Conto Romances Arquivo 003
Riu Benedito
: Damiano ou Amandio, um deles morto um dia foi para o céu. Diga-me qual.
A Mãe, de manhã ao café, simulado um pensamento repente tal um pássaro em vôo rasante remete a pergunta que a atormentara a noite toda:
Qual deles, um deles morto um dia foi para o céu, você pode dizer-me qual!
Benedito em resposta adoça o café. Á capela desentoa falsete que se perde no lento giro da colher.
Presa na armadilha sobra ainda para a Mãe o gosto de mel da lambuzada colher. Nos olhos um brilho de vidro.
A Mãe deveria ouvir missa em intenção dos dois, Damiano e Amandio; por garantia. Sugestão a ser dada um dia. Católica fervorosa, outrora, hoje nem protestante sequer espírita, hoje a Mãe não é mais nada, sentada nesta cadeira empalhada.
Não esperava viver tanto, tempo considerado lucro passar dos cinqüenta perdeu a conta e de pirraça atravessou os zeros nas fronteiras de um para outro século: nunca foram modernos os tempos como os de hoje o são marcadas horas em ampulheta digital, os números um após outro caem ao invés de os ponteiros na proteção de vidro aos giros apontarem para o sentido de uma circular e repetitiva eternidade.
Á frente de Benedito, um quarto de luz sobre a escrivaninha, o repugnante tinteiro carregado de passado espera o gesto negado de nele embeber-se a caneta. Gosto por escrever a lápis, o cheiro nanquim da tinta, o preto em que se molham as penas do escritor guarda com o sofrimento proximidades de lágrimas em borrões desmanchadas gotas, o rombudo mal aparado da ponta mesmo fosse pluma de pavão; escribas antigos vertendo para o papel velhos pensamentos pretendem a tinta nanquim das sentenças consumadas nunca se delir. A graphita mais transitiva igual maneira quanto o que é vivo no império da quimera sobrevive.
Benedito Rui teimoso desde a infância. Paciente aponta com afiado canivete a dúzia de lápis. Capricho de igualar a madeira, lisa canela terminada em graphita, a vida é assim devagar filosofa barato entre risos, e afina em lixa o pó preto assoprado assenta-se devagar feito nuvem de fuligem. Devagar. Sobre um papel almaço amarelo de ócio, onde assim escrito está em garranchos à moda de lembrete: um padre rende-se aos encantos dos sentidos e não mais quer a vida eterna em plácido paraíso; namora a reencarnação e ter outra vez e outras mais a carne pronta para agruras e sucessos, nela o sofrer conseqüente, assim a vida eterna quero. A letra de Benedito, a página nunca virada daria ao leitor a continuidade: jamais lembrar-se da vida anterior uma dádiva; se quisesse, nas mãos de uma médium avançada, ou num caçador de vidas passadas, viriam a seu espírito as lembranças que o rio da morte deliu: descanse em paz memória. Num canto em letra de forma: vir dives; dives vir; o dilema entre ser rico e os deveres serviria de lema na biografia de Damastor; mas latim precário e falsas etimologias casam-se com padres. Riscado padre, acima escreve vigário. E mais à frente corrige: vigário dos contos.
Projeto de memórias; desde já compromissado de serem falsas; e destinadas ao fogo, fogo milenar elemento ao homem pré-existente quanto pré-existentes água terra e ar; um deles irá consumi-lo seja por excesso de ondas ou labaredas, escassez de fertilidade, pesado de impurezas.
Assim começa Benedito Rui, lápis no papel:
Nasci no mês dos santos, não todos mas três, escapei de ser Júlio pela parecença com Junho, e por pouco não me chamam Pedro tão duro nome Antônio de agulhas góticas por enfeites ou João grandalhona e pulposa massa, pressupostos de religioso trato por ser minha Mãe dos tempos de antigos católicos, escapei de ser Júlio pela parecença com Junho, mas em Benedito meu nome por fim tem registro e minha vida, nem tanto benevinda sequer benedigno nela vivo, selam minha boca amargosto e salamargo visgo e assim pouco falo se querem saber e tampouco escuto, escrevo, sim! para labaredas entanto!, pois reservo à minha mente sítios de encantos próprios tal cinema fora conquanto não o invadisse a desaforama humana; minha Mãe acrescentou Rui e mais nada. Devo à Minha Mãe não só a luz quanto ter vivido muito, ela que tanto viveu ensinou-me ser a pirraça o maior encanto da vida: muito viver para provar que ela vida vale nada por certificado de quem muito viveu com escárnio dela.
