em negrito

Espaço Santo e cadeira

cabeças

Olhando o Santo

S´imbora




redoma cadeira azul e oliva

S Francisco cabeça e redoma

Santo busto e cadeira

santo cadeira menino e homem de costas

santo de costas e negrito

Tomando água 1






Santo solo

Santo tresporquatro

Obras do escultor Brecheret chegam à Caixa Cultural São Paulo

Publicado por: Carlos Scomazzon

Ícone da escultura nacional, criador de grandes monumentos e obras, homem que transformava pedras, terracota e madeira em arte. Mesmo dono de cultura erudita, o ítalo-brasileiro Victor Brecheret encontrou nas matas brasileiras a inspiração máxima: os índios. A exposição A Arte Indígena de Victor Brecheret, com curadoria de Maria Aparecida Brecheret, será inaugurada no dia 4 de novembro, na Caixa Cultural São Paulo, e ficará em cartaz até o dia 10 de janeiro de 2010. Foram selecionadas 24 esculturas e 23 desenhos, inspirados na cultura indígena, brasilianista e marajoara, oriunda da Ilha do Marajó, no Pará. Inspirado nos antepassados e no primitivismo milenar, o artista criou grafismos que lembram escritas antigas. A terracota é um dos materiais que ele usava para entalhar lendas e mitos indígenas, como as obras Drama Marajoara, Filha da Terra Roxa e Índio e a Suaçuapara, que ganhou o prêmio de melhor escultura nacional na 1ª Bienal de Arte de São Paulo, em 1951.

Além da terracota e da madeira, ele esculpia em pedras. Encontrou três pedras enormes que foram arrastadas pela maré até a praia, e nelas entalhou a história de uma índia e um peixe. Nesta obra, o autor se aproxima do primitivismo e marca o instante em que a escultura deixa de ser baixo relevo e se transforma em gravura. Para executar estas peças, ele fez uma série de estudos em desenho, até encontrar a melhor composição. Foi Mário de Andrade, amigo de Brecheret, que lançou a sugestão de abrasileirar a produção, pouco antes da Semana de Arte Moderna. ”Estude os tipos dos nossos índios, tipos não desprovidos de beleza, estilize-os, unifique-os num tipo único, original, e terá adquirido assim a maior das suas qualidades”, disse ele. Anos depois, as palavras do escritor influenciariam a obra do escultor, considerado um dos precursores do Modernismo no país.

A fase indígena é considerada a terceira na trajetória do artista, mas outros momentos e trabalhos também ajudaram a celebrizá-lo no meio artístico. É dele o Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera, um dos cartões postais obrigatórios da cidade de São Paulo. Brecheret também esculpiu o Fauno, estátua que pode ser vista no Parque Trianon, em frente ao MASP, Duque de Caxias,na Praça Princesa Isabel,também na capital paulista. A exposição A Arte Indígena de Victor Brecheret tem patrocínio da Caixa Econômica Federal. A mostra já percorreu os espaços da Caixa Cultural de Brasília, Curitiba, Salvador e Rio de Janeiro, finalizando esta itinerância na cidade de São Paulo. Visitas monitoradas para grupos, agendamento e informações pelo telefone (11) 3321-4400.

Italiano de nascença, o escultor se considerava um brasileiro. Em 1912, já no Brasil, freqüentou o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. No ano seguinte, voltou à Itália, para estudar escultura com Arturo Dazzi. Em 1915, abriu seu primeiro ateliê, na capital italiana. Nesta fase, sofreu influência dos renascentistas, do impressionista Rodin e de Mestrovic. Depois de seis anos na Itália, voltou para o Brasil impregnado com as idéias da escultura moderna. Depois de passar um tempo em Paris, voltou para o Brasil e participou da Semana de Arte Moderna de 22, ao lado dos amigos Oswald e Mário de Andrade e Di Cavalcanti. Foi premiado no Salão da Sociedade dos Artistas Franceses, em 1925. Dedicou-se a obras abstratas nos anos 30. Em 36, começou a trabalhar no monumento que lhe deu visibilidade e ao qual dedicou boa parte da carreira: o Monumento às Bandeiras, próximo ao Parque do Ibirapuera. No final dos anos 40, começou a trabalhar com temas nacionais e indígenas, e com formas mais orgânicas e essenciais. Brecheret participou das XXV e XXVI Bienais de Veneza (1950e 1952), e das I, III e IV Bienais de São Paulo. Na Bienal de 1951, recebeu o prêmio de Melhor Escultor Nacional. Morreu em 1955, em São Paulo.

