Lera em almanaque do farmacêutico que Heborá significa dizer: Mel cabaú pinga do oco dos troncos, saburá de gosto doce amarelo na cor, não duvidava o bugre ter jataí entre as grossas cascas, se tem urucu se tem guarupu tem mel se tem abelha de tarjas pretas riscado de ouro nas patas cabeça e peito; escorre o mel feito regato nascente para o rio a circundar a colina onde menina crescia a cidade. Nos sonhos de Amandio era caudaloso o rio e hidromel divino em seu cântaro corria, Heborá escansão.

Assim gostava Amandio de falar, sem ninguém para ouvir. Raphael, se não fala de música filosofa. Damiano transforma o que diz Amandio em corretivos morais. Damastor ouve, quem sabe por dó. Apenas Juvenal, tristezas compartidas no porão de muita foto e pouca luz.

Despejam-se vassalos Canela e Heborá num rio maior, que nome não tem tanto é vária a cor se chove muito chamam-no Pardo, Claro em manhãs d’estio a ele se referem, Azul refletido o céu das tardes Verde tinto espelho das matas se dele se enamora um poeta: Preto no mor das vezes, esta sua sina. Saberá Deus? escandescido pelo turbilhão dos peixes rio grande nomeavam-no reverentes os tapuias na inocência de acreditá-lo eterno.

As ruas desembocam nos rios. Os rios no rio grande e, pretos todos, estradas para o mar, navios à espera.

Do lado de lá do rio passatrem.

Do lado de cá passaboiada.

Boiadeira. Terra dura leito de areia. Rua descalça, ela e todas as outras ruas de poeira. Sempre verão, tardes soltas, o melhor da chuva são as ruas viradas em rios que dão pé. Nas testeiras das casas cascatas a despencar, no enxurro da chuva finda navegam barcos de papel. Diques de gravetos e pedras, barragem d´água barrenta.

Logo depois faz sol. Vertido em manga. Astuto Meninico vara vigilância e toma de assalto os quintais de mangueira arcada de ouro adoçado em fruta; ágil trepa pela casca grossa do tronco. Se nos galhos frágeis e altas demais não espera despencarem de maduras, a pedrada apressa a queda. Mangas, amarelas de sol verdes de vez maduras enfim, mangas delícia sem par.

Mas Meninico nunca fora tão longe quanto o impelia curioso percorrer uma rua noutras cruzadas, rios e estradas. Assim, missa na Aparecida da Boa Vista o mais remoto sítio visitado. Do oriente seus pais vieram de trem.

Em casa os filhos são a língua viva da mãe. Os ouvidos, quando para a rua vão, voltam carregados de palavras novas. O complicado do verbo é se fazer conjugar; futuros complicam-se no passado irregular. E pelos quarteirões quadrados de casas esparsas de porta em porta vai pelas mãos da mãe, sabonetes espelhos e pentes ramonas e alfinetes, a vender miúdos e garantir a mesa.

No almoço não falta a coalhada mansa da vaca criada em cercado, azeitonas pretas d’Hespanha, refrescantes pepinos perfumados de verde hortelã, doce alface de mistura ao agre almeirão, vermelhos tomates da horta em quintal não faltam.

Quando não almoça em casa o Pai está nas estradas.

O Pai. Os pés pelo sertão, atalhados plantios cambaleia em pinguelas sendas torcidas na mata a mala nas costas fere a carne dos ombros o couro cru, males de uma viagem sem fim de ofertar de sua mala as miudezas abrandamentos da vida dura do colono italiano que, plantado na terra prometida de um viver melhor, roça sem fim. Solitárias manhãs, tardes de ensolarada indecisão, fecha-se o céu chuvas em anteparos taperas de beira-estrada, abertas nuvens, os pés na lama onde antes areão e pó. Na mala o futuro. A mala, dentro os miúdos, é toda riqueza resumida. Giro para o futuro arruinado: Se molha. Se desbota. Se roubada for.

Se, negror que interrompe o sono, irrompem sonhos pesados de interrogações atiradas na noite de denso horror: Se?:

Minha Terra, que será dos meus!

Meus Pais, que será de mim!

Lá no oriente pesava a lavoura. A mala pesa aqui. Neve ou areia, lá ou aqui, o mesmo futuro deserto e frio.

Terra de meus Filhos, que será de nós!

Nas noites árabes mil e um desencantos, quando não o vergão da guerra os gafanhotos a devorar os sonhos, tão rapinas gafanhotos de enfurecida fome furam o chão e desmiolam as batatas plantio em duro labor, livre o solo das pedras sangrantes unhas, o arado na terra a mulher puxa feito mula o homem empurra feitor, num raio de tempo o inseto coriácea guerra devasta. Aqui, sem o lavor da língua não brilham os oásis na sonhada promissão. Se?

´Lhes, a mala nas costas, estradas sem fim. Dia inteiro sem água de beber, deserto feito pelo medo de nos regatos venenosa ser apesar do prometido frescor entre pedras corredeira, repulsiva nos casebres por infecta da pobreza suja apesar de gentil oferta em pote aberto retida; dias sem comer até s´achegasse nas terras dos Comar, alemães de origem, a limpeza com feição de saúde recupera nele a confiança. Não falassem a língua de minha terra, entendiam ao menos meus sinais: palhas no paiol para dormir, água de filtro em caneca de lata, banana e um pedaço de pão. No paiol espigas de milho, grãos nem tão duros assim.

´Lhes, imigrante do padecer. Lá e aqui, o mesmo aperto na vida, sem fuga apenas troca o lugar da dor do enfrentamento.

Primeiro o mar em navio negroreiro porão onde feito gado de segunda classe convivem na disputa por lugar, alfândega e quarentena na migração, rechaçam-nos olhares oblíquos como se a peste aportassem ratos, o linguajar estranho fere os ouvidos sem tradução; depois a longa subida de trem estrada de ferro a fugir do mar a íngreme serra e se há belezas floridas entre os trilhos e entre escarpadas pedras o azul do céu nas verdes águas era aflito o choro da filha era desmedido o medo da chegada era o negror senhor de suas pálpebras a invadir a alma como se?

O trem chega na estação sem que a viagem chegue ao fim. Baldeação. Mar de gente, perdidos sem saber ler, ouvintes surdos falar sem se fazerem compreender, no vagão sentados resta o desamparo de qual estrada aguarda-os no fim, se fim houver algum.

Os trilhos de ferro agora buscam no planalto o sertão, novidade e terror, se há surpresa na imensa planura onde vales ondulam nuvens ondulam os trilhos nas curvas o apito de ondulados sons, chacoalham os vagões e o trem fumaça, na fumaça faísca, queima a faísca na pele a fumaça arde as narinas; e fede. Minha Terra tão longe meus irmãos e meus pais nas montanhas nevadas entre cedros sagrados, o cansaço e o sono dormido acordado sonha males negrumes sem fim. Se.

´Lhes, o Pai. Quando volta do sertão, é o silêncio dos filhos. Até o caçula se chora, tuge. Engatinha miúdo, os olhos cheios de boiada, berrante e aboio mugidos e pó na rua descalça. Os meninos varam quintais, para longe da corda inquerideira da mala com que podem apanhar impedidos do solto brincar brigar xingar e de alegria gritar.

Dos filhos, um mais destravado. Nasceu de olhos abertos, respirou dos ares a vida oferecida sem chorar, do peito de amor o leite oferecido sem nunca chorar mamou. Jamais apanhou.

Meninico, a cabeça coberta os olhos vão em busca de novos trilhos nas estradas diferentes margens em novos rios nunca se atreveu tão longe, aprendiz de jamais esquecer, nas lembranças somar e mais aprender.

Arbatacho!

Um canivete perdido no chão.

Rabatacho!

Beirando o rio, hoje preto de águas pelo chumbo do céu, o mais longe que foram de casa. Meninico feliz; anônimos assentam os ferros prolongando a estrada de trilhos, e o rio, fendas para o sertão. Meus pais vieram do oriente, de trem.

No chão o canivete aberto para a ferrugem.

Todos os Meninos Vizinhos puseram no canivete os olhos, mas só dois puseram as mãos: Garnisé, o irmão mais velho de Meninico, e um menino qualquer de nome chamado Zinho. O Zinho qualquer dizia que era dele o canivete no chão. O Garnisé não abre a mão. Os dois de quatro, a quatro mãos, pares de olhos às dezenas sobre a rinha do Garnisé e qualquerZinho brigões.

Garnisé, teimoso, não solta a cobiçada prenda.

Larga!

A boca fechada em lábios finos, uns dentinhos, os olhos teimosos as mãos mais.

Larga! Grita o Zinho: Larga, turco rabatacho!

Meninico conhece esse irmão garnisé; apanha mas não pede perdão, perde mas não cede: turro fungando, ele e o canivete um só.

Larga! Larga, roubatacho, turco-preto ladrão!

Meninico conhecendo esse irmão garnisé prepara-se para o pior.

Garnisé, a mão abre do canivete e fecha em soco direto no queixo do Vizinho.

ZinhoQualquer armado de ódio gira o braço e o canivete desce.

Rápido salto, Meninico permeio. O canivete ferrugem vem. Um rasgão na camisa ferido peito sangra Meninico. Mas não há dor que o atalhe. Arranca do Zinho o canivete ferrugem de sangue marcado. Um soco e um chute, soco em cima chute em baixo, um urro ganido. Um calço rasteiro e Zinho vai ao chão; tomba sobre ele o Meninico, o canivete a prumo pronto para matar. Pendepende o canivete suspenso. Arranca-se na carreira o Meninico, o canivete nas mãos, os choros deixados para trás.

A rua desemboca no rio. Dentro jacarés. São deles as couraças fingidos troncos. Cobras, delas os rabos finos simulam-se raízes ribeirinhas. Bocas, não é remoinho de vento n’água a gula aberta do dragão. Franças d’árvores no espelho invertidas, na verdade entes das profundas soltas vastas cabeleiras: eis que o Heborá só é rio amigo dos bugres pelo homem abatidos.

Eu, assassim. Matei o Zinho, a camisa dele manchados de sangue ela e o canivete.