As fitas de cinema, precisos o cortes e seqüências ordenadas uma cena em busca de outras, o antes e depois amarras de complemento constelam-se mutuantes, passagens inteiras regidas ao som de orquestra na sinfonia universal, cellos e trompas símile nimbos transversos raios de sol, fitas de cinema quando quero revistas, obedientes contam da história a mesma memória, os vilões e heróis repetidamente reais, vilões verdadeiramente heróis; a vida eu queria assim.
Amado celulóide. Tal e qual. Mas não!, em branca tela pinceluz o destino a Fortuna leviana voltívola vaidosa pluma, se estava escrito o correr de nossa vida um rio marginado de leito profundo é desordenada foz em delta de estrondoso banzeiro. Vivi muito, e vivo!, além do desideratum. Mater Mea vive centenária, lúcida memória embora troque datas, turra teimosia. Conheço portanto o surpreendente dos dias, e dos coevos quantas decepções fiz questão de marcar com graphita mole para melhor ferretear no papel: este sim em branco e aceita o correr de minhas penas conforme volúvel eu passo a borracha e remendo ao prazer de meus riscos; e risos. Assim resolvi escrever minhas memórias dos outros; então posso dizer assim estava escrito, como manda a filosofia árabe para contrapor-se ao remoinho das areias do deserto, matéria prima das ampulhetas. Toda mesquita tem nos muros passagem santa, mihrab, caminho direto a Meca. Quisera eu a vida em linha reta.
Benedito Rui escreve e lança ao lixo, balde de alumínio posto num canto. Quando dorme, a Mãe insone amparada em muletas cata limpa e guarda-os em caixa de papelão. Não os lê, a vista fraca fadiga enfado, aprova o escrito desde pelo filho escrito. Alguns pedaços rasgados, outros parte queimados, guarda com materno carinho e gosto de contrariar.
Nem seria fácil ler. Não pelo estilo, simples e claro quase teatro nô, direto de duro, sinonímia precisa embora escassa, tanto detesta o rebuscado quanto deplora o rebuscante se escassa, casticista. Difícil leitura reside na profusão de remendos, trechos em branco palavras riscadas, no meio das frases notas a serem usadas em futuro próximo nunca presente dado o balde à espreita e o fogo com fome. Personagens sem nome, outros com vários; nomes calcados em defeitos, a Muda ou Dedicada, quando qualidade, qualidades nunca comprovadas em virtudes e defeito testemunho de valoroso caráter. Aos que leu a Mãe rasgou, minúsculos pedaços como quem, distraído obcecado, mecaniza os atos. Remorso nenhum, então dorme. Se remói arrependidos levanta-se com a dificuldade de velhos, junta os rasgos remenda como pode, alguns cola em ordem inversa dada a vista sofrida de nada de bom ver na vida e, meticulosa, guarda nas caixas de sapato junto às mechas de cabelo a Benedito cortadas aos quatro anos de longeva idade. Então sim, nesta noite dorme.
Dia seguinte afirma não dormi nada. Se dormir é entrega inocente a orfeu, descida aos infernos desatados do mundo os comandantes sentidos e às delícias do descanso somados a liberdade dos sonhos e o perigo de bebendo água dessas fontes nunca mais querer voltar, então não dormiu. Atenta, se fecha os olhos transforma-se argos em seus ouvidos milmultiplicados. Ouvidos esses que não devolve no dia seguinte, nem os olhos, embora diga não enxergar bem e obrigar repetições ao interlocutor ‘té eleve o tom da voz para ela irritada dizer que não é surda. É quando Benedito Rui não ri, dias sem falar, escreve e apaga escreve e rasura escreve e rasga escreve e queima, escritos que religiosa ela recupera para, alguns, ela mesma rasgar. Então dorme. E recomeçam.
Padre amargo, escreve Benedito referindo-se a Damiano, e desconfia se amargo não se aplica reflexivo a seu humor; padre amargo de crime nenhum mas infindas intenções. Risca amargo após padre acrescenta amaro e risca e volta amargo escrito em forma. Risca a frase toda e, maiúsculas para novo parágrafo Damastor paresta Damiano e solene surge empós Dalgisa, os suspensórios caídos pelo dorso, a voz vinda do além do sono: nada sublime obsessão, parece-me, tolda-lhe o espírito. Apaga solene embora o papel guarde ainda traços calcados da forte escrita. No lugar prefere o gerúndio de aparecendo primeiro porque Dalgisa já surgira no umbral da porta e não quer repetir, tira empós acrescenta atrás por ser mais direto. Fica: Damastor paresta Damiano aparecendo atrás de Dalgisa. Borracha forte em Dalgisa e troca por Olga, por causa de Volga. Recusa paresta por muito precioso e prefere ombreia, porque se liga a umbral onde já aparecera Olga e dá a impressão de encostar-se nos ombros de Olga. Ri. Ri da última frase e de aliterar Olga e Volga pensando em rio ruço de pecados. Ri alto e sua mãe pede que lhe dê um suco, quatro horas é hora do remédio e ser feliz tem tempo.