Depois do Banho- Arouche Cabeça de viésDepois do Banho- Arouche CabeçaDepois do Banho- Arouche torso e seringueira

Depois do Banho- Arouche Cabeça e tronco

Depois do Banho- Arouche torso tronco torre

Depois do Banho- Arouche depois dos banhos

Depois do Banho- Arouche

Depois do Banho- Arouche braço perna passantes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obras do escultor Brecheret chegam à Caixa Cultural São Paulo

Publicado por: Carlos Scomazzon

Ícone da escultura nacional, criador de grandes monumentos e obras, homem que transformava pedras, terracota e madeira em arte. Mesmo dono de cultura erudita, o ítalo-brasileiro Victor Brecheret encontrou nas matas brasileiras a inspiração máxima: os índios. A exposição A Arte Indígena de Victor Brecheret, com curadoria de Maria Aparecida Brecheret, será inaugurada no dia 4 de novembro, na Caixa Cultural São Paulo, e ficará em cartaz até o dia 10 de janeiro de 2010. Foram selecionadas 24 esculturas e 23 desenhos, inspirados na cultura indígena, brasilianista e marajoara, oriunda da Ilha do Marajó, no Pará. Inspirado nos antepassados e no primitivismo milenar, o artista criou grafismos que lembram escritas antigas. A terracota é um dos materiais que ele usava para entalhar lendas e mitos indígenas, como as obras Drama Marajoara, Filha da Terra Roxa e Índio e a Suaçuapara, que ganhou o prêmio de melhor escultura nacional na 1ª Bienal de Arte de São Paulo, em 1951.

Além da terracota e da madeira, ele esculpia em pedras. Encontrou três pedras enormes que foram arrastadas pela maré até a praia, e nelas entalhou a história de uma índia e um peixe. Nesta obra, o autor se aproxima do primitivismo e marca o instante em que a escultura deixa de ser baixo relevo e se transforma em gravura. Para executar estas peças, ele fez uma série de estudos em desenho, até encontrar a melhor composição. Foi Mário de Andrade, amigo de Brecheret, que lançou a sugestão de abrasileirar a produção, pouco antes da Semana de Arte Moderna. ”Estude os tipos dos nossos índios, tipos não desprovidos de beleza, estilize-os, unifique-os num tipo único, original, e terá adquirido assim a maior das suas qualidades”, disse ele. Anos depois, as palavras do escritor influenciariam a obra do escultor, considerado um dos precursores do Modernismo no país.

A fase indígena é considerada a terceira na trajetória do artista, mas outros momentos e trabalhos também ajudaram a celebrizá-lo no meio artístico. É dele o Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera, um dos cartões postais obrigatórios da cidade de São Paulo. Brecheret também esculpiu o Fauno, estátua que pode ser vista no Parque Trianon, em frente ao MASP, Duque de Caxias,na Praça Princesa Isabel,também na capital paulista. A exposição A Arte Indígena de Victor Brecheret tem patrocínio da Caixa Econômica Federal. A mostra já percorreu os espaços da Caixa Cultural de Brasília, Curitiba, Salvador e Rio de Janeiro, finalizando esta itinerância na cidade de São Paulo. Visitas monitoradas para grupos, agendamento e informações pelo telefone (11) 3321-4400.