Corre margeando o Heborá, e uma ponte sobre o rio aparecida liga a Boa Vista à Cidade; e ele à liberdade.

Ponte e Cidade desconhecidas. A colina aponta para o céu. As profundas é lugar de assassim. Dor no peito, inchado de sangue o coração, é assim assim que se morre se uma faca fura de fora. Não volto para casa, conheço meu pai e a corda que me castigará pecador.

Meninico apalpa o peito apalpa o rasgo a doer e alivia na alma a dor que desnecessária sente. O sangue na camisa de Zinho é meu sangue vertido do peito que, ferida a carne, dela derramou-se nódoa no derrotado inimigo. Inocente. Não peco, se defensor do irmão. Aguarda-me o céu, campos elísios do guerreiro no colo da Virgem repousar dos combates.

Resta meu pai: é deixar o tempo correr, chego manso e peço perdão paizinho. O Garnisé, esse meu irmão teima e apanha, apanha e teima e agora tanto apanha que sobre ele se atira a mãe para desviar da corda a carne do filho teimoso e sobra para ela a dor do vergão. Não volto já.

No alto da colina a igreja em construção. Encantado Meninico vai.

Anônimos vão em direção à Praça da Matriz para a igreja em construção de orago São José; serventes de pedreiro saídos da roça opilados caminham amarelões, fortes apesar de empambados. descalços brim desbotado remendos de per si rasgados, enxadas nos ombros não vão os Anônimos raspar o capim sequer dos plantios enfrutados proceder colheita mas, amassado barro medido ao prumo, tijolo a tijolo em Catedral erguem a nova igreja. Mais encantado ficou Meninico que encantado veio:

Eis a Cidade, paralelepípedo no leito das ruas ladrilhadas as testeiras das casas niveladas, meada de fios equilibra os postes de luz e as lojas em fila expõem-se comerciais, a buzina passa e o carro se aproxima, o cavalo relincha o burro empaca. Na janela olha a mulher envelhecida. Um pedinte na calçada esmola.

Os tecidos expostos sobre suportes peças de linhos e cortes de casimiras desfraldados porta afora pelo vento, bandeiras do comércio. Em cabide, prego na parede, um guarda-pó e sob a gola lenços coloridos também ao vento saúdam os que pensativos passam. Ringe a polaina, olhos abotoados no peito dos sapatos, o senhor faz tripé na bengala. A senhora passa e o perfume fica. De comistão ao sopro da roupa cheirando nova nas prateleiras fixas. O bafo do caporal que passa fica. De comistão à queima da gasolina deliciosa. Ao ronco do motor o som dos saltos nos ladrilhos, nas pedras trisca a ferradura, vagas vozes no ar s´evolam.

O padre Damiano louva Jesus Cristo. Louvado seja, retribuído por Jaime farmacêutico, que surpreendido fica:

É sangue no rasgão da camisa desse meninico? pergunta agarrando-o pelos ombros, ao tentar fugir.

A farmácia é adocicada bala. De alcaçuz, diz Jaime ao dar-lhe uma dentre as pastilhas, confecção do aprendiz do farmacêutico.

Com aroma de vinícola entra renque pautado de sorriso claro os limpos padres vestidos pretos, allius post allium, seguindo Damiano. A tonsura repete-se brancura em nacarada gola e os dentes perfeita dentadura. Louvado seja Nosso Senhor, barítonas vozes ecoam corais de todas as partes: a farmácia uma nave laica. Iluminada do sol feito estilhaços tais vitrais os vidros variegados dentro cheiros cativos dos eméticos vermífugos emolientes e estípticos sob rótulos manuscritos em gótico antíquo, da janela a catedral pronta-quase é estampa no tempo imóvel.

Ordenados tabuleiros, brancas e pretas tábulas, prontos para o jogo das damas os padres na calorenta manhã. A cada gesto desprende-se o odor de vinho de comistura ao adocicado alcaçuz; destampado o frasco embebe-se o ar do’spírito d’álcool e a mão do farmacêutico em lavabo d’assepsia pronta está para o sacrifício do Meninico. Gritar eu não grito que de nada adianta. Na branca nave o vozerio em rosário de risos clericais levanta-se do chumaço negror de batinas a comerem as damas e no algodão um milagre de transformação d’água em pura rosa espuma oxígenogerada explica Jaime o farmacêutico, a mesma substância a lavar das feridas suas pestilências: isso pacifica a alma do Meninico.

Silêncio.

Graças damos ao Senhor:

Comidas as damas e as serviçais branca ou negra, comprazem-se os padres vestidos pretos, num pós-prândio sonambúlico, em olhar a catedral perfeita, sua torre ainda a meio céu erguida. Pronta será nosso cartão de visita, repetem todos cidadãos. Vista postal da farmácia.

O farmacêutico, pincela mercúrio cromo na ferida do menino. Pronto a levantar polêmica pergunta por que São José orago permanece em nicho lateral quando já pronto o altar mor, por honra, é seu lugar.

Emocionado silêncio, a pouco e pouco preenchido pelas barítonas vozes elevando-se devagar com ridentes comentários que, pronto o altar-mor, ainda assim permanecerá lateral o São José.

Argumenta Jaime: Amargou, a pobre imagem, secular esquecimento em choça de bárbaro bugre no aguardo de a resgatarem cristãos. O luxo de um pedestal, entre luzes fluorescentes flores de corolas lâmpadas de piscar colorido recebendo o resplendor do ostensório ao deixar sagrada a hóstia o recato do sacrário, seria condicente moradia para o Casto Protetor do menino Jesus.

A causa são as botas; sentenciam os padres em curta sermoa.

Já encomendamos uma linda imagem de serena beleza, as vestimentas com bordas ourejadas em grega composta. O das Botas ficará na lateral direita sobre estrado de madeira, qual relíquia antiqua.

Meninico olha o peito, tinta em vermelho a ferida; de relance vê transpassada a face de dor do farmacêutico, que apela indagativo e indignado:

Pelas botas!.

Não só. O todo merece reparos. Entoam coro coral os curas: em privado concílio decidimos, e decidido está: outra imagem ocupará o nicho mor, o das botas o lateral.

A ferida esquecida, o farmacêutico empunha parada no ar pinça feito lança na ponta chumaço vermelho de onde o mercúrio a prestes gotejar:

As botas, protetoras da cidade!; profere a boca pecada qual fruto seco, imbecil beiço em queda quase-cuspo chupado de volta, o céptico farmacêutico, a gota do mercúrio cai não cai.

Botas nada protegem, atalha padre Damiano, corifeu entre os coreutas. Erudito prossegue: são as botas um arranjo popular, gosto barroco de medievos artesãos. Se não vejamos:

Túnica curta, roupagem de carpinteiro, era esse o santo José da Idade Média, bastão recurvo no severo Gótico que se alindou de flores no Renascimento. Na fuga para o Egito trajos de viajor sobressaindo-se capa turbante esvoaçada ao vento ou chapéu de abas largas caídas em sombreado semblante, filho da preocupação. Botas, nunca.

Outrossim outros santos:

São Matias substitui Judas como discípulo de Jesus; vestido qual demais discípulos de pálio e túnica suas imagens se vestem. Nele difere pender de seu pescoço corda de enforcado, suplício de mártir que por vezes carrega nas mãos. Mas a partir de séculos dez e anos quinhentos mais, a Matias santo troca-se a corda por uma lança quando não por um cutelo. Nem nos protege a corda, nem lança ou cutelo protegem ninguém; sendo sim essas armas gosto do artesão. Nada implicativo com Matias.

Corifeu recita padre Damiano o nome de santos outros. Coristas os demais nomeiam, em responso, vestes adornos atributos, cada qual em diferentes alturas de som a duas vozes ou três por vez em cantochão à maneira de ladainha. Jaime farmacêutico escuta; da pinça o mercúrio goteja sanguíneo no ladrilho branco da farmácia feito capela:

São Benedito, franciscano siciliano filho d’escravos africanos, é marron o hábito, branco o cíngulo e, se flores na esquerda o artesão esculpe no lugar da cruz então será Benedito Santo das Flores a poesia que no altar veneramos nós.

Sanctus Benedictus, pai dos padres bentos, cruz peitoral sobre a cogula, u’a mão lança bendição d´outra pende o báculo abacial e, quer imberbe quer barba traga na face por variação, diversifica também o popular artífice esculpir junto dele um cálice com serpente entrelaçada ou um corvo prendendo pedaço de pão no bico calado. Atributos do Silêncio, Regra da Ordem, nada a ver com proteção.

Santo Elesbão, rei etíope. Significa Abençoado seu nome Elesbão no pais da Etiópia. Convertido, além de igrejas tantas em seu reino levantar, a Jerusalém envia sua Coroa embrechada de pedras variadas na espécie inúmeras cores elevado valor: eis porquê numa das mãos é uma igreja o atributo de freqüência maior em suas imagens. Rei sem coroa, exposta a tonsura circular.

Santa Bárbara, senhora dos raios, no batuque confundidos fanatismo e religião abstida fica a Igreja de manifestar-se. Mas a palma nas mãos, não é a palma e sim a santa quem dos raios nos livra da electrificação.

São Miguel, um demônio aos pés sujigado ou pesando das almas sua sujidade. Estátua ou estampa, nelas assim se configura: lança ou balança nas mãos, é a preciosidade do artesão quem dita. O Santo Núncio, anjo que é, as asas diferenciam-no de São Jorge, romanos os dois nas vestes guerreiras e São Jorge eqüinomontado, que tem a ver o cavalo com a Fé? Quem nos protege, São José ou as botas?

Grave pontifica Damiano: Vida de santo e santa paz em vida não se conjugam como caminho para Deus. Ensinam-nos os beatíficos que, para a felicidade perfeita no eterno, somente a dor é seguro guia.

Uma pincelada desatenta desenha no peito do Meninico uma chaga aberta a escorrer mercúrio que, enfático barroco, berra nas cores o martírio.

Coristas, os padres sopesam: nos sertões do tempo, época de intensa barbárie vem o conquistador, no seu comércio beduíno de bando armado com ferocidade mamaruca, pondo mataria abaixo sob calcar das botas, aos vencidos se prisioneiros não escravizam matam: o mamaruco sangue híbrido carrega n´alma ferocidades somadas.