Um homem entre suas coxas intruso, bruto e possesso, a fazer de seu corpo seara de sementes molhadas. Benedito modifica mas havia deixado ali para que a mãe lesse, noite de dormir pesado, se leu calada ficou de fala de gesto de olhar. Ainda assim resolveu incluir no Memória Prohibida de Damastor Sem Culpa. Fará parte dos sonhos ruços de Damiano, mas poderia fazer parte dos sonhos amenos de Juvenal, inimigo do sol amante do néon da lâmpada a carvão da sala escura de cinema do bolor do porão de photos antigas até que um dia à luz do dia viu surgir Olga Doña Sol vestida de noiva e, em seus sonhos antes delgados pudores em porta fechada cobriam castos beijos de felizes namorados, a virilidade estampada em amores brutos toma relevo de guerra e, claro, em todos Olga prometida e nunca entregue somente à força esgarça limites de seu corpo divinal.
No Fim da vida Juvenal desistirá de ir a cinemas, cinema sem projetor de filamento a carvão correm higiênicas as cenas digitais, os beijos na pressa de mostrar paixão carregam de pecado as trocas e pulverizam as sutilezas dos sentimentos. Buscara em vão os estalidos do filme projetado. O estalido das trilhas sonoras comparsas dos riscos nas telas, descuidos na mudança do rolo números letras e jatos brancos a denunciarem como verdadeiro sonho o real na escuridão iluminado. Para ele Benedito Rui escrevera um epitáfio nem tanto lapidar e que pretendia não incluir em seu livro de Memória dos Outros:
Amado celulóide. Nele impressas scenas esperam jorros de vida da luz advinda. Tela fugace. Trânsitos luminosos. Leves chumaços brincam no escuro brilhos de essências irreais. Em branca tela. Amado celulóide. Entre os dedos a fita, restos centímetros de um longa metragem, a cada fotograma um gesto a pouco e pouco se completa, instantâneos à espera de luz e manivela os lábios aproximam-se quadro a quadro num beijo selados, enquanto mudo o letreiro confessa: Amor de minha vida! Quem terá dito a frase assim escrita, ele ou ela?
A lágrima rola fotogramas abaixo, marca o celulóide a queimadura feito flor cinza filha do calor da lâmpada mesma luz que à lágrima alumia agora tolhe do choro o movimento, em meus dedos o pedaço; a dor na face sem palavras.
Amor de minha vida!, nunca ela me disse, sequer me amou a vida ou alguém. Enredo preto no branco. Olga, nunca mais.
Sobre Laslos redigiu escassas notas. No rodapé de um caderno de caligrafia escreveu Atraído pelo som do violino da Sinfonia Hespagnola rica em violinos Laslos entre eles ficou! No meio de uma oração de São Francisco, talvez referindo-se a Laslos: Todos já sazonados, ele ainda na provocante juventude. Colete xadrez, mangas arregaçadas força o braço à mostra, cabelo na testa por displicência desmanchado mas sabia sua mulher que cada mecha ondulava, a poder de pente e brilhantina, em estudada curvatura.
De Damastor a quase-auto-biografia tantas notas tem que várias caixas de papelão foram usadas para guardados e, um tanto maior de recortes lembranças e anotaçoes para Raphael e Olga, de nomes verdadeiros chamados Denizard e Dalgisa por precaução modificados, denotativo do desejo de, no fundo, Benedito Rui ter publicados impressos em brochura ou capa dura e lido seus escritos falsos mas nem por isso menos verdadeiros.
Dissera um dia: Cabocla Teresa, a mais bonita do lugar.
Ao que a Mãe, orgulhosa da própria beleza juvenil da beleza dos maduros anos e de recortes perfeitos proporções de traços testemunhas de bela ainda malgrado as rugas responde rouca voz: Cabocla Teresa nunca existiu: musicou-se a lenda para atemorizar mulheres malintencionadas quanto à honra de seus maridos.
Ao ler, aqui ali, em papeis avulsos sobre Meninico e Gertrudes, duplonome da ama Julieta, a Mãe desconfiou da intenção de Benedito relatar com maldade uma não muito digna juventude sua vivida em terras de São Sebastião, dos quais nunca achou nem rascunhos mas, via das duvidas, Deus me proteja. E na cadeira empalhada não se embalança.
paulinotarraf
13/07/2009