Italiano de nascença, o escultor se considerava um brasileiro. Em 1912, já no Brasil, freqüentou o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. No ano seguinte, voltou à Itália, para estudar escultura com Arturo Dazzi. Em 1915, abriu seu primeiro ateliê, na capital italiana. Nesta fase, sofreu influência dos renascentistas, do impressionista Rodin e de Mestrovic. Depois de seis anos na Itália, voltou para o Brasil impregnado com as idéias da escultura moderna. Depois de passar um tempo em Paris, voltou para o Brasil e participou da Semana de Arte Moderna de 22, ao lado dos amigos Oswald e Mário de Andrade e Di Cavalcanti. Foi premiado no Salão da Sociedade dos Artistas Franceses, em 1925. Dedicou-se a obras abstratas nos anos 30. Em 36, começou a trabalhar no monumento que lhe deu visibilidade e ao qual dedicou boa parte da carreira: o Monumento às Bandeiras, próximo ao Parque do Ibirapuera. No final dos anos 40, começou a trabalhar com temas nacionais e indígenas, e com formas mais orgânicas e essenciais. Brecheret participou das XXV e XXVI Bienais de Veneza (1950e 1952), e das I, III e IV Bienais de São Paulo. Na Bienal de 1951, recebeu o prêmio de Melhor Escultor Nacional. Morreu em 1955, em São Paulo.

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3 ondas

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7 ondas com desfoque

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7 ondas com Weissmann ao fundo

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Com casal de bicicleta e Museu

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Com homem e Museu

Discolabirinto no disco

homem1 e pedra B&P

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de costas fachada igreja e predios menos evidentes DSC07476

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Francisco Miranda com recorte DSC07475

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Conto Romances Arquivo 010

 

Ama. 

Se chamassem Gertrudes, Julieta viria. A contragosto, viria. Meu nome prefiro Julieta, nem dessegredo do batismo o verdadeiro para não incitar humilhações dos contrários. É Julieta florido leve brisa perfumadas juventudes, lembra graça no andar meneado em risos, coração contidos romances de trágicos amores. Nada disso contém Gertrudes, fadiga e fardo, nome dado por Benedito Rui autor ao graphitar rascunhos sobre ela. Talhados rascunhos minudentes despedaços dedica-se escritor ao texto, almaços de página inteira, com sabor de obra-prima pela qual gostaria de ser lembrado. Não fosse Flaubert fazer-lhe sombras com o coração simples de Felicité, nascida e morrida empregada em Três Contos. Adoraria, Benedito, dizer Flaubert c’est moi; não pôde e Gertrudes recém-nada foi para o balde de zinco postado como lixeira para seus escritos. Ciosamente a Mãe recolhe o almaço, lido gosta e guarda. Leitora única, tão bem engavetou o texto sobre Gertrudes, que nele ninguém tocou dele não se fez leitura e no esquecimento amarelou; fosse Benedito autor desse Único Conto ninguém dele se lembraria; se alguém se lembrou.

Nem de Gertrudes, vida dedicada a Vina, ela sim menina de olhos violeta, perfeita julieta das primaveras frescor de brisa sorrisos, amores nenhuns, e os meneios graça de gestos postura leve das mãos encanto silente, assim dos lábios sem som fluem imagens advindas nos sopros do sorrir, sonatina de delicados acordes, suave harmonia ricas tessituras singela melodia.

Muda não surda, Vina, animados encantos gentis movimentos, perscruta nas falas espontâneas na irresolução das pausas nos descuidados gestos das gentes manar dos corpos o calado profundo, para além das falas os contraditos desopressos escuta. Dos humilhados e ofendidos sabe as necessidades no cascão do orgulho incrustadas, Vina, muda não fosse ainda assim, cala-se. Mas supre.

Gertrudes, sob constante sonda dos agudos olhos de Vina, mantém segredo nenhum, transparente sente-se. Contudo, quanto pode, oculta ser Gertrudes contida Julieta.

Se por dentro é Julieta, cada vez mais Julieta quantas voltas os ponteiros na dança das horas dessem, nas horas vagas põe-se Gertrudes de travestida Julieta ao espelho de corpo inteiro. E vagam os ponteiros nas ausências de Vina, misteriosas ausências de quem até então conhecia inclusive as divagações de pensamento, assim presumido.

Vina desaparece no silêncio e, repetidas vezes, recolhe-se em seus aposentos horas inteiras, dias quando não semanas. Gertrudes sabe o perigo de incomodá-la. Vertem serpentinas chispas as verticais pupilas, rubor na face lábios de ira, melhor morrera que desamada quem ama sem fronteira. Então aproveita, quando Vina se tranca, abre Gertrudes as portas da liberdade para ser Julieta.