Corifeu, Damiano pondera: e o bugre recém convertido, ou aceita o baptismo como penhor da Fé ou é lupina ira revestida de pele cordial a subverter com subtilezas os valores da superbíssima Madre amada Igreja.

E grave Damiano monodia, intercalados apartes dos outros padres, confirmando em baixo contínuo:

Além das botas, as feições. O artesão, que de São José talhou a imagem, talvez fosse um recém convertido bugre.

E o São José não só calça botas, atributo do conquistador, como marca o artesão o próprio rosto no ocre da pele nos malares pontudos na testa corcova no cabelo grosso lisa barba rala as origens de conquistado.

Corifeu e coristas: São José das Botas, misto de vencedor e vencido.

Corifeu: Merece o altar-mor, à altura da Cidade de civilização em grau elevado, merece a Cidade um São José de finas feições talhado, amarelo pálio de gregas pregas ombreando túnica em roxo desmaiado, e nas mãos o lírio da castidade nos braços o Menino filho seu por Santo Espírito gerado, ondulados cachos cabelo e barba, paternal sobriedade.

Ao São José das Botas, o museu de um altar ao lado.

Damos graças.

Quero ser aprendiz de farmácia. Se.

Apenas doeu a injeção. Meninico volta para casa, o irmão já terá apanhado, o pai mais calmo, se!

Atravessa o Heborá. As mãos nas traves da ponte. A seus pés corre a rabeira do tempo feito águas do rio. Não há trem para a coragem dos homens. A pé na mata intrincada de clareiras falsas em sonhos escuros, a coragem empurra os homens para dentro do horror. No Heborá mães brincavam com seus filhinhos, desatentas ao perigo do iminente ataque. Sem piedade. Pólvora contra curabi, a frechervada.

Resta um rio onde despejam os afluentes suas águas variegadas, se chove muito Pardo, Claro em manhãs d’estio, Azul refletido o céu das tardes, Verde tinto espelho das matas, Preto no mor das vezes, Rio Vermelho agora pelo cruor derramado; e numa choça recém talhado resta um São José, testemunha dos sonhos comidos pelo Negror da Noite, onde aguarda envergonhado o museu de amanhã. Se.

Depressa meu filho, a mãe ainda não preocupada, toma banho, troca a roupa, calça as botas. Você vai com seu pai, às compras, na Capital.

A mão acarinha a chaga:

Você menino de valor, disse a mãe, você meus olhos.

O trem rumo ao oriente.

Rápida a paisagem solta-se.