No espelho. Frontal. Despida Gertrudes recompõe-se Julieta.

Desde Vina criança gostava a Ama de usar, escondida, os adereços da menina. Contentava-se com as fitas de cabelo entrelaçar aos seus, cós de cintura feito lenço no pescoço acocha, colar faz de conta ser pulseira enrola, anel do indicador só no mindinho cabe.

Gertrudes vira Julieta revirada Vina.

No espelho. Mira-se Gertrudes Julieta refletida Vina pretendida .

Hoje Vina corpo de mulher, servem no corpo as roupas com reparos de improviso, ajustados busto e cintura no gancho de alfinetes, Julieta roda a saia sem a graça com que se mira. Os sapatos segredam-lhe ser de cinderela a desajustada irmã, mas tão lindos saltos dão-lhe a sonhada altura, esquecidas dobras no calcanhar.

Afinadas convivências, Gertrudes sabe quais dias da semana tranca-se Vina por mais tempo em seu apartamento recolhida. Geralmente quintas entra noite pela madrugada na sexta não vê o sol das manhãs quiçá das tardes. Após o banho de demorada imersão, ressurge Malvina amante da vida no frescor desenvolto dos gestos, nada quebra o silêncio selado pelo lindo sorriso.

A rotina altera quando da Cidade chega o patrão Damastor à Capital, a Senhôra de braços, mala de presentes, certeza de passeios. Se viajam a São Vicente para banhos em Chora-Menino, na Capital Gertrudes fica Julieta ao espelho ou de gabardina de lã saia e casaco justos de apertada cintura luva de renda descalças nas mãos de grosseiros e menores dedos colbaque na cabeça, Julieta passeia demorado pelo Arouche ou Barão, vai ao Municipal dos concertos e recitais e não entra, percorre nas Casas Americanas os departamentos experimenta calçados chapéus e sonda nos perfumes a fragrância para a melhor hora do dia e nada compra, porém mostra-se senhora de fino-gosto preciosa origem e bom-trato. Sonha passear no Triângulo, não fosse tão longe e o bonde, democráticos assentos, impõe-lhe operários por companhia. Se necessário, claro, dobra-se `as catinga de suores proletários e troços dos burros. Irá, um dia.

Fora isso Vina pouco muda. Exceto uma vez, segunda de manhã, ficou recolhida e por três meses mais freqüente no apartamento conjugado trancava-se quando uma carta deixou por baixo da porta da parede-meia, e nela disse escrito que viajaria por três dias instando segredo e, lidas estas linhas rasgue empós; ao voltar nenhuma pergunta admitirei, caso de vida ou morte, de tua morte Gertrudes!; portanto, caluda!.

Foi, na casa, patroa dela mesma e sentiu na pele a ruindade em pessoa. Nunca limpou com tal esmero, o escovão no assoalho encerado brilho de apelo comercial. As panelas, fulgor de alumínio conseguido com areia de rio. Lençóis lavados a mão, perfumados estendidos na cama vazia de Vina, pensou que jamais fora mãe e, se algo acontecesse à sua menina a morte não lhe daria o descanso merecido para quem viveu tanta faina. Onde andará!, proibida de falar pedir ajuda, aguarda esgotem-se os três dias; lava passa esfrega brilha, não cozinha pois não come e, água, em goles descidos com dor contricta garganta.

Vina ficara fora um dia a mais. Tanta dor arruinou-se em ódio. Suspeita não ser muda a menina; o traço que se descrido inutilizaria nela a honestidade.

Assombram-na os pensamentos vindos a pouco e pouco, mal feche os olhos na tela escura estouram fachos de luz e toma forma por conta própria o enredo narrativo; sucessão de eventos remetem a uma Vina heroína do amor reviço no tédio cura para a sensaboria da rotina, Vina de múltiplas vidas, enfermeira da cruz vermelha, bailarina em casas de baixa moral sítio lamacento de desajustados, cortesã de alto luxo explora nos ricos a avidez pela carne, grãa fina da nata social de elegantes cigarreiras em cujo cristal as carreiras de cocaína concedem sonho e energia na aspiração gulosa por novas fronteiras, e o éter na vertigem da cidade entre tangos e mentiras o fascínio dos perigos; mulher caridosa a percorrer as ruas nas frias madrugadas munida de cobertores e sopa socorro dos desabrigos, florista de bela voz a explorar a ingenuidade de vadios, amiga de anarquistas a lançar bombas caseiras ameaça a pacacidade de cidadãos bem-postos, oradora em praça pública por ombrear homens e mulheres; Vina, entre luzes e sombras muda na face as exigências do papel; e a persona cria-lhe superposta nova alma. Gertrudes passiva contempla com emoção desmedida a força do desenrolar dos episódios.

Melhor a vida quando de viagem para Paris Vina despediu-se dela para tomar o vapor em Santos e com Damastor e Senhôra encontrar-se no Porto da Bahia. Não viajou Gertrudes para Borboleta, esquecida já do frescor das manhãs do canto dos pássaros e pastos verdejantes: se perguntassem diria ter nascido na Capital e seu sangue nas veias corria febril como ferve esta Capital que não pára por não poder parar.

Aqui ficou Julieta e em ser Julieta esbaldou-se. O Triângulo receberia suas vistas, iria a pé de braço com a felicidade.

Sabia para onde fora Vina, por quanto tempo, com quem.

Para compensar as tardes corriam lentas na Dulce Confeitarias, chocolate no ar açúcar em cristais, o violino derrete-se em romances, lugar onde uma senhora desacompanhada não é mal-vista e o broche de pedras confirma boa procedência. Não lastima o desacompanhada, desde não serem os homens príncipes a fazerem da companhia um ameno divertimento. Jamais ser mãe. Inda fosse de Vina não teria tolerado, passiva a um homem submetida, a indecente posição a ferir o decoro de uma mulher, pórtico aberto para a brutalidade masculina, fardo e fôlego, a fazerem de um corpo delicado a seara para sementeiras de cheiro duvidoso. Damastor, quem sabe nos braços dele quebraria o rigor de minhas carnes. Ele, entanto, mal vê quem não seja Vina. Sua virgínia, aurélia em casulo de seda, solta borboleta quanto menos dela suspeita seu protetor.

E uma certeza nela prega-se como as raízes de uma praga:

Estou convicta, diz alto para o espelho despindo o chapéu em alfinete preso e a blusa: Malvina fala!:

Finge-se muda para prender Damastor em aranhol de finos fios, para nós ela é o império do recato; embora e muito! nos meandros da cidade não é distinta entre os anônimos de encoberta leviandade.

Presumo.

Calo-me.

 

 

Arquivo 010 de Conto Romances

Paulino Tarraf

Versão de 19/07/2009

Versão 10/10/2007

 

Versão de 29/09/2007 sobre a versão de 01/07/2006

Conto Romances Arquivo 003

Riu Benedito

: Damiano ou Amandio, um deles morto um dia foi para o céu. Diga-me qual.

A Mãe, de manhã ao café, simulado um pensamento repente tal um pássaro em vôo rasante remete a pergunta que a atormentara a noite toda:

Qual deles, um deles morto um dia foi para o céu, você pode dizer-me qual!

Benedito em resposta adoça o café. Á capela desentoa falsete que se perde no lento giro da colher.

Presa na armadilha sobra ainda para a Mãe o gosto de mel da lambuzada colher. Nos olhos um brilho de vidro.

A Mãe deveria ouvir missa em intenção dos dois, Damiano e Amandio; por garantia. Sugestão a ser dada um dia. Católica fervorosa, outrora, hoje nem protestante sequer espírita, hoje a Mãe não é mais nada, sentada nesta cadeira empalhada.

Não esperava viver tanto, tempo considerado lucro passar dos cinqüenta perdeu a conta e de pirraça atravessou os zeros nas fronteiras de um para outro século: nunca foram modernos os tempos como os de hoje o são marcadas horas em ampulheta digital, os números um após outro caem ao invés de os ponteiros na proteção de vidro aos giros apontarem para o sentido de uma circular e repetitiva eternidade.