Versão de 04/07/2009

sobre Versão de 17/08/2007

do original de 01/06/1999

Arquivo número 004 de Conto Romances


Conto Romances Arquivo 05

Olhos nas Penas

Os pés, lamelares imbricam-se répteis escamas amarelas feito ouro opaco guardadas por espora córnea penetrante para horrendo corte, vacilam passos suposto donaire, lenta cautela é oval o corpo empenado, e majestosa a cauda abertas plumas de muitos olhos vigilantes da inveja que o vistoso de seu porte pavão engendrará. Tiara repete da cauda o ornato. Solene vira-se de novo em círculo passeia a formosura pelo quintal.
Triste tarde de Domingo.
Raphael de nascença sensível. Pretendia Joanna dos Anjos, sua mãe, batizá-lo Rivail ou Denizard, Álvaro quiçá imposto pelo claro da pele, Raphael nome archanjo ficou. Contempla a beleza pavão passageira: solene formosura altivo alternar dos passos, repente se vira, e o leque de olhos passeia, falsa indiferença, pelo arroubo que na cena aberto causa.
Alberga-se Raphael da calma vesperal sob caramanchel de madressilvas, as sombras ao balanceio da brisa. Assovio fininho alinha em colcheias o Capriccio Italiano nota por nota. Inexistentes senhos amores. Cai o seu desemparceirado amor no vão dessa triste domingueira.
Raphael, ourado Álvaro, sensível Rivail, escuta. O som sutil gemer e sorver, o jabuticabal suscita e Raphael quase Denizard escuta; a mais ninguém fere o som do pomar fluente.
As famílias, tantas, em busca da paz do recanto por eles devorada. Ruidosa molecada. Desordenada falação.
As jabuticabeiras, centenas delas crespas de vesículas pretas seivassugas a sorver sem parar os troncos gemidos de dor abafados pelos gritos dos moleques índios soltos na pradaria do quintal, em guerra machadinha de graveto na mão galopadas em pêlo de cavalos de pau, contra eles mocinhos valerosos cavaleiros, revólveres espoucam balas sem fim nem som feito cinematographia, bando tormento nas mães cuidosas de se não machucarem os filhos andam à roda aflitas, tumefacto pescoço estendido feito peru a gorgulhar vermelhidões. Raphael aguça o espírito. Afina cordas n’alma em busca do ulular transido de aléns: das bocas o chuchurreio sem parar o tronco a gemer.
: Aqui.
Entra a família.
: Aqui; disse a Mãe aos filhos.
O Pai vem lentos passos, afastado como a sonhar. Ao lado dele o filho dito teimoso garnisé distraído e o outro filho Meninico, mal chega, fixo olhar nos olhos emparelhados do Pavão na cauda e uma pena promete soltar-se.
: Aqui, a chacra dos Bertazzos; diz a Mãe rindo-se do que em árabe chacra pomar não quer dizer. Voz cristalina, dela as luzes se não entende o que diz é poesia o som. O bebê caçula ao colo, a mais velha com a irmã menor, de lado atarracada na cintura.
Não escapa de Raphael aura de evidente bravura iridescente na mulher que chega. Triste tarde de Domingo, na chácara Raphael à sombra das madressilvas, de frente ao jabuticabal, o pavão de alegres penas, contempla Raphael nas famílias que chegam a própria solidão.
Os Domingos, nas folhinhas marcados números em vermelho, domingos dos passeios depois do almoço de macarrão e carne, alface repolho e hortelã na salada de pão azeite e vinagre, o domingo é dia inteiro de vermelha alegria: rumo à chacra dos Bertazzos. Terão muito de andar, acostumados embora.
Trancou a porta? Mil trancas houvesse.
Sumidos da vista na virada da rua descida. Ninguém olha para trás.
Às caladas uma mulher. Posta-se frente à casa. Nada podem trancas de madeira contra a maldade. A mão levantada contra o céu reza maldições. Lança em cruz desbenedita terrorões de solos mortos sobre o telhado, portas e laterais. Um punhado do chão aos céus, pelas abominações. Da esquerda para a direita, pelas tinhas e podridões. Amém sobre a porta, clama miséria por gerações. Retira-se, a casa trancada. De hoje a sete dias aguardará calada.
O Pai na frente os outros atrás, chapéu na cabeça o sol por nuvem negra em cruz reversa coberto, descem até findar a Boiadeira, atravessa o rio ponte quase pinguela de muitos troncos e varetas amarradas de corda, muito mato ao derredor. Onde quem sabe a guabiroba é mais perto que as jabuticabas, de graça, apanho no pé e dou para todos teima o Garnizé. Anda moleque, a voz tremenda do Pai. Um tapa armado perde-se no ar.
Em corredeira mansa o rio, preto fluir, já fluiu verdes águas, pardo, claro azul.
Safanão certeiro em Teimoso por chacoalhar-se na pinguela e Meninico a salvo de apanhar, apesar de autor da brincadeira, mantida a prudente distância como sempre escapa dos tapas da corda do castigo.
Além da Adamasceno, colina gêmea da Boa Vista, subida inteira é a longe chácara das maduras jabuticabas, os donos Bertazzos são ricos de dinheiro embaixo dos colchões.
Na subida o Pai na frente, a Mãe logo atrás. Apressa o filho distraído. Teimoso ficaria por ali no mato enfiado à cata de guabiroba, não importa se azedas chupar quantas queira no pé.
Ninguém olha para trás. Da subida vê-se a torre da Catedral, na Cidade, tijolo a tijolo buscar o céu.
: Aqui, chegamos; diz a Mãe, o melhor vestido preto de sair, tinha bordado em folha de uva de vinho colorida, as miçangas brilhantes sobre o colo que há mais de anos cinco amamenta sem parar, filho filhos após.
Aura notável, não se cansa Raphael de bendizer. Os olhos dela passeiam maravilhados pela multidão de gentes a falar, todos ao mesmo tempo, a língua que mal compreende. Dá ao caçula o peito retirado debaixo da folha de uva com a experiente mão.
Os Bertazzos quando podem comem a própria carne, as unhas ao menos, pensa Raphael demorar esta chácara longínqua à caridade: Jabuticabas só em canecas, sem permissão de catar no pé; insistência é teima burra, não adianta tentar.
A filha mais velha, seu nome Querida, na fila canecas na mão descansa as costas de carregar a irmã menor, começando andar.
As confinadas jabuticabeiras, arame rico em farpas sem vãos. Jabuticabas, a família Bertazzo vende! murchem nos pés para alegria dos pássaros, apodreçam no chão para tristezas dos pobres: nem comem: nem dão.
Pretas brilham no tronco, se frutas para uns, martirizantes seivassugas sussurros de dor feridos n’alma de Raphael; as folhas ao vento sinfonia universal.
Meninico, onde vai o Pavão e a pena quase a soltar-se enamorado olho, lento caminha ele atrás. E atrás segue polícia um dos Bertazzos, velho andrajo vestido disfarça andar. Cada pena vale fortuna, na contabilidade da penúria renovo da usura. Pensa Raphael.
Sentada à sombra do caramanchel de madressilvas perfumado, a Mãe dá-se à boca rósea do filho menor. Tenta e Raphael não entende a longa explicação:
Vieram de longe, M’lhes e M’lia nossos nomes, viemos do além mar de navio, de trem subiram a serra e da Capital muitas horas a mais viajores, M’lhes mascate as malas nas costas meses pelas roças, quando escasso o dinar vendo bugigangas de porta em porta para o comer do dia-a-dia. Raphael interessa-se em comprar.
Arame farpas alfinetam brilhos ao sol e a cerca, e nela Prohibido Passar veta a delícia de arrancar do pé a jabuticaba preta. Lamentam Meninico e Garnisé dito teimoso e distraído, para quem delícias são as guabirobas azedas doces veludos carícias no céu da boca ao estalo da casca.
Quieto Meninico estuda na cerca uma fenda por onde o paraíso inicia seu chão. Mas contrasta a cerca sólido tapigo, com a casa tapera desabrigo. Demorada em sovinice construída. A miséria reforma rachaduras com amarradas de arame em estacas apoiadas paredes, telhado cobertos por retalhos de zinco e lata reinam os vãos, as janelas onde vidros agora papelão, a porta tábuas remendam tábuas, dentro quem viu enojou-se dos catres palha sobre estrado ensebados lençóis outrora vestidos e camisas alinhavados, bambos caixotes mesa ou cadeiras conforme convém, almoço sobra para o jantar em latão feito prato ou caneca, o cheiro condiz percevejos e as galinhas soltas pela sala além das lêndeas piolhos e o solo em chão batido por ali defecam cães urinam gatos. Rebrilha renovada cerca ao sol, no portão é fresca a tinta onde aguarde em fila escreve a sanha dos Bertazzos para quem usura precede usar.
Meninico não desiste, um olho na cerca outro no Pavão; nele meninico grudados os velhos olhos bertazzos andrajos vestidos. E Meninico doce, pensa alto que um pequeno puxão ajuda a cair o que a natureza vai daqui a pouco derrubar. Moleque, nem pensar; esfarrapada e rouca sentencia Velha Voz: se você arranca a pluma do Pavão ele morre de penar. Quando de uma se desfaz é que nova pronta já desponta como o definitivo ao dente de leite ocupa o lugar.
Então espero cair, de pronto pensa e cala o Meninico, pois já sabe que dessa Rouca Voz apenas senões há por vir.
Num quérulo sibilam as folhas das jabuticabeiras. Só Raphael escuta, e aura suave por elas não perpassa, antes circunda-as e alta veste as franças do arvoredo maior de ouro fluido rubi pó de prata e minutas vibrações assoviam de volta o Capriccio. Jabuticabal ninho da usura. Dizem dele esconder no antro de seu putrefeito solo em arca de flandres o dinheiro alimentado da miséria dos Bertazzos. E com o quérulo desprende-se saturno miasma resíduo das lágrimas que dos troncos deslizam, e maceradas no chão molhado as frutas rompidas cascas nos pisões são olhos que de dentro saltam.
Alheio vozerio. Dos moços em namorisco as moças rubejas, ronda o amor de sinais trocados rápido piscar lábios mordiscados e dedos mal se tocam consentidos. Disfarça Raphael o solitário coração a escutar das folhas o murmurejo gaio não fosse o baixo contínuo flente dos espoliados troncos: val lacrimal.
Alguém, à victrola manivela, amante da música faz descer das nuvens novos sons e anjos negros sopram trombetas convites para os braços aos céus elevarem-se em profana prece, clarins sinuosos serpenteiam cinturas e os tambores continuam-se nos pés, em tuti a orquestra ataca sincopado para o mundo bailar o jazz.
Névoa de pó na estrada rósea, reluzente carro a céu aberto a buzina solta os gritos de alegria, e lindas moças frágeis melindres, descem os joelhos à mostra, e numa delas a blusa cobre reta os seios delicadas saliências entre elas o colar falsas pérolas é jóia verdadeira a balouçar:
Olga.
Cessam os sons. Que: as crianças que até agora brincavam a cabra cega, brincam ainda. As bocas melindrosas abrem-se para sorriso de riso nenhum. Sem ruídos no cascalho arranhado das botinas. Os meninos, em doida cavalaria, seus revólveres soltam fumaça muda de tiros; e tombam os índios silenciosa morte para horror das mães as camisas sujas e os lábios movem veemente repreensão como os gestos o cenho de carregada ira cessados sons; para Raphael porquê:
Olga.
Scenacinema. Paralisados atos. Na tela da tarde, somente ela, calorosa, move-se estrela vespertina.
Olga.
Abre-se o riso, brilho e aragem, acena delicada mão. Perfumada boca. Reveste a pele finíssimo vapor. Talvez dela se desprendesse a aura, que linda nas árvores mais altas iluminadas cores sussurra para Raphael ser Olga casta carne alma espelho da sua, sendas solidões.
Gaios rapazes três, solícitos palheta na mão acorrem à sua chegada, e prontos para a corte esmerado servir doces sorrisos, nada falte à beleza que chega, mas o Pavão!
Meninico aguarda o presente do Paraíso em Plumas, mil olhos em multicor aberto leque. E os olhos das penas devolvem iridescentes os olhares maravilhados das gentes. Bertazzo de guarda. Airoso move-se avis rara na passadeira do fascínio.
: Ave da Fortuna; Olga encantada ouve Raphael. Aprendiz de alfaiate logo terá oficina própria; pois macchina das mais modernas que o século produziu, já tem. Fortuna é futuro construído de boas ações.
: Pavão de remoto oriente o uiramembi de mato grosso é pavó longínqua cópia.
Brilha esverdeado capuz feito saio a cair penugem pescoço abaixo. Nuança violeta. Laivos pretos. Lento move coroada cabeça a penugem feito saio leve roda: íris em arco acaricia a vista. Meninico no compasso de seu cadenciado andar. Vigilante Bertazzo vê sua propriedade ameaçada.
: Useiros e vezeiros da usura, diz Raphael.
A velha Bertazzo guardiã da cerca. Compradores em fila. Os filhos dela vão e voltam do jabuticabal, canecas cheias canecas vazias, os dedos ressequidos da velha conferem os tostões, soltos na caneca um por um a tilintar, a fala do ouro calmo som aninhado nas cavernas do ouvido.
Diz Raphael. Olga encantada: Jabuticabas a canecas, contadas cinqüentas ou quantas caibam sem chorar pelas bordas. Bertazzo pai Bertazzo mãe, Bertazzo um filho duas filhas Bertazzo. Paridos na mesma penúria. Vestidos em trapo com trapos remendados. Velho e velha entre si alinhavados os filhos envilecidos. Sua alma sua palma. Encarquilhada pele, pálpebras abertas de esgares vígeis, os lábios contam recontam passam perpassam a mealha de tostões, moedas desgrudadas por infindas matemáticas mussitadas. Ricos, tanto guardam quanto nada têm. A miséria vivida. Padecem esquecidos da fortuna. Pagas de passadas vidas. Enterrados seus ouros em cavos fundos no pomar úmido das lágrimas dos espoliados, são os troncos ossos que do solo afloram, braços feito galhos que aos céus erguidos por justiça inda hoje passadas vidas o sumo de suas almas preenchem os tostões, doce mel aprisionado em coriácea casca.
Mordida escorre sumo de mole frialdade; Olga retira-a rápida da boca e da fenda um olho esvaziado exibe indecisa pupila. Vai ao chão, pavimentado de folhas, companhia de muitas outras cascas rompidas.
Sobre esse tapete desfila o Pavão. Meninico imita gracioso o passo’a'passo. Acena-lhe a pena prestes a dar-se.
Olga espanta-se num quase-grito: Horrendos pés.
O Pavão, perfurados olhos, suas unhas bebem-se nos humores hialinos.
: Envergonha-se o pavão à morte, dono de tanta beleza construída sobre aleijão; deliciado discorre Raphael, Olga num trejeito de nojo estudado, escuta: Um monumento faz jus a uma base larga e sólida. Assim, se lhe deve Deus os pés, em seu lugar esculpiu uma base de pedras incultas.
É pavão estátua viva da própria beleza em pedestal feito garras.
Olga ri, e gira ao som do cascalhar. Giram juntos os falsos brilhos tantas voltas seu colar ciranda de pérolas desconhecidas do mar. Seguem seus meneios passos de valsa; não os cabelos curtos como no cinema em ondas marcados; não a saia do vestido justo como no cinema usam-no chinês abertos, para o escândalo, de lado; apenas os pés em valsar passeado delicados sapatos de salto em vidro Olga solta no ar.
Para o pavão é próprio ser agradável de ouvir o canto de quem belas plumas são colírios, diz Raphael e Olga fita o Pavão movimentos lentos. Fascínio a caminhar sobre pedestal ele vem glissando olhos. Ensaia corrida e corre e vôo baixo pousa-o solene divo em tronco de cortiça dourada contínuo de gorovinhas a subir até penugens prenúncio da beleza qu’estendida em arcos sucessivos tem na mata e horizontes por limite o céu em celagem monumental: abre o bico e o encanto se desfaz.
Bruto canto, rudo poema é estrídulo grito, malho em bigorna desafinado apito, risco de prego em granito. Fere tímpanos rasga semblantes té então extasiados em pedaços de caraças e facetados cenhos.
Ele não sabe que desagrada? indaga Olga, unhas cintilantes a premir as têmporas, franjas em arabescos na testa sem franzir, a boca escuro bâton como nas telas estrelas arfam desejos ela estala ui em bico.
Não, prossegue Raphael professoral: ele fecha os olhos para melhor encantar-se de que Deus a ele nada fez faltar; e não vê o nojo nas caras ouvintes estampado.
Olga de novo ri-se.
A seu riso retribui um sorriso a Mãe a fitar Querida na fila de canecas, cinco filhos não me queixo, diz ouvindo o canto do pavão.
Findo o canto, um choro de dor e susto. Aprendendo a andar, curiosa do mundo, a filha mais nova aproxima-se do fogo que entre pedras água s’aferventa em bolhas, e sobre seus pés derrama-se fervura.
Grita horrendo o Pavão, e salto brusco finca os dedos num tronco: é o susto que lhe desdobra a cauda. De pavor arvoredo recua um passo atrás.
Do alto reversa cruz de negra nuvem ao azul esfuma.
Não mais se desprende aura leve brisa do cimo das árvores copadas, sim desinquieta ventania; e ao grito do Pavão continua-se o choro a custo do caçula. Em sobressalto a Mãe Aflita guarda o peito sob a parra. Assopra do filho a boca, úmida e rosa da mamada, agora um filete de azulado afogamento afina os lábios. Cessa a pieira mas resta choramingo enjoado. Não é mais o mesmo filho, pressente a Mãe, confirma sensitivo Raphael, malfeitoria a revelar-se no arvoredo revolto, no odor pútrido do solo alevantado, nas jabuticabas esbulhadas de seus sucos eviscerados olhos rompida casca brilham as iniqüidades; e o Pavão recolhe as penas num chumaço protetor por saber-se fraco frente a tanta ira deflagrada.
Dá pé-de-vento. O chapéu no remoinho.
Coça-se o Pai, primeiro nos braços, esfoliam pele ressequida as desobedientes unhas, estrias sanguinas rasteiros caminhos do desepero, e pênfigos levantam-se bolhosos para rebentados soltarem viscosa molha. Tudo no silêncio cochichado de perguntar à Mãe, meu Deus M’hlia, que será de mim? Um inseto talvez, M’lhes, abelha do mato selvagem ferrão, cura com álcool e logo passa.
Não sabe a Mãe a que acudir: no menor desfigurado o choro, no Pai dolorido a vermelhidão coçeira dos braços atinge o pescoço e levantam-se furúnculos, na menina menor as queimaduras. Raphael presencia com horror a ruína na aura da Mãe as cores antes nítidas geometrias império de borrões, enxame de abomináveis da soledade advindos, malfeito invocado, a crespa do mal pelo vento soprada terra de cemitério e o Pai a crosta pele em arranhões, choraminga o caçula pressentem Raphael e a Mãe, a família não mais a mesma.
Olga, sua calma minha alma, gêmea encarnação de meus anseios.
Do jabuticabal agora pântano lodoso arrebentam-se bolhas trazidas das profundas os vapores fétidos dos que se recusaram invejosos deixar para os vivos as delícias de ter na boca o mel acetinado que Meninico procura, olho na pena da fortuna olho na cerca da fartura a fenda por onde seu corpo de menino cabe entrar. Ao meninico não afeta o miasma asfixia de todos. Corre alegre comunicar ao mais velho a descoberta do tesouro:
Zégarnisé; sussurra, a cerca não é só arame. Mais abaixo hibiscos fazem cerca viva. Para além da bela-emília. Vamos lá.
Zé cuidadoso do irmão não sabe precedê-lo a teimosia por fama. Hoje como nunca sua pele a dor irá sentir, surra de corda para aprender, pagará ,
: Você não, que é muito meninico. Se não houver perigo venho buscar você.
E foi, antes devagar saiu cuidadoso, mais distraído menos teimoso, e maravilhado entre as jabuticabas pretas pavonáceas de bugalhos sacados a sonhada guabirobas no pé verdes ao ponto fez valer a surra de corda à noite cada vergão o veludo no palatável; deixou-se ficar.
: Vamos embora; entrecortada voz diz a Mãe. Reúne todos e sumido garnisé: Joseph! chama o teimoso; mas ninguém sabe que onde ele está é um pomar de delícias a prendê-lo distraído sempre um pouco mais.
Alvoroço na chacra. Todos colocam-se em busca, a chamar. Os Bertazzos, apreensivos que afundado no pomar, incalculável prejuízo, quebram a vigilância da cerca e das penas. E assim, invade o povo a passagem prohibida para alegria maior das almas sofridas garante Raphael, as jabuticabeiras aliviadas de suas seivassugas incitam por aveludadas doçuras fiquem todos sempre um pouco mais.
Coração partido a Mãe quer de volta o filho. O Pai promete, na volta, corda no lombo sentida.
Esquecidos, o Pavão e Meninico entendem-se à maravilha. Num giro de graciosa precisão exibe-se só para ele em belíssimo nunca visto, uma pena destacada da outra rejunta-se em farfalhar de seda, um canto único de afinada carícia e tátil melodia. Solta-se um pena, e ao som cadenciado das plumas flutua fortuna aos pés descalços de Meninico agradecido:
— Para mim?

Arquivo 05 de Conto Romances

Paulino Tarraf
Versão de 30/10/2007 sobre a versão de 04/08/2007 sobre
a versão de 07/07/2004 sobre versão de 02/01/2003

Conto Romances Arquivo 006

BebeDaniels renomeado Macho e Fêmea Deus os Criou

Cinema São José. Baixos da Boa Vista. Deserto agora nada faz seu vazio crer do amontoado de gentes à noite.

Final da manhã. Uma menina, de volta da escola, soletra dos cartazes as chamadas para os filmes. Um senhor com encontro marcado assobia.

Raphael aprendiz de alfaiate, ainda, bigode curto da moda. A mãe, Joanna dos Anjos, queria seu nome chamado Álvaro, tanto branca a pele, mas lindo que era de cabelos em cachos Raphael, qual archanjo, em registro de cartório firmou-se. Sibilo em desafino.

Assobia-cantábile o Capricho Italiano; Peixoto virá, espera. Andante com passo em retardo por entre os suportes dos cartazes distrai-se com as scenas paradas, posturas dos astros.

De viés a menina admira o bico armado para o silvo e as bochechas que inflam e desinflam no glissar da melodia. Anda e para no compasso dele.

Pausa os passos frente a cada cartaz e o melódico Capricho, intenso a cada avanço, muda em sincopados diversos conforme seja drama comédia ou ação o gênero anunciado; a menina acompanha vivace as modulações, os olhos comprovam-na divertida

Da algibeira retira benigno bexiga murcha, sopra forte e o vermelho brilhante surpresa a menina. Oferece ele, recusa ela, de pronto dois passos atrás: a mãe alertara contra presentes de estranhos, o Morcego quando sanguessuga finge soprar; o corvo é bom de bico. Querida é o nome da menina, na língua da mãe é azize Querida.

Para encontro marcado, Raphael no vestíbulo Peixoto no porão, urge desça Raphael suba Peixoto. Raphael paciente espera. O esperado Peixoto, distraído das horas, trabalha compenetrado.

Tela qual branca vela oculta no veludo vinho da cortina. Ao lado da tela um piano mudo, sem partitura na estante. O porão embaixo.

Prohibida entrada de estranhos e do sol, vedada luz, a réstia é amarela mortiça lâmpada em quarenta incandescentes velas.

Peixoto regala-se no prazer de sua vida. Uma prancha de feltro, a página em branco de seu engenho e arte. O cartaz do filme: Constela sobre ele, sorrisos abertos escorridas lágrimas fechados cenhos iluminadas faces gestos carregados aconchegados abraços, photos ao acaso. Scenas mudas de bocas próximas em quase-beijo olhos em sombras destacados. Mundéu de astros e estrelas da tela. Com gosto geométrico Peixoto rearranja as scenas como se ordenasse o caos em firmamento: pregadas com tachas de latão ourado sobre fundo vinháceo, cordões trançados dão limite de tela ao espaço, estrelas de muitas pontas escrito Ação Drama Romance derramados caracteres, brilhos de lentejoulas por borrifos esparsos, em letras graúdas pomposas cores Breve Luxuosa Estréia: confecção dos cartazes é o ofício a cada manhã reiterado prazer de passar primeiro por suas mãos a próxima atração.

Estalidos.

Aqui, no vizinho, pelas casas dos bairros o som do rádio une a cidade. Donas de casa sonolentas, domésticas a varrer as folhas desprezadas, balconistas de camisa branca cabelo oleado, todos ouvem o tango nasalado em meio aos chiados arrancos do acordeón. Peixoto pára o trabalho e sonha, lacrimoso, de olho na parede, sua tela particular: a parede céu de estrelas:

Divas.

brilham firmemente.

Entre elas, a Grandiva.

Suspiroso Peixoto, suave paixão. No céu das deusas de infinito fundo, fixara de pérolas vestida a Grandiva, ela pérola especial, a boca preto coração encena beijo num sopro frexa, ombro redondo apoio do queixo querubim.

Nas ondas curtas radiofônicas a cantante implora argentina ao amado confesse o amor escondido. Dimealoído; guardarei segredo, telojuroporti, entre estalidos.

Peixoto no melhor da sua comedida vida, pudesse a manhã no eterno mergulhar-se, os passamanes nos dedos cuidosos contornam os astros, Peixoto busca adivinhar das poses congeladas as scenas de sonho, adivinhar do imóvel das photos do filme o roteiro dos movimentos e, divertido travesso, traça na prancha nova ordem de inversa seqüência. Meticulosamente.

A cantante cala-se; e o locutor em voz grave e melodiosa ondulação emite da rádio potência e prefixo: caros ouvintes, anunciamos nossa próxima audição.

Pronta a prancha por Peixoto soerguido estandarte, carga frágil qual delicado cristal em suas mãos feito adeso fido a conduzir andor, caminha os passos de suspeitoso tigre no sobreaviso de caçador, do porão à platéia uma escada subida, à sala de espera em seguida, em suporte de cimo redondo colunas de pesadas bases incrusta-a feito jóia rara lapidada, passos dois afasta-se a mirar o encanto final: artista à minha maneira na minha matéria sou. Não vê Raphael.

A Menina, aprendendo a ler:

Macho&Fêmea.

Fatal. Felino.

E no cartaz, o que vê, não precisa ler: os olhos do tigre nos olhos da mulher é verde no verde no preto da photo, colunas babilônicas estátuas de assurbanipales montado em pedra papelão o gigantesco scenário, odaliscas aos pés do pharaó entre as longas onduladas barbas a boca ordena silêncios de ouro.

Raphael, molto expressivo eleva a língua ao palato:  Senhor Juvenal Peixoto, almejo ter sido pontual; educado saúda e na cadência estende a palma da mão.

Peixoto, arrancado do êxtase de artista contemplar-se, estende a sua:

A quem devo? inquire surpreso.

O pianista sou, Raphael seu criado. Para o fundo musical.

Ah! Sim! diz ele surpreeendido e contente:

necessito quem ao piano alterne sons musicais segundo diferentes emoções enquanto a scena muda na tela: sublinhe marcados dramas leves risos, suspense de ação, por exemplo

aqui!; com o dedo aponta a photo do cartaz, aqui no salão do navio os pares dançam antes da tempestade e a musica fala do enlevo social e sutil prenuncia o trágico; aqui o vento torpedeia a nau e requer do músico melodie acordes fortes em clima de febril dissonância com moderna influência atonal; aqui no cartaz maior desfalecida a Actriz nos braços do Actor protetor prenuncia um drama musical de românticas inflexões; infindo mar encarneirado no limite a ilha serena harmonia apaziguados ânimos. Náufragos, cicia Peixoto.