Á frente de Benedito, um quarto de luz sobre a escrivaninha, o repugnante tinteiro carregado de passado espera o gesto negado de nele embeber-se a caneta. Gosto por escrever a lápis, o cheiro nanquim da tinta, o preto em que se molham as penas do escritor guarda com o sofrimento proximidades de lágrimas em borrões desmanchadas gotas, o rombudo mal aparado da ponta mesmo fosse pluma de pavão; escribas antigos vertendo para o papel velhos pensamentos pretendem a tinta nanquim das sentenças consumadas nunca se delir. A graphita mais transitiva igual maneira quanto o que é vivo no império da quimera sobrevive.

Benedito Rui teimoso desde a infância. Paciente aponta com afiado canivete a dúzia de lápis. Capricho de igualar a madeira, lisa canela terminada em graphita, a vida é assim devagar filosofa barato entre risos, e afina em lixa o pó preto assoprado assenta-se devagar feito nuvem de fuligem. Devagar. Sobre um papel almaço amarelo de ócio, onde assim escrito está em garranchos à moda de lembrete: um padre rende-se aos encantos dos sentidos e não mais quer a vida eterna em plácido paraíso; namora a reencarnação e ter outra vez e outras mais a carne pronta para agruras e sucessos, nela o sofrer conseqüente, assim a vida eterna quero. A letra de Benedito, a página nunca virada daria ao leitor a continuidade: jamais lembrar-se da vida anterior uma dádiva; se quisesse, nas mãos de uma médium avançada, ou num caçador de vidas passadas, viriam a seu espírito as lembranças que o rio da morte deliu: descanse em paz memória. Num canto em letra de forma: vir dives; dives vir; o dilema entre ser rico e os deveres serviria de lema na biografia de Damastor; mas latim precário e falsas etimologias casam-se com padres. Riscado padre, acima escreve vigário. E mais à frente corrige: vigário dos contos.

Projeto de memórias; desde já compromissado de serem falsas; e destinadas ao fogo, fogo milenar elemento ao homem pré-existente quanto pré-existentes água terra e ar; um deles irá consumi-lo seja por excesso de ondas ou labaredas, escassez de fertilidade, pesado de impurezas.

Assim começa Benedito Rui, lápis no papel:

Nasci no mês dos santos, não todos mas três, escapei de ser Júlio pela parecença com Junho, e por pouco não me chamam Pedro tão duro nome Antônio de agulhas góticas por enfeites ou João grandalhona e pulposa massa, pressupostos de religioso trato por ser minha Mãe dos tempos de antigos católicos, escapei de ser Júlio pela parecença com Junho, mas em Benedito meu nome por fim tem registro e minha vida, nem tanto benevinda sequer benedigno nela vivo, selam minha boca amargosto e salamargo visgo e assim pouco falo se querem saber e tampouco escuto, escrevo, sim! para labaredas entanto!, pois reservo à minha mente sítios de encantos próprios tal cinema fora conquanto não o invadisse a desaforama humana; minha Mãe acrescentou Rui e mais nada. Devo à Minha Mãe não só a luz quanto ter vivido muito, ela que tanto viveu ensinou-me ser a pirraça o maior encanto da vida: muito viver para provar que ela vida vale nada por certificado de quem muito viveu com escárnio dela.

As fitas de cinema, precisos o cortes e seqüências ordenadas uma cena em busca de outras, o antes e depois amarras de complemento constelam-se mutuantes, passagens inteiras regidas ao som de orquestra na sinfonia universal, cellos e trompas símile nimbos transversos raios de sol, fitas de cinema quando quero revistas, obedientes contam da história a mesma memória, os vilões e heróis repetidamente reais, vilões verdadeiramente heróis; a vida eu queria assim.

Amado celulóide. Tal e qual. Mas não!, em branca tela pinceluz o destino a Fortuna leviana voltívola vaidosa pluma, se estava escrito o correr de nossa vida um rio marginado de leito profundo é desordenada foz em delta de estrondoso banzeiro. Vivi muito, e vivo!, além do desideratum. Mater Mea vive centenária, lúcida memória embora troque datas, turra teimosia. Conheço portanto o surpreendente dos dias, e dos coevos quantas decepções fiz questão de marcar com graphita mole para melhor ferretear no papel: este sim em branco e aceita o correr de minhas penas conforme volúvel eu passo a borracha e remendo ao prazer de meus riscos; e risos. Assim resolvi escrever minhas memórias dos outros; então posso dizer assim estava escrito, como manda a filosofia árabe para contrapor-se ao remoinho das areias do deserto, matéria prima das ampulhetas. Toda mesquita tem nos muros passagem santa, mihrab, caminho direto a Meca. Quisera eu a vida em linha reta.