Náufragos, pensa a menina, preciso ensinar à minha mãe o que náufrago quer dizer; minha mãe que veio do mar, em vapor de terceira classe, e no mar o vapor não se afundou. Veio depois no embalo do trem noite inteira e meio dia corajosa sem saber onde chegar e, aqui cada vez mais longe do mar, chegou, sem parar de trabalhar.

Em boa hora se apresenta o senhor, correto e pontual; estou no momento sem partitura musical nem músico, desregrado sucumbiu da thysica o antigo pianista, curta vida levada em bebida e mulher.

Na vida somos passageiros todos ao soprar dos sobreventos, o corpo mera carga de tribulações: Grave e lento acrescenta Raphael: a morte é porto de embarque para nova carga novos portos rumo à purificada luz, além:

Sim, sou espiritualista kardecista afirma Raphael encarnado olhar.

Titubeia Peixoto frente ao testemunho de Rapahel candidato a músico. Católico praticante do seminário egresso por arder na carne tentadora paixão, Juvenal Peixoto muda a conversa e demora os pensamentos em submersa dúvida entre ter mudo piano cinema sem som e contratar espírita: teme! de um lado o padre e de outro o patrão. Se Damiano confessor condena-me para os longínquos infernos futuro próximo, o patrão mais prático ameaçam-me desemprego e fome próximos no presente. Explica:

Macho e Fêmea. É enredo de náufragos ricos, salvos pelo mordomo criado em agruras afeito às dificuldades da vida; desconversa Peixoto para ganhar tempo; o dedo aponta o casal em negro contorno recortado no céu do cartaz, ele dominando a cena, ela em seus braços corpo que cai suspenso. O mordomo dos ricos equipado para arrostar agrestes, madame arrogante enamora-se dele salvador. Actor e Actriz.

Minha mãe é mulher forte firme contra a rústica vida, pensa a menina na boléia da conversa dos dois; vapor de terceira classe é navio de luxo escada acima; escada abaixo é porão que requer carpintaria, ludibriar a fome no caldo de carne em água de batata bóia fria a verdura cozida, em prato de flandres duro pescoço aos fiapos sobrenada.

Verdes folhas lavadas de alface, hortelã picados tomates e trigo azeite e sal e limão, a vida melhor agora, espera-me em casa o balanço embaixo da mangueira, sol frutos e céu azul. Querida, assim o nome azize diz querida nos montes olíbano perfumados da mãe, e querida a menina é aprendiz de rebater aparas no áspero da vida. Cuida dos irmãos, e sonha muitos filhos seus.

Para o filme não vieram as partituras, será no improviso o frasear musical. Continua Peixoto, tentado a contratar debalde credo e temor à fome imediata, dos infernos cuidará depois.

Se todo mal fosse esse; alegre vivaz fala Raphael entre risos; a menina ouve aprendiz. E guarda para repetir como adágios futuros.

Viria pela estrada de ferro a partitura, junto com as latas contendo em rolo as fitas; mas na estação de trem entre fumaças e o apitar do foguista restaram eu e meu desaponto. Fala Peixoto entrecortes.

Se o jazz não inventou o impromptu, nele sôfrego bebeu; o impreciso é da vida, carregada de temas e cada tema botão de variações; philosopha Raphael. A música é tempo que se não aprisiona, ilusão das partituras filhas da soberba humana; estamos aqui de passagem, contornos de arabescos variam ritmo e compasso, tonalidade modo harmonia variam nuvem e fumaça no firme azul estampa falsa do infinito; nas telas do museu o quadro imóvel, no cinema não.

Peixoto gosta.

Assim, partitura sim e não. O senhor invente. E passa Peixoto a falar com paixão, contar das fitas o enredo, atores e direção. Scenário e produção. Enciclopédico, sobrepuja Raphael com seu religioso filosofar. Espera, ao menos:

luxuosamente encenada, magistralmente regida.

Macho e Fêmea, a fita; dentro do filme um sonho dentro do sonho começa outro filme.

Mescla o passado no presente, a Madame sonha no filme um sonho enredo para novo filme: reproduz a pompa de outras eras, Babilônia retorna real como a vida foi.

A história é talvez.

Era talvez um reipharaó babilônico assurbanipal sem barba mas roupas de metal lavrado ouro de lata, sentado em trono à sua volta a Preferida, de pérolas revestida.

DiligenteMordomo é Reipharaó factotum

LadyMadame, a dona do sonho, refaz-se da realidade náufraga em banheira de mármore onde leite de cabra carícia na pele promessa de mel em melhores dias

a repudiada LadyMadame Actriz.

reipharaó Mordomo Actor.

porém,

a coadjuvante na fita é dele preferida no enredo.

E confesso, minha preferida também. Seu nome se chama BebeDaniels, por ela valeria a pena que o cinema se inventasse em photos que se mexem, revirar de olhos meneios de mãos:

E, como não: Lábios feitio de coração. Touca de nobrespedras, penas de branco pavão arco aberto de estrelas olhos em suave scintilar, pérolas quantas engranzam as voltas tantas do colar. Divaga Peixoto, os olhos perdidos na tela da mente: Bebe Daniels, mostrada em photo veremos no filme, em seu colo a cabeça manso repousa felino pensar-se fera

guerra e doçura

tranças do Amor.

Enamora-me olhar

seus lábios rosas a desabrochar.

Se falasse teria

tom de voz símile cristal

que de leve tange

meu pensar

O autor da novela será Kardecista, talvez, ensaia Raphael mais interessado nas dimensões do tempo cruzados do que no namoro anêmico de Peixoto pela Actriz. E, filosofa espírita: Madame sonha a vida passada em outra vida, no luxo da Babilônia outrora reipharaó paga nesta vida o carma passando a ser mordomo da mulher que humilhou, tempestuosos males frágeis nas vidas quando numa senhores escravos voltamos arcados pela chibata, tome cuidado a LadyMadame quem sabe no sonho um aviso de na vida futura não adiar a mocsa prolongado samsara, talvez. Será quiçá o diretor hinduísta, ponteia Raphael divagando agora altos pensamentos.

Peixoto, quase arrependido de sobrepor o piano à religião, a fome ao inferno, oferta como presente foto da preferida AtcrizCoadjuvante Bebe Daniels em tamanho grande, e a Meninaquerida fica no querer sem pedir retrato da moça linda vestida de pavão, lavadas as cores pela avidez do arco-íris resta o cinza para as pérolas e, cinzas assim as pérolas mais brancas enriquecem o colar da memória da vida passageira, olhos em grafite sentinelas.

Despedem-se amigos.

Vai azizeMenina pela rua afora, vai Peixoto platéia adentro e Raphael vai.

E vai azizeMenina pela rua afora, estrada de passa boi passa boiada, curtume do matadouro vizinho viz boiadeira rua oposta, minha mãe sem tempo de sonhar vidas corridas tanto o futuro urge faina desoras, espera-me um balanço de corda à sombra frondosa da mangueira mas não posso balançar-me agora; mãe e filha de porta em porta a vender artigos sortimentos de sabonete ramonas agulhas botões lenços na sacola mascate, para ajudar na despesa da casa enquanto o pai pelas roças oferece cortes de fazenda ou mesmo miudezas para beleza e encomendas da venda em malas mascates há semanas M´Lhes não volta, a mãe a filha pela mão desde pequena fala português que M´lha não sabe falar.

E vai Peixoto platéia adentro o piano ao canto mudo, comido do remorso de ao devoto sobrepujar a fome, direto prumabaixo porão. Arruma as fotos na prancha pudera assim por rearranjo de pensamentos o peito desopresso calmo respirar. Dispostas preto no branco em diagonal, gosto assim, os letreiros acima escrita sobre estrela estourada em vermelho amarelos estilhaços a palavra breve em gordas letras, abaixo o nome da fita A Favorita de Paris: Esmeralda cigana é salva ao final por Quasimodo um moço sedutor e sineiro da NotreDame, de cabelos valentinos. Que pena, Bebe Daniels, neste filme nem coadjuvante é.

Pruir de pecados. Padre Damiano, que não saiba de Raphael espírita por mim contratado o reverente clérigo. Como de costume, em voz solene tutear-me-á como advertência: Começarei a rezar por ti em pecado descaído; a persistires na ofensa um local no porão do inferno aberto espera-te por castigo. Forno de muito fogo, fogo falto de luz, queimará no escuro tua carne venal.

Raphael persiste fato ipsissima verba na memória:

Os dedos pianistas os dedos de alfaiate, os dedos como quem n’agulha enfia a linha ou dedilha voláteis teclas são assim em Peixoto os pensamentos chuleios reversos; rememora feito na mente impresso fato: Raphael, o dorso da mão descansa na palma, enquanto pausa mansa fala revelar a palmatória castigo da alma, rápido um pensamento afiado aço corta as pontas de outros pensamentos e Peixoto s´inquieta inda mais: com certeza irá Raphael kardecista, sobrepondo-se ao pianista, pregar de improviso os versos do evangelho segundo os espíritas, aproveitando-se do enredo metempsicóptico, para provar que os espíritos descarnados em outra vida na matéria instalam-se retornados; jamais Damiano padre me perdoará aflito Peixoto arremata findo: terei sido assassino em pregressa carne e num repente o ímpeto volte cruévil, castigo de contratar quem zomba das rezas, AveMaria peço graças, ilumine Raphael ao piano por Vossa intercessão antes de ele jactar ser sua música um ectoplasma, graças reitero em preces. Os olhos voltados para o céu da parede onde Bebe Daniels coberta de pérola convida-o para o amor.

Raphael vai pelas ruas assaz moderados passos, os pensamentos prestos movimentos, entreliça liados temas, desde o novo emprego ajudar nos sumptos embora aquém esteja pianista quanto goza n’alma a música e meu repertório é pequeno vizinho do jazz impromptu salvo ter nos dedos mais técnica para agulha e dedal alfaiate de corte e costura se eu pudesse era orquestra tanto sou philharmônico; Raphael pelas ruas diminuendo o entrelaçar dos pensamentos extrai no vivo-aroma suave melodia, Olga Amor Clarão reluz memória qual tela aura de antevisão, fulgor estelar futuro promissor. Para ela deu de presente a Actriz em ampliada photo. E convida-a para o cinema sábado à noite estréia de M&F, quando ele pianista aprendiz de alfaiate dará para o filme a trilha das emoções.

Olga, ao banho vai. Banho de estrelActriz: num leito de mármore imerso o corpo branca pele de luz esculpida banheira de pés esmaltado ferro e o leite de cabra cinzel do imperfeito abranda ressequidos se por ventura o sol caustica ou o vento severiza. Nada disso o tosco banheiro de Olga tem.

Mas tem na brasa olíbano ascender espiral.

Bacia de verde esmalte se o mármore falta, na água morna ervas a perfumar, se o leite de cabra é para romanas pagãs a indústria garante a beleza na pharmacêutica moderna. Sais tonificam a cútis. Olga sente a água agradecer os contornos de seu corpo.

Cremes acariciam a pele e o pó-de-arroz dá o tom da luz na tela projetada.

Traços de bâton, soprar de beijos. Riscos de lápis pretos, acentuado olhar. Completa seja linda Olga um chuveiro de aljôfar em cada brinco. E o amor que Olga descobre por Raphael.

Si

Yo se que me querés

Yo se que me adorás

Dimeloaloido

o acordeon introduz a orquestra típica e do gramophone invadem sons o quarto perfumado. Gyra gyra o disco e o tango chora sabedorias.

Nomelodesís

Dimeloaloido

A photo na parede, estrelActriz olhar em branco e preto, expressivos na tela seus olhos dispensam letreiros reconhecidas zanga, ternura abrandada pálpebra na surpresa dilatada, correm nela as lágrimas são nossos soluços se ama ou sofre na tela, alegria é riso feito sem som e nossa a gargalhada na platéia.

No grande espelho os olhos refletidos, quer Olga sejam ao olhos as emoções d’alma, neles se retratem pura graça, reflitam no luziluz piscar agitado se gostam muito, não se detenham a fixofitar e corram brincalhões para o viés, esconde-esconde amoitado pelos cílios, prontos para lágrimas se comovidos. Olhos marotos como o amor.

O amor, moleque maroto, não se pode ocultar.

Qu’El amor es una cosa que no se puede ocultar

Tango

Os trágicos passos da vida:

te amo

Dimeloaloido

Guardaré segredo

Telojuroporti

Telojuropormi

A photo na parede no quarto de Olga, estrelcAtriz pérolas entrevistas acariciando a nuca o cabelo curto retorcidas pontas desenham-se na face malícias, florido lenço moldura modelar beleza.

No grande espelhos as pérolas, que Olga não as tem; mas seus dentes tesouro do poeta. Fileira de apuro, no riso a rima dos lábios coração abrindo-se devagar é jóia exposta brilhante gema argentino som. Hoje no cinema homem e mulher desencontros na tela, Raphael ao piano melodiará o amor, o quanto gosta de mi.

Amor, maior do quanto dure a vida.

Eterno amor, efêmera vida.

Piano ao cair da tarde eldorada no azul remanente; Solace melodiam os dedos pianistas de Raphael, um ou dois erros díssones que ele nem corrige. Raphael feliz pelo emprego de músico ao pé da tela, Olga amor de minha vida, caso-me com ela de véu e grinalda, construirei nosso ninho, para beijos furtivos roubo tempo do trabalho, na entrada da casa a alfaiataria, qual joão-de-barro arrebate do paraíso. Não pediu para Juvenal Peixoto gerente mostrar-lhe o filme; e à sua frente a inspiração é branca tela; não sabe da fita a seqüência, do argumento mal tem ciência; não é ao piano o exímio alfaiate, aprendiz embora; mas precisa do piano para no recorte de seus sonhos construir a alfaiataria. A tarde na janela abre-se indefinida e derruído futuro se indicia.

Palmas no umbral da porta.

Descerradas as cortinas no enquadrado da janela a Menina sorridente como no cinema naquela quente manhã vira. Junto a mãe, numa das mãos a sacola mascate na outra a Menina. Hoje Raphael nada compraria, entreaberta a porta, não fosse relembrar-se da Menina e acreditar no acaso presença da Mão Divina. Olha para a mulher e surpreende, aterrado, estalo na aura antes límpidas cores de ânimo imbatível.

Abre a porta e bondoso diz precisar de um lenço apenas, lenço azul para laço nos cabelos; mas a senhora com certeza sofre amarguras nesta vida.

Ao dó vislumbrado no olhar de Raphael diz a Senhora em português carente:

Não me queixo!

e continua, em vocabulário de línguas misturadas de esgarçado entendimento as palavras órfãs num esforço de contar uma fábula rejuntarem-se das plurais direções dando à seqüência o sentido exato.

A fábula: um homem muito velho, nunca poupado pela vida, tem sustento na lenha que tira da floresta para revenda: o que na juventude era promessa de futuro na velhice mais parece ter sido para essa faina maldito. Assim, pede em queixosos lamentos venha dar a Morte fim no sofrimento. A Morte, sempre muito atarefada, num tempo roubado à faina sensibilizada por ele favorecê-lo vem: Aqui estou, entrega a alma e siga-me.

Assustado o homem, a quem a vida dera não apenas sofrimento mas dele fez aprendiz das artimanhas argumenta: A Senhora entendeu mal; quero apenas que me ajude com este feixe, grande demais para minhas forças. E, se conhece algum Anjo, desses bons habitantes da luz, faça-o vir até mim porque quero trocar minha cruz, esta também difícil de carregar e nem foi ela que escolhi, diferente do feixe de lenha que hoje errei no tamanho e peso.

Vem o Anjo da Vida e pede-lhe escolha, dentre os vários lenhos de minha reserva de cruzes, o que melhor lhe aprouver: e será a sua cruz.

Desconfortável uma de espinhosas espículas, pesa nas costas descomunal tamanho braços desiguais desajeitado aprumo madeira de mal-cheirosa casca outras, decide por uma pequena leve e cômoda em seus ombros encaixe como côncavo no convexo fecho em fechadura como macho e fêmea a pressão do colchete espiralada rosca em parafuso. Esta! grita contente pelo achado.

E o Anjo da Vida, sem nenhuma caçoada na voz, celeste diz sereno e sábio: esta é a cruz já era sua, dada por Deus carregada por você durante os anos queixosos de sua vida.

Cada frase várias vezes repetida, decide Raphael juntar nas plurais direções o sentido falto às palavras desgarradas.

Queixumes num rebojo de sons firmeza em outro, são os olhos aos céus voltados a cada vez Allah pronuncia a língua no palato estalada crê Raphael referir-se a Deus reverenciada.

Anjo de coloridas asas quando a Senhora bem para trás abre os braços acima da cabeça e pronuncia djin ele pergunta angim a filha traduz anjo grande assim, falando à maleta ajeita nas costas o corpo curvado a mão cofiando o mento qual longa barba trôpegos passos arrastada voz crespa face por dor e cansaço completa a filha como entretítulo: velho queixoso da vida dura pede venha o Anjo da Morte e complete sua sina.

Aponta um poste com as madeiras travessas, ele entende luz. A filha corrige: cruz.

Vários postes, um após outro assinalado: várias cruzes, ele deduz.

Arqueia as costas, mostra um poste, desarqueia um outro ombreia na seqüência a rua inteira até que do portão as ripas travejados  encaixes mostra e no rosto o alívio estampa-se de icto o pronto riso os dentes lindos em fieira madrepérola.

Na largura da costa e força do ombro a balança e metro da Justiça Divina medem o fardo de cada um.

E conclui para Raphael, que notara sua aura carunchada na possessão maligna: Assim, de todas as cruzes na vida em oferta por Allah, a minha é a menor; portanto não me queixo.

Quer apenas um lenço? termina por dizer.

Mais comprei hoje, valor para toda vida. Responde Raphael, logo empós fora do mero raciocínio resolver nos desencontros da fala o certo sentimento:

O Anjo do Senhor anunciou a um queixoso, se tanto o fazia sofrer a cruz a ele imposta, a liberdade de escolher, dentre as várias num galpão largadas, qual queria carregar. Sopesou diversas, em desconfortos crescentes; eleita a mais leve e menor ouve do Anjo ser contra esta cruz, há muito por ele carregada, seus muitos clamares queixosos. Quer apenas um lenço?

Ânimo inquebrantável, pensa Raphael a língua no palato do pensamento.

Entretanto entretelas. Na aura da mulher chuviscos de imprecisões. Obsessor, se há, longe está de onde alcança o míope de minha iniciante mediunidade. Estivesse aqui a minha mãe Joana dos Anjos, e ela experiente das runas e rezas veria o mal porvir a essa mulher e prevenir, quiçá.

É da vida sofrer fatalidades; só um lenço? Leve um al-hilâl.

Raphael comprou também um alfinete fantasia. Para Olga prender flores em sua linda boina de veludo.

E a certeza dos malferidos feito flores daninhas sementes das trevas nos campos em luta solitária a brava mulher, que se afasta. Joana dos Anjos, que do quintal a tudo vira, confirmará para o filho os ataques violentos sofridos por seu ânimo inquebrantável; e promete ajuda.

Voltam ao filme suas preocupações, agora com a certeza de poder resolver; se não ajudei a mulher com seus problemas, ela solucionou o meu.

Com esforço ofereceu-me retalhos que a Menina alinhavou; eu costurei.

Não pedira para Juvenal Peixoto gerente mostrar-lhe o filme naquela manhã mas não importa: os olhos bem fechados trazem as imagens supostas em suposta tela onde se desenrola película de luz compondo o preto sobre o branco desmaiado em cinza as scenas de cinema. Assim são os filmes: o que se vê numa fita nada difere da outra a ser vista: sucede o apreensivo à calmaria na comédia sugere-se o drama por vir, por momentos a ventura sobrepõe-se à desdita quando em suspenso vigiamos os actos dos heróis; recortes de uma fazenda a se comporem vestimenta de emoções desde que no devido lugar ligados; prepararei eu retalhos musicais para a ordem imprevista dos previsíveis segmentos. Filme é caos calculado, assim meu fundo musical.