Benedito Rui escreve e lança ao lixo, balde de alumínio posto num canto. Quando dorme, a Mãe insone amparada em muletas cata limpa e guarda-os em caixa de papelão. Não os lê, a vista fraca fadiga enfado, aprova o escrito desde pelo filho escrito. Alguns pedaços rasgados, outros parte queimados, guarda com materno carinho e gosto de contrariar.

Nem seria fácil ler. Não pelo estilo, simples e claro quase teatro nô, direto de duro, sinonímia precisa embora escassa, tanto detesta o rebuscado quanto deplora o rebuscante se escassa, casticista. Difícil leitura reside na profusão de remendos, trechos em branco palavras riscadas, no meio das frases notas a serem usadas em futuro próximo nunca presente dado o balde à espreita e o fogo com fome. Personagens sem nome, outros com vários; nomes calcados em defeitos, a Muda ou Dedicada, quando qualidade, qualidades nunca comprovadas em virtudes e defeito testemunho de valoroso caráter. Aos que leu a Mãe rasgou, minúsculos pedaços como quem, distraído obcecado, mecaniza os atos. Remorso nenhum, então dorme. Se remói arrependidos levanta-se com a dificuldade de velhos, junta os rasgos remenda como pode, alguns cola em ordem inversa dada a vista sofrida de nada de bom ver na vida e, meticulosa, guarda nas caixas de sapato junto às mechas de cabelo a Benedito cortadas aos quatro anos de longeva idade. Então sim, nesta noite dorme.

Dia seguinte afirma não dormi nada. Se dormir é entrega inocente a orfeu, descida aos infernos desatados do mundo os comandantes sentidos e às delícias do descanso somados a liberdade dos sonhos e o perigo de bebendo água dessas fontes nunca mais querer voltar, então não dormiu. Atenta, se fecha os olhos transforma-se argos em seus ouvidos milmultiplicados. Ouvidos esses que não devolve no dia seguinte, nem os olhos, embora diga não enxergar bem e obrigar repetições ao interlocutor ‘té eleve o tom da voz para ela irritada dizer que não é surda. É quando Benedito Rui não ri, dias sem falar, escreve e apaga escreve e rasura escreve e rasga escreve e queima, escritos que religiosa ela recupera para, alguns, ela mesma rasgar. Então dorme. E recomeçam.

Padre amargo, escreve Benedito referindo-se a Damiano, e desconfia se amargo não se aplica reflexivo a seu humor; padre amargo de crime nenhum mas infindas intenções. Risca amargo após padre acrescenta amaro e risca e volta amargo escrito em forma. Risca a frase toda e, maiúsculas para novo parágrafo Damastor paresta Damiano e solene surge empós Dalgisa, os suspensórios caídos pelo dorso, a voz vinda do além do sono: nada sublime obsessão, parece-me, tolda-lhe o espírito. Apaga solene embora o papel guarde ainda traços calcados da forte escrita. No lugar prefere o gerúndio de aparecendo primeiro porque Dalgisa já surgira no umbral da porta e não quer repetir, tira empós acrescenta atrás por ser mais direto. Fica: Damastor paresta Damiano aparecendo atrás de Dalgisa. Borracha forte em Dalgisa e troca por Olga, por causa de Volga. Recusa paresta por muito precioso e prefere ombreia, porque se liga a umbral onde já aparecera Olga e dá a impressão de encostar-se nos ombros de Olga. Ri. Ri da última frase e de aliterar Olga e Volga pensando em rio ruço de pecados. Ri alto e sua mãe pede que lhe dê um suco, quatro horas é hora do remédio e ser feliz tem tempo.