Ao piano, dedilhados sons, para quando a família reunida feliz não sabe da provação divina por vir; o mordomo serviçal ninguém o nota apenas aos préstimos seus, tão regulares e transcorridos que da natureza parecem fluir no dia-a-dia. Piano calmo, como numa tarde de longínquos sons em alguém percute o passado; e do fundo cavo surgirem sentimentos, antes impreciso aroma. Para a festa noturna, estranhos na noite visitas mundanas, o sincopado acentuará o ligeiro e, num tango valentino de chuleados passos pelas bordas do salão casais festejam o encontro do corpo, o mordomo a circular entre as gentes sem olhos para ele mas gulosos das oferendas de queijos de França e vinhos, sem dúvida o mais belo dos homens presentes; num repente o temporal e mais um trágico: Raphael dá-se conta de não ter dedos músicos que correspondessem à tormenta do mar. Faz-se branco na mente somem brancas as presumidas scenas o preto em cinza derretido na tela encardidamente.

A tempestade requer sonoridades além das pobrezas que posso do piano retirar, defeito de meus dedos afeitos à agulha e dedal e duros na apojatura. Não tenho orquestra, sequer sou maestro. Grandes massas sonoras nas scenas de intenso drama os motivos fluidos deslocarem-se sons entre ações; a tempestade em branco e preto, o adernar da barcaça as ondas goelas de repentinos dentes de saliva molhados.

Lembra-se da Mulher e o vissungo de português e língua natal acrescidos gestos e timbres de modulada voz, maná de luzes para meu entendimento: Tempos modernos, a victrola faz nascer da cera a música, os discos fontes rica de sons da voz do cantor ao uníssono orquestral: Farei uso da victrola. Que venham Primitivos tambores, as cordas grossas repentinos violinos a tempestade em alto mar, os olhos de enorme susto de LadyMadameActriz sublinhados pelo clangorejar da natureza contra a soberba humana, o MordomoActor os pés seguros na agitação desordenada os românticos emprestam-me dos recônditos d´alma a forja subterrânea, e darei cores ao desbotado dimensões terceiras ao chapado.

Peixoto ficará contente do colorido que darei à fita perdida no tempo de ser mudo quando nas ondas do rádio soltos no ar navegam magnéticos eflúvios de meu amor imenso por você Olga quisera eu ser médium receptor com tal clareza transmissor, dizer aos seus ouvidos meus segredos guardados, telojuro pormim.

Vamos-nos casar, até que a morte em outra vida nos reúna num só coração.

Arquivo 006  de Conto Romances

Versão de 17/07/2009

Paulino Tarraf

Versão de 26/11/2007

Versões anteriores:

29/05/2004

27/12/2002

 

 

 

 

 

 

 

Conto Romances Arquivo 011

 

 

Rui Raul  

Moro barato num quarto de pensão, mobília de aluguel, moro só quanto solitário neste mundo sou. De meu guardo muda de roupa, paletó xadrez gravata brilhantina e bigode recente a tinta para a noite e saio, desacautelados rumos decidido tomo, para o escuro da noite onde rui o romântico no reverso do romance, no torto do muro no perigo da travessa, no inverso do luar a todos os gatunos vejo pardos.

Pouco mais de meu além da muda, tenho um violino de cordas frouxas arco desfibrado que guardo como prova concreta de tudo que na vida deixei. Minha victrola para alguns 78 rotações. Mas ela, victrola, das rotações não gira além das 70, toca fanho gira girar e nem gato tenho nem porcelana nem tenho encontros ao quais mudo se assista em meio à difusa luz que se prestasse a clima de tango celebrar passado amor. Na victrola de propósito faço girar a Sinfonia Hespagnola por tudo que joguei fora, rotações desreguladas juntam-se às lembranças que acordadas tão mais agradáveis foram quando acontecidas mais doem agora amortecidas; os discos riscados guardei como do passado guardo o violino, suas poucas cordas e roto arco, tentativa de convencer-me, se necessário for, ter a vida e os sonhos prometidos valor nenhum.

O mais de minha posse, desfalcado de quase todo abecedário pronto para narrativas, aos poucos fui deixando e hoje tenho apenas duplas interrogações seguidas de triplos exclamativos; tento deitá-los fora entre ruínas de muros escuros cantos dobradas suspeitas de esconder gatunos todos pardos ao luar.

Nada mais eu tenho, além de que me cansei dessa vida. Lugar comum, não a frase mas a vida, desinteirada do principal.

Nem todos os sonhos banidos, um bem guardado no peito prendo por premonitório: um punhal afiado trespassar-me, o cabo em mão armada na madrugada. Desde então quisera da quimera o realejo de um dia no último suspiro ver realizado sonho meu. Pertinaz o persigo. Ele foge de mim.

Brancos de dia e de dia os negros também, pardos nas sombras da noite iguais. Se os vejo na rua o sol em plena luz nada digo e desvio os olhos para vitrinas de roupa e eletropeças domésticas panelas apagado quebra-luz, ofertas do comércio que nunca aceitarei. Na pensão onde barato moro, barato moram alguns. Trato-os com polidez e até comento algumas idéias suas enquanto palitam nos dentes a carne que jantaram. Penso que, à noite gatunos todos eles, guardam para mim o punhal que se recusam cravar-me.

Solitário, à noite saio. Saio para a solidão maior do escuro. Mistérios. Las. Los.

Meu nome é Raul. Carrego de tintura meu bigode fino desenho preenchendo cantos e dobras, bigode torto por mais que fio por fio na tesoura ou pinça rabisco de lápis ou retoques de pincel eu horas ao espelho dedico-me a mim. O espelho lembra-me dela tão linda nele refletida; se perto de um espelho, seus olhos jamais se voltavam para mim. Meu bigode quero escuro; o cabelo agora embranquecido recebe o loiro da tintura que antes era oiro e puro. Brilhantino estrelas nas ondas raras que persistem, gelatina onde onda de mar prata congela-se convexa crista côncava queda; às vezes salpico negro pó. Meu espelho nem tudo mais reflete e minha cara sofre leproso papelão no vidro pardo onde o adamascado de mim deveria estar. Meus olhos, aqui eu vejo a cor que tiveram se posso esta catarata chamar de azul.

Cansei-me desta vida. Mas não foi de uma vez. O que rui no tempo desprega-se em tênue pó. Meu espelho, a prata negando seu reflexo em opaco papelão desprendeu-se poro a poro sob meu olhar, como a catarata garço a garço esgazeando o azul rútilo de minha visão. Mas antes da ruína plena tudo percebi e me cansei primeiro, vendo nos olhos de meus filhos que as promessas da vida não passaram de ofertas de fugaz ocasião. Os olhinhos tristes puxados em sorrisos de rugas forçando a abertura da rima que o desencanto teimava em fechar, tanto queriam ver e sorver de tamanha oferta enorme redibir. Defeitos. Desarranjos. Desapuros. Desarrimos. Desatinos. Desarmonia: que ânimo mantém vida e abertos olhos se a esperança não é senão um rictus plantado a pregos no amargo da boca lambida de desejos mas sufocada em fel.

Meus filhos não morreram mas eu parti.

Abandonados eles e minha mulher. Dirão: mas que canalha! Sim, existe gente como eu, prova viva do que eu dizia há pouco, e muito! Posso ver em olhos de estranhos rediviva desilusão, em olhos outros posso ver e suportar. Olho, confirmo e gosto. Sou ruim? nem pouco nem mui. Mas nos olhos de meus filhos, não neles!, a desilusão causada por mim não posso constatar.

Busco o real. Gosto de ver pardos reflexos na vitrina misturados a faqueiros aparelhos de jantar porcelanas de chá e café, muitos cristais. Não sou visto a ver o efêmero passar. A cara no fundo de um prato. Dentes enfileirados nos cabos da simetria das colheres. Batedeira no peito, simétrica ao coração. Do ferro elétrico o cordão é colar de voltagens sem fim. Aspirador um poeta de nariz solto no ar. Orelhas pares de pires. Olhar dentro do oco da xícara, vide o vazio. Dissimulato, à noite gatunos como de dia nas vitrines somos todos parvos.

Sem luar, afasto-me para perto do recanto malfalado da virada da tocaia do perder de vista morada de ninguém. Talvez, na solidão deserta de sua meia luz esconda-se quem irá por mal tirar-me a vida, inda que por meu bem.

Desconsolato volto mistério para o barato quarto de minha pensão. A vida teima em não me deixar. Não me canso de cansar, tento sem esmorecer a única coisa que na vida paga a pena: a hora de morrer. O mulato com canivete desdobrável apara as unhas dos pés, a cutícula não cessa dia a dia de crescer, carne morta acumulada ao redor da garra disfarçada em adorno. Dedos achatados as unhas brilham por entre o pardo pálido dos pés. O mulato ergue o olhar e pendem os lábios num cumprimento habitual. A manhã vai começar e uma malícia de esguelha no amendoado olhar. Desdobro rascante desprezo mais cortante o meu silêncio a seu sorriso afável que a dureza de suas unhas ou seu afiado canivete.

O dia passa solitário, passo eu junto ao dia no cavo desta solidão, dormindo eu e o dia frios em cobertores esgarçados, como a vida cansa.

Meu bigode no espelho demandatura de nova tinta. Amanhã? Saio. Pelas ruas ruindo o reboque os tijolos porosos em cruas carnes expostos e os cachorros, corroídos cupins, dos telhados por desabar vou indo sem saber, ali onde sem sombra de luz, eu Raul inverso luar, inverso do sal, inverso do sol.

Essa noite, quem sabe, aberto o peito na ponta de um punhal repousará meu coração.

Las. Los.

 

Arquivo 011 de Conto Romances

Paulino Tarraf 

Versão de 29062009

Versão de 29092007

sobre a versão de  06/03/2004