Um homem entre suas coxas intruso, bruto e possesso, a fazer de seu corpo seara de sementes molhadas. Benedito modifica mas havia deixado ali para que a mãe lesse, noite de dormir pesado, se leu calada ficou de fala de gesto de olhar. Ainda assim resolveu incluir no Memória Prohibida de Damastor Sem Culpa. Fará parte dos sonhos ruços de Damiano, mas poderia fazer parte dos sonhos amenos de Juvenal, inimigo do sol amante do néon da lâmpada a carvão da sala escura de cinema do bolor do porão de photos antigas até que um dia à luz do dia viu surgir Olga Doña Sol vestida de noiva e, em seus sonhos antes delgados pudores em porta fechada cobriam castos beijos de felizes namorados, a virilidade estampada em amores brutos toma relevo de guerra e, claro, em todos Olga prometida e nunca entregue somente à força esgarça limites de seu corpo divinal.

No Fim da vida Juvenal desistirá de ir a cinemas, cinema sem projetor de filamento a carvão correm higiênicas as cenas digitais, os beijos na pressa de mostrar paixão carregam de pecado as trocas e pulverizam as sutilezas dos sentimentos. Buscara em vão os estalidos do filme projetado. O estalido das trilhas sonoras comparsas dos riscos nas telas, descuidos na mudança do rolo números letras e jatos brancos a denunciarem como verdadeiro sonho o real na escuridão iluminado. Para ele Benedito Rui escrevera um epitáfio nem tanto lapidar e que pretendia não incluir em seu livro de Memória dos Outros:

Amado celulóide. Nele impressas scenas esperam jorros de vida da luz advinda. Tela fugace. Trânsitos luminosos. Leves chumaços brincam no escuro brilhos de essências irreais. Em branca tela. Amado celulóide. Entre os dedos a fita, restos centímetros de um longa metragem, a cada fotograma um gesto a pouco e pouco se completa, instantâneos à espera de luz e manivela os lábios aproximam-se quadro a quadro num beijo selados, enquanto mudo o letreiro confessa: Amor de minha vida! Quem terá dito a frase assim escrita, ele ou ela?

A lágrima rola fotogramas abaixo, marca o celulóide a queimadura feito flor cinza filha do calor da lâmpada mesma luz que à lágrima alumia agora tolhe do choro o movimento, em meus dedos o pedaço; a dor na face sem palavras.

Amor de minha vida!, nunca ela me disse, sequer me amou a vida ou alguém. Enredo preto no branco. Olga, nunca mais.

Sobre Laslos redigiu escassas notas. No rodapé de um caderno de caligrafia escreveu Atraído pelo som do violino da Sinfonia Hespagnola rica em violinos Laslos entre eles ficou! No meio de uma oração de São Francisco, talvez referindo-se a Laslos: Todos já sazonados, ele ainda na provocante juventude. Colete xadrez, mangas arregaçadas força o braço à mostra, cabelo na testa por displicência desmanchado mas sabia sua mulher que cada mecha ondulava, a poder de pente e brilhantina, em estudada curvatura.

De Damastor a quase-auto-biografia tantas notas tem que várias caixas de papelão foram usadas para guardados e, um tanto maior de recortes lembranças e anotaçoes para Raphael e Olga, de nomes verdadeiros chamados Denizard e Dalgisa por precaução modificados, denotativo do desejo de, no fundo, Benedito Rui ter publicados impressos em brochura ou capa dura e lido seus escritos falsos mas nem por isso menos verdadeiros.

Dissera um dia: Cabocla Teresa, a mais bonita do lugar.

Ao que a Mãe, orgulhosa da própria beleza juvenil da beleza dos maduros anos e de recortes perfeitos proporções de traços testemunhas de bela ainda malgrado as rugas responde rouca voz: Cabocla Teresa nunca existiu: musicou-se a lenda para atemorizar mulheres malintencionadas quanto à honra de seus maridos.

Ao ler, aqui ali, em papeis avulsos sobre Meninico e Gertrudes, duplonome da ama Julieta, a Mãe desconfiou da intenção de Benedito relatar com maldade uma não muito digna juventude sua vivida em terras de São Sebastião, dos quais nunca achou nem rascunhos mas, via das duvidas, Deus me proteja. E na cadeira empalhada não se embalança.

paulinotarraf

13/07/2009

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